Ilustração: Alan Andrews

Histórias do Trem

1
Vou indo no trem lotado, de pé. Desde que decidi ser educado, haverá uma senhora disposta a sentar. Em uma das estações, entrará alguém com mais de sessenta anos com o rosto de poltronas azuis. É certo. Levanto as sobrancelhas, faço o sinal e finjo que a paisagem corre melhor daquele jeito. Sento somente na última estação, por três fugazes minutos. Em minha frente, um jovem retira o garfo do bolso esquerdo e a faca do direito. O guardanapo está no bolso interno. Estala os ossos, coloca a térmica aos pés e abre uma farta marmita. Ao seu lado, a menina vira a cara para a janela com desgosto. Ele começa a comer um feijão ainda soltando fumaça. Como uma águia que lambe as patas em pleno vôo. Já havia visto gente devorando sanduíches e lanches no trensurb. Pela primeira vez, assistia um passageiro dando conta de um prato de três camadas geológicas. Mastigava com devoção. Respirava e ria. Talvez os dois juntos. Não conseguia desgrudar os olhos de sua bandeja. Ele poderia ter dito como censura: "o que está olhando?". Não foi o que escutei. Com um jeito sincero, perguntou se eu queria um pouco.

2
Outra noite, voltando para casa, entrou no trem um senhora com uma vela acesa. Tinha a postura de aia tardia ou de primeira comunhão. A chama se agachava e subia nervosa, no vaivém irritante de chuvisco de tevê. Ela sentou reta, cuidando excessivamente com a coluna dela e do fogo. Um segurança passou pelo setor e pediu que apagasse a vela. "Não posso apagar uma promessa", replicou. "É como não pagar uma dívida". Ela falava bem, com um português de domingo. O segurança insistiu: "ninguém fuma no trem". "Eu não estou fumando, senhor. Não há nenhuma ordem que proíba carregar velas acesas aqui." Ele se calou e ficou ali, com seu colete de mangas cavadas. Não suportou a tensão da curiosidade: "Que promessa a senhora fez?". Ela não respondeu. Desceu na primeira parada e entrou em outro vagão.

CARPINEJAR, Fabrício Carpi Nejar, poeta e jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002) e Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003)