Pedra e gás

Para Ryta de Cássia

A gente olha a montanha e admira sua placidez. Imagina estar diante de um monumento natural à paz. A imensidão da pedra fria faz esquecer que a montanha foi expelida da terra com a violência de mil tormentas. Foi o fogo, o caos da terra rompida que a fez tão grande.

Muitas eras foram necessárias até que a pedra deixase de fumegar. Só então pulsou serena. 

Ontem, Luzia me disse: "Quero que me olhem e vejam uma montanha". Ontem fez um ano que o filho dela foi morto.

Se tivessem matado um filho meu, eu também ia querer virar pedra. Olhar nos olhos de Luzia é mergulhar numa dor tão profunda, num susto de tamanha extensão, numa brutalidade tão pura que não há corpo que se sustente na carne. Luzia é pedra porque ficou cristalizada no limiar do horror. É pedra porque diante das grandes derrotas só resta a impassibilidade: uma forma mais branda de morte.

As montanhas surgiram assim: expelidas da terra com a força de mil tormentas. Foi o fogo, o caos da terra rompida que as fez tão grandes.

Luzia hoje é muito maior do que era antes.


ROSA AMANDA STRAUSZ estreou na literatura em 1991, com o livro Mínimo múltiplo comum, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. De lá pra cá , lançou mais de uma dezena de títulos infanto-juvenis, entre os quais se destacam: Mamãe trouxe um lobo para casa! (Prêmio Revelação da FNLIJ); A coleção de bruxas de meu pai (Prêmio Revelação da FNLIJ) e Uólace e João Victor (Prêmio João de barro e Selo Altamente Recomendável).