As time goes by

     Estes fatos aconteceram nos Montes Tharsis, em Marte, e envolveram-me com um tataraneto, Tifônio. Antes de narrá-los, preciso criticar meus antepassados, pois não me previram, sequer suspeitaram de minha descendência. Penso mesmo que duvidaram do futuro, sintoma de vaidade excessiva com o próprio tempo. Assim, jamais cogitaram que hoje eu escreveria sobre o rapaz. Apesar do descaso, a probabilidade de nossa existência tem sido eternamente absoluta, este instante sempre houve e haverá, quando nada dentro da lógica cartesiana. Tifônio e eu pensamos, estamos aqui e agora, ninguém pode negar. 

     Alguém contra-argumentaria que, há dez gerações, as condições do presente seriam tão inconcebíveis quanto detalhar a evolução do universo desde o caos até o Homo sapiens. Para ilustrar a dificuldade, quem poderia adivinhar, dois séculos atrás, a queima recém-ocorrida, na sala em que escrevo, de uma lâmpada de cem watts no exato momento em que uma rádio FM começava a tocar As time goes by?

     Entretanto o cosmo, Tifônio e eu existimos durante todo esse tempo. Somos verdades irrefutáveis, sintetizamos elementos conhecidos de causa e efeito, apenas não se soube separar a conjectura da realidade. As pessoas preferem negar o mundo ou creditá-lo aos deuses quando enfrentam a complexidade dos inter-relacionamentos e coincidências que nos precedeu - ou que virão depois. Em qualquer época, contudo, é inevitável a opção por um determinado caminho, qualquer caminho, do qual somos caroneiros e, neste átimo, partes integrantes e essenciais. Um futuro sempre acontece. Mesmo que não mais estejamos lá.

     Voltemos aos Montes Tharsis.

     Durante o verão de 2222, Olympus Mons não ficou coberto por tempestades de areia, o céu sem nuvens manteve a coloração rósea usual, a temperatura atingiu suportáveis dez graus Celsius abaixo de zero. 

     No ponto mais escarpado da vertente oriental, já com a faca na mão direita, Tifônio vacilou. Preparara-se desde a infância para o momento, até seu nome derivava da situação. Para alcançar a honraria do gesto, suplantara dois primos distantes e homônimos num concurso familiar. A poucos metros do objetivo, descobriu quão ridícula era a encenação. Por causa de um tataravô maluco, esperara completar dezoito anos e, após uma viagem de dezenas de milhões de quilômetros, encontrava-se prestes a desferir uma facada no maior de todos os Olimpos, gritando:

     "Morte aos deuses!"

     Fugia à racionalidade, consagrava a demência alheia.

     Olhou para baixo, examinou as pessoas que agitavam as mãos ou erguiam a bandeira criada para a ocasião, estalou um muxoxo, voltou-se para o zênite, viu Fobos em fuga para o Leste. Todos cumpriam um ritual idiota. Revoltado contra a aberração da atitude, golpeou a montanha e arrancou lascas de rocha.

     - Morte aos deuses - murmurou. 

     Em seu capacete, ressoou o júbilo dos parentes que tentavam falar ao mesmo tempo e, ensandecidos, lhe dirigiam congratulações. Desligou o receptor.

     Muitos esperávamos acontecimentos extraordinários em seguida, como a debandada de Zeus e séquito em busca de paragens mais seguras. Talvez um Apolo desconcertado abandonasse o carro à deriva ou as portas do Hades se abrissem. Quem sabe a facada paralisaria Cronos, e os tempos se uniriam? Assistiríamos à reprise do Gênese, precipitaríamos o Apocalipse? No mínimo, contávamos acordar o vulcão Olympus Mons, ferido no peito e na honra.

     Nada aconteceu.

     Pelas bandas de Marineris, apreciamos o preguiçoso pôr do sol. Às vezes, o tataraneto me buscava na paisagem, ainda sem acreditar que aderira à maluquice. Quando nos vimos, começamos a rir e nos abraçamos. A felicidade me comoveu, chorei. Uma brisa quase imperceptível desceu da montanha. O rapaz cantarolou As time goes by. Fiquei surpreso. Não esperava que a canção sobrevivesse tantos séculos.

LUÍS GIFFONI tem quinze livros que publicou desde 1988. Recebeu várias premiações literárias, entre as quais as da APCA- Associação Paulista de Críticos de Arte, da Bienal Nestlé, do Prêmio Minas de Cultura, do Concurso Nacional de Contos e de Romance Cidade de Belo Horizonte, do International Board on Books for the Young. Seus romances mais recentes foram indicados ao Prêmio Jabuti.