Ilustração: Willy Ronis
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Passo e descompasso
O sêmen secou em silêncio de rocha e mineral.
Anaïs Nin
Aqueles que nada possuem são os donos da rua. Naquele tempo, não tínhamos muito além do desejo que nos explodia como uma bolha - em nossos ventres, em nossas mãos. Devorar com os olhos e reter entre os dedos, uma fumaça que se esvai. Vazávamos embaixo, com o desespero dos nossos vinte e tantos anos. Já haviam transcorrido as primeiras agonias. Todas as pequenas mortes que vivemos, em todas as casas erradas em que nos derreamos, e não desfrutávamos uma existência senão efêmera, provisória, fugaz como uma morada de aluguel. Nada de definitivo a não ser aquela ânsia na alma, aquela fome que não se sacia, que ainda não liquidamos, mas porventura já aprendemos a disfarçar. Domar não, porque se trata do sopro da ventania. Espírito e calamidade.
Vivendo com as respectivas famílias, sem um lugar só nosso, perambulamos por quartos alugados a 12 reais o período, apartamentos emprestados e mesmo, uma ou outra vez, o local de trabalho da bela. Carro não: nunca dispomos disso. Somos fundamentalmente peões, e então éramos habitantes de bairros com ônibus direto para a nossa área de eleição, o miolo onde gostávamos de estar. Cada um havia feito suas loucuras sim, mas já não vivíamos o cúmulo da ousadia: a época de transar embriagado nas dependências do grêmio estudantil ou em algum banheiro da faculdade já estava quase em outra vida. Se experimentávamos um estatuto precário, também não nos entregávamos ao puro improviso. Não éramos uma sucessão de encontros casuais de fim de noite, uma orgia ordinária de bebidas baratas, charutos baratos e amores baratos. Telefonávamos para combinar o rumo do dia, procurávamos um ao outro, não deixávamos ao acaso, deus caprichoso. Empenho e elaboração.
Ainda que a produção fosse ligeira, havia uma calcinha provocante nas suas várias tiras laterais ou mesmo a vagina nua, obscena e enfurecida dentro da transparência da meia-calça, por baixo do eterno blue jeans. E as lembranças miúdas, mimos e recuerdos - um apontador decorativo, um porta-bijuteria. Presentes que ela me devolveu no dia da ira. Também tivemos nossas turbulências. Se não experimentamos o clarão de raios e relâmpagos, não podemos negar uma ou outra chuva, bem como as trovoadas surdas. Hoje, talvez tudo já esteja decantado. Ou, antes disso, porventura o fato de eu estar aqui te relatando o sucedido não passe de um último esforço, um último filtro a que preciso submeter aqueles meses em que apenas tocamos pra frente, sem epopéia ou tragédia. Flauta e violão.
Sem agudezas, ela e eu seguimos a crônica por aquelas duas ou três estações de trivialidade: o trabalho na repartição e depois, nas horas livres, a diversão entre suas coxas claras, seus pêlos escuros. Tínhamos um arranjo, como se dizia cerca de um século antes, conforme aquele escritor português. Não cultivávamos muitos arroubos, mas não posso me queixar da perícia e humildade com que ela me sugava o sexo em riste e depois se abria para meus movimentos ritmados. Também não posso esquecer como, andando de mãos dadas no frio da noite, ela puxava o meu punho abaixo do seu capote, como para eu lhe esfregar o centro do corpo em plena via pública, enquanto caminhávamos no lusco-fusco da iluminação urbana, nos logradouros já meio desertos. Vontade e pudor.
Em geral, tínhamos destino, não estávamos entregues à aflição andarilha dos demasiado jovens. Tínhamos uns recursos mínimos. A urgência do desejo e a ausência do dinheiro são uma combinação explosiva, normalmente praticada em quadras mais heróicas. Para nós, já ia ficando no passado a era das pirotecnias. Nesta altura de que estou te contando, a mistura tinha o silêncio relampeante dos punhais: arroubo e serenidade, um fervor tacitamente furtivo. Corte e doçura.
Já não pastávamos, já não éramos pasto da curiosidade e do despreparo, já era preciso saber o terreno. Circulávamos sempre no mesmo perímetro, um conjunto de ruas que, considerando as principais, não é assim tão vasto. A trote, era de se percorrer de uma ponta à outra em menos de uma hora. E esse círculo de ferro continha tudo ou quase tudo de que precisávamos: escola, cinema, sebos e livrarias, bares e restaurantes, residências amigas, motéis. A cem metros das nossas salas de aula, estava o apartamento que foi cenário do meu primeiro beijo. Uma história que não vale a pena lembrar: solidão de lado a lado, a minha inexperiência, os problemas psicológicos dela, em ambos um desacordo com o mundo. Não podia terminar bem. Acho que naqueles braços eu nada aprendi - nem mesmo o caminho para a ferida suculenta, a força e o gemido. Ali, a seiva da existência se escondia em quantidade abaixo do aceitável. Uma situação que não se sustenta. Carência e mesquinharia. Aspereza e insuficiência.
Aquela outra, minha pequena sereia do chão, mais sábia e acessível, carregava consigo o veneno do mundo e se entregava a ele. Porém, nossas performances eram quase conservadoras. E, mesmo assim, sempre eram boas. Não havia a obrigação de serem espectaculosas. Se dispuséssemos de um lar, seriam uns intercursos domésticos, limpos e tranqüilos - na medida em que pode ser limpo e tranqüilo o interpenetrar de dois corpos, duas almas, duas vontades. O que tínhamos de aventuresco era quase tão-só a magreza dos recursos e o nomadismo. Além de uma tristeza, uma mágoa insepulta que se denunciava talvez apenas no olhar. Incompletude e descompasso.
Fica comigo a lembrança da sua figura miúda, os seios redondos e brancos como que se dissolvendo e, acima de tudo, aqueles olhos aflitos, prendendo os meus enquanto seus dedos deslizavam por lábios e clitóris, com raiva e desespero, até ela alcançar o gozo - sempre depois de mim. O breve espasmo que sempre me pareceu demorado, uma mirada longa e silenciosa, plena de palavras caladas, ameaçadora eletricidade. Tombado no travesseiro, quieto dentro da mulher, eu esperava que as pontas de suas falanges resolvessem a parada. Na cena, porventura corriqueira, havia uma emanação quase palpável, quase ao ponto de ser espremida na mão. Estar no seu sexo era quase mergulhar em sua alma. Mas também havia uma trava. Era muito real o gosto de derrota no fundo da garganta, um sabor de que nosso máximo desempenho era uma masturbação de casal, uma relação incompleta em que cada um de nós permanecia encerrado no próprio invólucro de pele - não chegávamos à carne, ao sangue, aos ossos, à medula. Diferença e estranhamento.
Ela é minha culpa, meu pecado. Não fui tão fundo como em outros relacionamentos, não me entreguei inteiro. Não falávamos muito acerca de nós. Cada um dizia de si, do que viu e viveu, e isso não se somava muito. Não tratávamos tanto de nós, essa identidade coletiva que faz de uma dama e um varão um casal. Ela e eu fomos coincidentemente livres no mesmo tempo e lugar, freqüentando mais ou menos os mesmos ambientes, partilhando vários amigos. Tivemos qualquer coisa como um caso, não muito divulgado - não havia muito o que esconder, mas também não havia muito o que apresentar. Quando penso nela, dói um pouco. Não sei direito o que fui na sua vida e tenho a impressão de que ela nunca disse tudo o que sentia. Nunca me cobrou muito. Fomos apenas duas disponibilidades coincidentes. Juventude e camaradagem.
ReNato Bittencourt Gomes é autor de Mecânica dos fluidos (Imprensa Oficial do Paraná). "Passo e descompasso" pertence ao inédito Devoções profanas.
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