
Ilustração: Jana
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Duas histórias no Hotel Cervantes
O velho Hotel Cervantes no centro histórico de Montevidéu é hoje um centro cultural, mas Petrone, um comerciante argentino, nos anos 50, garantia tratar-se de um hotel sombrio, tranqüilo, quase deserto.
Os 100 quartos do lendário Cervantes de 1928 hospedaram personalidades ligadas às artes e a literatura: Gardel compôs tangos num deles, o filósofo Emilio Oribe passou seus últimos 20 anos em outro e Jorge Luis Borges ocupava um terceiro sempre que viajava a Montevidéu.
Mas nem só de personalidades vivia o Hotel Cervantes. Nos anos 50, enquanto Sergio Rivera, personagem do conto "Acaso irreparable" de Mario Benedetti saia do Uruguai para hospedar-se em um hotel horripilante na Hungria, chegavam pelo "vapor de la carrera" dois comerciantes argentinos criados por Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares.
As buscas por coincidencias argumentais, símiles, paralelos sempre foram o prazer dos pedantes que vêem Metamorfoses (de Ovídio) em Sonhos de uma noite de Verão (de Shakespeare). Interessa se um texto de Maupassant se assemelha a outro de Joseph Conrad? Nos deslumbra menos "O Aleph" de Borges pela semelhança com a história mais bonita do mundo (de Kipling)?
Entre as coincidências literárias estão os contos "Un viaje" ou "El Mago Inmortal", de Bioy Casares e "La Puerta Condenada" de Cortázar, que relatam de forma idêntica a história de Petrone, de Cortázar e do "eu" de Bioy Casares, hospedando-se no mesmo hotel uruguaio, onde não conseguem dormir por causa de vozes no quarto vizinho.
Ao longo da insônia dos personagens, os sons tornam-se reais e as testemunhas sem sono compartilham da vida de outras pessoas. Finalmente descobrem que o enredo não existe, visto que no quarto ao lado havia um único e impossível convidado.
Os contos iniciam com a descrição melancólica da janela do banheiro, em Bioy Casares, "Cuántas veces, por la ventana del baño, que da a los fondos, con pena en el alma habré contemplado, a la madrugada, un árbol solitario, un pino..." e em Cortázar: "El cuarto de baño tenía una ventana más grande, que se abría tristemente a un muro, a un lejano pedazo de cielo, casi inútil".
Os dois personagens sofrem do mesmo tédio diante de seus negócios, compram os mesmos jornais que lêem sem interesse, passeiam pelo centro da cidade, falam das pombas. O personagem de Cortázar não entra no cinema porque já vira o filme que o personagem de Bioy assiste. Ao aborrecimento soma-se à fadiga e às vozes noturnas. O choro de uma criança, os murmúrios de uma mãe despertam Petrone. O fracassado don Juan de Bioy é castigado pelos gemidos de um casal em estrepitosa e interminável noite de amor. O primeiro reclama na gerência e ouve no quarto ao lado está apenas uma mulher sozinha, sem criança e o segundo precisa conformar-se porque não há outro quarto vago. No conto de Cortázar, o personagem sente-se estranhamente só quando se faz silêncio no quarto ao lado; no de Bioy, o personagem é tomado pelo humilde desejo de conhecer a mulher do casal vizinho.
Mas, através da porta condenada, volta-se a ouvir o choro da criança e no outro conto o invejoso insone descobre que no quarto ao lado não há nenhum casal e sim um velho chamado Merlin.
Paradoxalmente, Bioy Casares que sempre acreditou no extraordinário, recusou admitir outra razão que não a coincidência. Cortázar cujas histórias tendem a relatar eventos fantásticos sustentou que na coincidência havia uma mensagem indecifrável.
Descobrir onde e o que eles estavam fazendo quando eles escreverem a história do vendedor, mostrou que estavam sós, Bioy em um hotel de Portofino, lendo Dante, Cortázar, em uma casa em uma floresta da França, lendo um livro de vampiros. Ambos com saudades de Buenos Aires empreenderam então uma viagem imaginária que por um motivo qualquer decidiram ser a Montevidéu. E empreenderam a viagem imaginária no vapor da carreira, para o hotel Cervantes, para o quarto fantástico.
Em 1973, o destino reuniu os dos escritores em Buenos Aires para juntos rirem de um plágio sem plágios cuja redação impecável em ambos invalida a suspeita de qualquer crítico.
Este encontro de 1973 foi o último entre Cortázar e Bioy Casares.
A citação do Dom Quixote que precede o conto de Bioy Casares parece comentar a estanha coincidência: "El cómo o para qué nos encantó nadie lo sabe".
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