Ilustração: Gabriel Metsu |
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Naban
(Do livro "Pequeno Tratado Sobre as Ilusões",
Prêmio Guimarães Rosa de Contos, 1998, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais e Universidade Federal de Minas Gerais)
Ele vinha todos anos e sempre chegava com as primeiras chuvas de novembro.
Em outubro, eu já começava a esperá-lo, já sentia o seu cheiro no vazio da cama, o seu odor de almíscar, de gengibre e de terras longínquas. Mas os sinais da sua vinda também invadiam o meu corpo, ora empedrando a ponta dos seios, ora retesando os músculos das coxas.
Chamei-o Naban desde o primeiro dia, desde a primeira vez, e assim ficou. De mim, ele conhecia até a alma, e um nome falso: Desdália. No resto, imitávamos os bichos, os de garras, os de peçonha.
Os sinais da véspera me jogaram frente ao espelho, atrás de caprichos. Lustrei brincos, preparei ervas, deixei que os meus olhos ficassem profundos. À noite, tresloucada, testei idiomas de feras, falei com vultos, pratiquei as unhas.
Naban chegou conforme o esperado. Estava mais velho, mas ainda era um cavalo. Riu e se banhou. Tinha histórias de amedrontar e de acariciar. Às vezes vinha, me asfixiava no canto da sala; depois ia, vigiava com os olhos de lobo a chuva esparramando facas, martelando telhas.
A casa já cheirava a Naban.
Mais tarde, enquanto me revirava e me esquartejava, Naban deixou aparecer por entre os dentes a língua verde. Em seguida, seu rosto se alongou em focinho e a pele enrijeceu, formando placas, cascos, umedeceu como as plantas dos brejos.
Ainda era Naban, assim eu o sentia. Mas quando chegamos ao silêncio das águas dominadas, vi Naban se mover lento para o chão, e lá rastejou. Logo fui encontrá-lo na chuva, barrento, os olhos aquáticos e amarelos.
Hoje Naban é um animalzinho que ressona preguiçoso junto às macegas, nos ermos do terreiro. E eu, eu sou uma mulher que, com os anos, perco saudades e palavras. Sou uma flor que desfolha.
PAULINHO
ASSUNÇÂO nasceu em São Gotardo, Minas Gerais, em 21 de julho de 1951. É poeta, ficcionista e jornalista profissional.
Como poeta, publicou Cantigas de Amor & Outras Geografias (1980) , A Sagrada Blasfêmia dos Bares (1981) e Diário do Mudo ( 1984).
Como ficcionista, recebeu em 1998 o Prêmio Guimarães Rosa de Contos com o livro Pequeno Tratado Sobre as Ilusões.
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