Um pastor de nuvens

Prêmio Paraná de Contos 2002

Ao meu Avô

      Aos 89 anos meu avô começara a perder os colegas de praça, um a um. Continuava saindo de casa todos os dias, ao cair da tarde, na hora triste do pôr do sol, mas já não jogava damas, cartas, xadrez, com outros homens velhos, na mesa improvisada no centro do coreto da praça principal da cidadezinha. 
      Cada vez mais se afastava dos sobreviventes, dos “heróis da resistência”, os amigos que a morte ia deixando para pegar numa outra viagem - fugia como quem se posta no último lugar de uma longa fila de condenados.
      Sentava-se sozinho no banco localizado no ponto ermo no extremo sul da praça. Nenhum jornal, radinho de pilha ou revista. Ele, um voluntarioso por natureza, que insistia em morar só e achava que já era gente demais. Dava pena.
Muito digno com seus cabelos brancos, suas calças de linho (sempre marrons), suas camisas de mangas compridas (presente de um dos quatro filhos) atacadas no punho numa tentativa de esconderem o número que lhe deram no campo de concentração de Auschwitz.
      Um franzino e inocente velhinho de 1.74m. Sim, dava pena.
      Talvez por isso, um dia, eu tenha passado a cumprimentá-lo cada vez com mais candura e até parado, fazendo-lhe companhia. Nunca fomos chegados (o eterno choque de gerações!), de modo que a lua devia achar curioso aquele par: um homem de cabelos brancos, camisa cinza, calça marrom e alpercatas (limpíssimas) de couro, ao lado de um homem de 22 anos, cabelos negros, tênis, jeans e camisa pólo vermelha. Quase sempre calados. Quase inertes. Pastores de nuvens. 

      “Passeando, vô?”
      “Vim ver a mudança do tempo”, dizia com seu jeito vago.       Com ‘mudança do tempo’ estaria querendo dizer pôr do sol e nascer da lua?
      “O senhor gosta de ficar aqui sentado, sem fazer nada.”
      “Já notou? Quando se estar entretido o tempo passa mais depressa. Parado, não.”
      Ah! era isso. Pensei ter descoberto o porquê de sua calma, pasmaceira mesmo. Meu avô fizera um acordo com o tempo. Um beneficiava o outro com a mesma perfeição, a mesma simbiose que une o vinho jovem ao velho barril de carvalho.
      Sorri.
      Em resposta ele pôs a mão em minha coxa. Não era o gesto vacilante de um ex-prisioneiro. Havia densidade em sua mão.

      Não é de falar, de sorrir menos ainda. Mas hoje, dez anos depois de nossa conversa, à espera de completar um século, quando o encontro na praça meu avô me sorri como quem guarda um segredo. Nesses momentos tenho certeza: em algum ponto da trajetória meu avô laçou o tempo e o prendeu a uma coleira, amarrando-o por fim ao banco da praça. Não pode ser de outro modo, eu penso. Estanho mas verdadeiro. E sei que sempre será assim. 
      Até quando ele quiser. 

WALTER MOREIRA SANTOS é autor dos livros Ao Longo da Curva do Rio (Ed. Cone Sul, SP, 2000), Prêmio Xerox do Brasil 2000 e O Doce Blues da Salamandra(Ed. MXM, Recife, 2001), Prêmio Elpídio Câmara 2000. Tem ainda no prelo o romance HELENA GOLD (Geração Editorial, SP). Recbeu inúmeros prêmios literários, entre eles, Prêmio Litteris Editora, SP, no Concurso Contos e Crônicas, Junho/1992; 2º lugar no VI Prêmio Paulo Leminski, PR, 1995; 1º lugar no V Prêmio Paulo Leminski, PR, 1994; Prêmio Nacional de Romance Fundação Cultural da Bahia, BA, 2000; Prêmio Cidade do Recife 2000, PE, com a peça O doce blues da salamandra. Prêmio IV Festival Xerox do Brasil e Revista Livro Aberto, SP, 2000, com a novela Ao longo da curva do rio.