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Religiosidade prêt à
porter
Regina Zilberman
"A caminho do Paraíso"
de Marilia Pacheco Fiorillo
Editora Siciliano
Quando parecia que o racionalismo da modernidade tinha completado o processo de desmitificação deflagrado a partir do final da Idade Média, verificou-se incontrolável refluxo. Desde as últimas décadas do século XX, presencia-se notável ascensão das correntes místicas, que, se tomaram formas variadas, partilham idéias semelhantes. Uma delas é a cruzada contra o demônio, matéria dos fundamentalismos orientais e ocidentais; outra é a crença de que a mera conversão à religiosidade soluciona qualquer problema, sempre a favor do convertido. Transparece também a convicção de que se pode desempenhar uma prática religiosa sem uma teologia, isto é, a fé parece poder prescindir de base filosófica e formação intelectual; por isso, qualquer um está autorizado a ordenar-se sacerdote e arrebanhar seguidores, bastando esses acreditarem em premissas em que se misturam pedaços colados e contraditórios de cultos tradicionais e consolidados.
Uma literatura erigiu-se sobre esse patamar místico, que dispõe de um gênero próprio – a auto-ajuda, embora recorra igualmente aos gêneros clássicos, como o romance, que gerou uma espécie de sucesso, a de tipo esotérico. Autores, nacionais e estrangeiros, que cultuam essas modalidades de escrita, alcançam grande êxito, haja vista a carreira invejável de Paulo Coelho, que, contudo, sofre o assédio de best-sellers como Zibia Gasparetto, improvável candidata à Academia, mas certamente uma das escritoras mais lidas por um público brasileiro em que se identificam nomes famosos do show business local.
Os contos de Marilia Pacheco Fiorillo, em A caminho do Paraíso, aparecem na contracorrente dessa tendência, na medida em que se abeberam de seus processos, para desmontá-los. A contista expõe-se, como um Paulo Coelho às avessas, para denunciar, pelo viés do riso, o alto grau de mistificação que sustenta as práticas religiosas representadas nas narrativas. Ao mesmo tempo, esclarece o lugar onde elas se desenvolvem e o tipo de indivíduo que se deixa levar por esse tipo de ilusão. Radiografa com precisão o fenômeno, para poder diagnosticar a doença e oferecer, ao leitor mordido pelo mal, alternativas de cura.
O livro reúne oito contos, separados em duas partes. A primeira, "Puritanos", apresenta quatro narrativas, três delas centradas em personagens que, de alguma maneira, passaram por alterações significativas depois de se depararem com alguma seita alternativa às religiões tradicionais. "Com lágrimas nos olhos" é exemplar: a narradora converteu-se a um movimento carismático e levou o marido a exorcizar seu escritório, porque os negócios iam mal. A seu ver, tudo melhorou desde então, embora, nas entrelinhas do depoimento, o leitor entreveja o desmoronamento da vida familiar e o aniquilamento da identidade da narradora, mergulhada na abulia e indiferença.
A quarta narrativa da primeira parte, "Pobre diabo", altera o modelo narrativo: as manifestações não provêm de representantes das classes médias brasileiras, mas do próprio demônio, alvo predileto dos cultos fundamentalistas modernos. Contudo, essa figura, como em relatos de Machado de Assis dedicados ao tema ("A igreja do diabo" ou "Adão e Eva", entre outros), acaba por descobrir que diabólicos são os homens e a sociedade, tornando dispensáveis as maldades atribuídas a ele. O conto tem, de certo modo, a função do baixo-contínuo, pois explicita a visão de mundo que atravessa todas as demais histórias.
A segunda parte, "Pecadores", também reúne quatro narrativas, mais curtas que as anteriores. O subtítulo delas remete a quatro dos sete pecados capitais, que acometem, tal como nos textos da primeira parte, personagens oriundos da classe média brasileira. Retratando o cotidiano delas, como a inveja da propriedade alheia ou o sentimento de posse, Marília Pacheco Fiorillo inverte o processo criativo da primeira parte. Se, nesta, as pessoas adotavam seitas e cultos de última hora, talhados para solucionar suas dificuldades, repressões e rejeições, na segunda parte, problemas similares são interpretados à luz de conceitos cristãos, sintetizados nos chamados pecados capitais.
Elegendo, para protagonizar as narrativas, personagens colhidas nas camadas médias urbanas brasileiras, Marília Pacheco Fiorillo deixa claro o que a preocupa: entender o desenho e o comportamento do brasileiro, em que o desejo de ultrapassar a opressão econômica e a condição subalterna faz com que aceite saídas fáceis e alienantes. Essas opções, se tomadas a sério, são risíveis, e dessa contradição a escritora extrai a comicidade dos contos. O que não significa que uma concepção religiosa não possa ajudar a interpretar a atitude das pessoas, como faz a autora na segunda parte de À caminho do Paraíso.
Por essa razão, a obra oferece-se enquanto construção dialética, fazendo os contos interagirem uns sobre os outros. Não por acaso personagens secundárias de algumas histórias tornam-se centrais em outras, ilustrando a permeabilidade das narrativas. O resultado é um livro instigante e, no contexto cultural e político da virada do milênio, quando conflitos bélicos valem-se de argumentos religiosos para se justificarem, altamente oportuno.
REGINA ZILBERMAN é
professora de Teoria da Literatura no curso de Pós-Graduação em
Letras da PUC-RS
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