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O fantasma-menino da calle Rosario
Para a Silvia,
que nos encantou com as maravilhas desta história e nos fez acreditar na existência dos seus fantasmas
A sorte de Mayra principiou a mudar no dia em que Marisa, a cartomante, lhe disse que não comprasse a casa que trazia debaixo de olho, mas antes uma outra, que via claramente nas cartas, alta e com um tapete muito verde diante da porta. O mesmo, afinal, que tinha começado a aparecer-lhe nos sonhos desde que deixara o lar, o marido, os filhos, os cães, a piscina, o descapotável e a garagem com comando à distância, determinada a principiar uma nova vida, sem confortos nem mordomias e apenas com o ânimo dos próprios braços. Agora que sabe o que sucede à pimenta quando desaparece do sítio em que sempre é guardada, que percebe por que tropeçam os clientes e que conhece os motivos dos arrepios que percorrem o dorso das criadas, ganhou o
hábito de ficar muito tempo sentada nas escadas que conduzem ao piso superior do restaurante, olhando fixamente para coisa nenhuma, para algo mais pequeno do que ela e que estivesse poisado - como um vaso invisível cheio de flores rubras que lhe tivessem magnetizado o olhar - dois degraus abaixo daquele em que Mayra se senta para descansar. Se os nossos olhos pudessem ver aquilo que os dela, por vezes, vêem, saberíamos, todavia, que Mayra não olha para coisa nenhuma, para o vazio, mas antes que tem os olhos fixos nos olhos líquidos e grandes de uma criança que ali sempre está sentada e que não faz mais do que passar o tempo contemplando, calada, os movimentos da mulher. E se o rapaz existisse para nós como existe para Mayra, veríamos que tem os cabelos crespos e eriçados, que veste uma roupa escura à moda dos infantes medievais e que não tem mais de seis anos, embora o olhar fixo e perscrutador pudesse ser o de um adulto e a sua imobilidade seja mais própria de alguém que conheça já o mundo todo. Nos raros momentos em que se ausenta do degrau, e ainda que jamais alguém o tenha visto caminhar ou dizer uma palavra que seja, o moço vai sentar-se no balcão da cozinha e fica a contemplar Guilherme, o cozinheiro, concentrando-se na habilidade com que maneja os facões e as caçarolas. Mayra juraria, porém, que o rapaz não deixa nunca as escadas - embora nem sempre o veja ali, sente-lhe continuamente a presença -, do mesmo modo que Guilherme o tem como uma companhia absolutamente constante na cozinha, tão certo e regular como o nascer do sol a cada dia, sendo habitual que lhe fale enquanto corta os legumes e amassa a farinha de milho, sabedor já de que, por toda a Gijón, é apontado na rua como o cozinheiro que fala sozinho.
O menino do restaurante vegetariano na calle Rosario - que tem um tomate gigante pintado numa tábua por cima da porta e pedras da antiga muralha romana recortadas do reboco da parede - aprecia, porém, que Guilherme lhe
fale e que Mayra se sente junto de si nas escadas, destrocando conversas mudas. Afeiçoou-se-lhes assim que os viu na velha casa da Plaza de los Remedios, medindo as paredes e imaginando mesas postas entre as antigas
divisórias da casa de putas; e foi por isso que, tanto tempo depois de ali ter entrado, decidiu mudar de casa e segui-los quando fecharam o restaurante assombrado e se mudaram para a calle Rosario. Não lhes ocorreu, porém, que também a lenda pudesse migrar de um restaurante para o outro e, com ela, a boa fama dos cozinhados de Mayra. Mas assim tinha sucedido e o vegetariano da asturiana está sempre repleto de juízes e doutores, artistas e engenheiros, sendo comum que venham mesmo de terras distantes correndo atrás
da fama dos petiscos do assombroso restaurante. Grata aos sortilégios do fantasma-menino, a dona do restaurante passou a espalhar pelo prédio almofarizes de porcelana cheios de pimenta moída, que mantém escondidos dos clientes, mas sempre abastecidos como se de uma oferenda se tratasse, ainda que o rapaz que olha pareça agora preferir brincar com os talheres e as chávenas do café, que mudam de sítio durante a noite como nos truques mais elementares dos mágicos do circo.
Não estivesse o realismo mágico bastante fora de moda e Mayra podia ser, por tudo isto, uma personagem mística de um romance latino-americano. O esboço estereotipado, porém, não quadra minimamente com o temperamento expansivo e brincalhão da mulher, que parece zombar de si própria e de todos os
fantasmas que já viu e ouviu na vida de cada vez que conta a história dos seus restaurantes. O melhor seria, de resto, que isto o estivesse contando ela, pois ninguém o fará jamais tão bem, encadeando histórias diversas sem
nunca perder o fio da narrativa, divagando amiúde, interrompendo-se para atender outros clientes e entremeando tudo de risadas e palavrões, de um modo tão eficaz e teatral que se poderia dizer que Mayra é o tipo de pessoa
que jamais acreditaria em fantasmas se os não tivesse realmente visto. O caso, porém, é que os viu e sentiu, que conversa com eles e sabe que deles depende a sua boa sorte - ainda que às vezes se zangue e os insulte. E que
nos confiou a história sabendo que não descansaremos enquanto a não contarmos também, porque é para isso que fantasias destas existem - para guardar, ao menos, a memória da noite em que não vimos o fantasma-menino da
calle Rosario.
Para que o encantamento da história de Mayra se não perca, o melhor será que se possa dividi-la em duas partes desiguais, principiando a primeira num tempo distante em que não existia sequer a Plaza de los Remedios e cristãos e mouros andavam ainda disputando os nacos mais insalubres desta ibérica península. Era, pois, uma vez um rei asturiano, Pedro, o terrível, feio, porco e mau, como convém às altezas medievais. Necessitado de esposa, mandou que viesse uma princesa portuguesa, ainda de carnes tenras e infantis, que pudesse saciar-lhe os apetites e assegurar a linhagem do reino. Quando esta, porém, chegou, já casada por procuração, assustou-se com a má pinta do cônjuge e, ademais, sucedeu-lhe simpatizar antes com Harry, o pirata, um corsário inglês ruivo e muito corado, que ali vinha regularmente para negociar miudezas da pirataria pelo Cantábrico. Enquanto furtivamente se compunha esta atracção fatal ao ritmo das idas e vindas do temido piratão, o rei asturiano fez valer a sua macheza e depositou a real semente no útero juvenil da formosa rainha, que ali pariu chorando, não se sabe se das dores ou das saudades que tinha do inglês. E como a vida se lhe não pôs mais amena depois do nascimento do infante, congeminou a portuguesa uma fuga vingativa, zarpando certa madrugada no barco de Harry, não sem que antes a temível tripulação saxona chegasse fogo à cidade, que ardeu como uma lareira que pudesse ser vista até da remota Islândia, queimando casas e igrejas, nobres e plebeus, sem poupar sequer a vida do jovem herdeiro do católico trono asturiano. Salvou-se o rei e a sua ira, amaldiçoando terrivelmente a mulher que deste modo o desfeiteou e toda a raça que dela surtisse e todas as vítimas daqueles actos, devendo as suas almas ficar penando eternamente entre as cinzas do que restou da cidade.
Só muitos séculos depois, amainada já a memória deste trágico dia, se voltou a construir sobre o campo maldito de Gijón, tendo os espíritos ido habitar a casa que se construiu sobre o antigo aposento da princesa lusitana, assombrando quem fosse morar junto à porta de armas da antiga fortificação romana, excepto se fosse mulher e, logo, herdeira da portuguesa que ali padecera dos desmandos do asturiano. Talvez isto possa explicar o facto de o edifício ter servido de ninho às viúvas dos pescadores que sucumbiam às tempestades furtivas do Cantábrico e, depois, a uma afamada casa de putas - malgrado a presença austera da Capela dos Remédios diante da porta principal e apesar de os suspiros e urros que saíam dos quartos das meninas escorrerem lascivamente pelas paredes de pedra velha até ao empedrado da rua dedicada ao arcebispo Valdés. Mas lá diz Mayra, sempre que conta a sua história, que - O clero e as putas sempre andaram muito próximos.
Será verdade, não temos por que duvidar, embora se possa estranhar que os religiosos que ali oficiavam e os que lhes frequentavam as missas pudessem suportar, sem tremores ou credos, o convívio com os fantasmas que já então deviam habitar a casa da Plaza de los Remedios. Ou não lhes pressentiam a presença ou, e isto é o mais certo, as próprias assombrações preferiam não incomodar as sensuais prestações de tão católicos homens, pairando antes junto ao tecto com os olhos postos nas parelhas - para não perder pitada da acção que se consumava sobre os leitos húmidos.
Se, todavia, e como já se disse, a boa sorte de Mayra principiou no dia em que Marisa, a cartomante, lhe disse que comprasse a casa que tinha um tapete muito verde diante da porta, não será menos verdade que a dona do restaurante que agora há na calle Rosario nem sempre teve a sina pelo seu lado, parecendo-lhe mesmo, a dada altura, que o destino estava à beira de lhe aferrar uma patada. Foi quando se cansou de vinte e cinco anos de um matrimónio que tinha tudo o que materialmente é necessário para que alguém venha a ser feliz, saindo de casa sem dar satisfações ao marido e não levando consigo mais do que o comando da garagem, qual amuleto que lhe pudesse abrir também, com um leve toque no botão do controle remoto, as portas todas do devir.
Fosse como fosse, Mayra conseguiu que lhe emprestassem dinheiro para abrir as portas do restaurante com que sonhara - e que era o único negócio para o qual se sentia habilitada, pois tinha passado vinte e cinco anos sem fazer mais do que preocupar-se em alimentar saudavelmente marido e filhos, aprendendo igualmente a acender charutos cubanos. No instante em que se atirou a esta empresa, começou, entretanto, aquela que pode ser a segunda parte da história encantada de Mayra, bafejada, desde logo, pela visão do filme pornográfico que a recebeu no bar de putas da cidade nova, aonde foi negociar o trespasse da casa da Plaza de los Remedios com o antigo dono do bordel - agora abandonado e com as ervas insinuando-se entre as pedras da calçada velha, assemelhando um tapete verde, como Marisa prognosticara.
- Já vi muito filme pornográfico na vida, mas aquilo era demais!
Conta Mayra que os olhos se lhe prendiam ao ecrã, impedindo-a de se concentrar na negociação, pelo que tentou voltar as costas ao filme, brilhantemente protagonizado por uma trupe de habilidosos e bem dotados anões. A evasão, porém, saiu-lhe pela culatra, já que se encontrou diante de uma parede de ladrilhos espelhados, que multiplicavam infinitamente as educativas tropelias dos diminutos garanhões. A avassaladora e algo psicadélica visão não a impediu, porém, de fechar o negócio, tomando conta do antigo prostíbulo poucos dias depois, decidida a transformar aquele ninho de veludos vermelhos, espelhos nos tectos e camas redondas numa casa de comeres decente e familiar.
Para a transformação, e dada a parca disponibilidade de recursos, contratou-se um biscateiro reputado na cidade, embora o não fosse tanto pelas artes da construção civil como pela disponibilidade para curar enfermidades várias com o simples toque da mão, já que, contava-se, tinha o homem falecido em criança num tombo que deu de um espigueiro, regressando à vida minutos depois por ingerência da sua avó nos assuntos divinos. Mayra e o ressuscitado combinaram, entretanto, que o trabalho se faria durante a noite, pois o trolha tinha os dias tomados pela agenda curativa, mas o pedreiro-electricista-canalizador não chegou a aquecer a casa com o suor do
corpo, pois logo desapareceu sem dar notícias, respondendo evasivamente aos recados que a mulher mandava levar-lhe, inquirindo pelo que tinha sucedido.
Como não obtinha resposta e urgia abrir o restaurante para poder começar a pagar o empréstimo contraído, Mayra foi ela mesma procurar o curandeiro, que a recebeu evitando-lhe o olhar e refugiando o rosto no chão:
- Aquela casa tem muita gente e fazem muito barulho...
- Mas, homem! Se lá entra gente, feche a porta.
- Mas é uma gente... Uma gente... Uma gente estranha.
- Estranha como?
- Estranha. Almas penadas, pronto!
Mayra fez o possível por não rir e foi-se dali convencida de que tinha contratado um lunático para o serviço, o que nem sequer será motivo para pasmos, sobretudo tendo em conta os antecedentes da criatura. A verdade é que, por outros meios, as obras se fizeram, abrindo o restaurante sem alarido que excedesse a confusão que se estabeleceu pelo facto de muita
gente ter pensado que o prostíbulo havia, enfim, reaberto as portas.
Sucedia, por isso, que a casa principiava a encher quando já ia sendo hora de encerrar o expediente, tendo inclusivamente recebido a visita de várias
individualidades do clero local, que depressa ficaram sabedoras das novas delícias que lá se serviam. Não era o suficiente para evitar que se
sentissem defraudados os clientes, mas sempre constituía uma compensação a ter em conta, sendo que a gula é, que se saiba, um pecado tão mortal como
qualquer um dos outros seis.
Foi então que, misteriosamente, a pimenta começou a desaparecer do sítio em que era posta e que o habilidoso e jovem cozinheiro sofreu os primeiros e
inexplicáveis acidentes de trabalho, ferindo-se amiúde nos utensílios de corte como se nunca lhes tivesse pegado antes; que os clientes começaram a
cair sem motivo e a padecer de obscuros arrepios sem que corrente de ar alguma atravessasse o restaurante, mesmo sendo engenheiros e doutores e não
ressuscitados da laia do trolha que ouvia vozes e curava com as mãos; que Mayra viu, ao cimo das escadas, um vulto transparente com um traje pouco
usual; e que, enfim, várias pessoas garantiam ouvir pelos cantos um estranho vozear, o qual Mayra escutou também, parecendo-lhe que era produzido pelo
mesmo idioma em que se cantava a bossa nova.
- Os fantasma falavam brasileiro, caralho!
Isto foi o que pensou até que uma minhota portuguesa veio servir às mesas do restaurante, parecendo ali ter sido levada pela força de um destino
iniludível. Assim que a ouviu falar no seu idioma materno, este murmúrio doce e quase inexpressivo, Mayra soube que os fantasmas que habitavam a casa
da Plaza de los Remedios eram portugueses, hipótese que confirmou depois de se ter atirado aos livros da história antiga da cidade e constatado que
- Vocês, os portugueses, tiveram muito que ver com esta praça.
É neste ponto da história que Mayra recorda as ligações conjugais de monarcas quase tão velhos como as pedras que tem cravadas nas paredes do
restaurante, perdendo-se no novelo dos séculos mas nunca no fio da meada dos seus fantasmas - que não tardaram a suscitar o interesse de crentes das
filosofias orientais e de um padre exorcista que se propunha vir de Madrid para enxotar as almas penadas.
- O caralho é que vinha! Se se soubesse disto, nunca mais ninguém punha os pés no restaurante.
Não veio o padre, mas arribavam, umas atrás das outras, as criadas portuguesas, como se ali fossem convocadas por um misterioso murmúrio do
tempo e os seus antepassados transparentes as estivessem magnetizando para pularem dentro deste pedaço de lusitano além. E, se outras vantagens não
tinha a presença das patrícias serviçais, serviam estas ao menos para facilitar o contacto linguístico dos fantasmas com os viventes, pois em
nenhum ponto se diz que, malgrado habitarem há tantos séculos o solo das Astúrias, os espíritos fizeram o menor esforço para assimilar o castelhano,
perseverando em palrar num galaico-português antigo e muito etnográfico. Não fosse Mayra a contar a história e este simples facto seria, aliás,
suficiente para derruir os alicerces da narração, pois não há nada mais estranho do que estarem uns portugueses em Espanha, mesmo sendo almas
penadas, sem logo se dedicarem a hablar pielos cutuvielos, reclamando suepas para a pança e cueca-cuelas para aplacar a sede. A dona do restaurante,
porém, assevera que os espíritos falavam português de Portugal e, se ela o garante, não se fala mais nisso.
Certo-certo é que, para baralhar ainda mais a desordem linguística, sucedeu ter vindo uma brasileira, desta vez legítima, render a terceira ou quartas
das criadas portuguesas, sendo esta, ainda por cima, chegada às coisas do candomblé. Não se estranha, assim, que logo tenha sentido o encosto dos
habitantes translúcidos do restaurante, dedicando-se, acto contínuo, a dar-lhes luta, com solicitude mas sem ter em conta a antiguidade e
importância dos adversários - para a qual, de resto, já o padre exorcista havia alertado, desaconselhando abordagens amadorísticas e defumações
impreparadas.
Foi o bom e o bonito: Rosineide espalhava pela casa velas e lamparinas e a espiritada respondia tombando mesas, apalpando a clientela e dando sumiço às
loiças. E quanto mais a brasileira se encarniçava, convocando orixás e consultando mães-de-santo, mais os fantasmas se tumultuavam, tendo chegado
ao ponto de agredir Mayra quando esta subia ao andar superior da casa, dando-lhe um safanão tão forte que se achou tomada pelo corpo todo,
revolteando no ar como se a puxassem pelo braço. O susto foi tal que a brasileira se viu despedida nessa mesma noite, tendo sido aconselhada, com a
cortesia possível, a ir acender velas para a puta que a pariu.
Sem ser mulher de se deixar assustar por coisas do outro mundo, e embora o negócio lhe fosse correndo de feição, Mayra ia, contudo, perdendo a
paciência com os humores dos inquilinos penados. Entornou-se-lhe definitivamente o copo no dia em que, tendo sabido na véspera do falecimento
de Rulfo, um dos cães deixados à guarda do marido e filhos na casa que já não era a sua, viu o rafeiro entrar-lhe pela porta dentro, de focinho baixo
e com o rabo entre as pernas, como que pedindo desculpa de para ali vir também assombrar a tasca.
- Caralho, pensei que estava maluca!
Mayra fez sinal ao cão para que se sentasse, disfarçando para que os criados não antecipassem o seu desvario, mas as miúdas que tinham ido deitar o lixo
à rua acabaram por lhe fazer ver que o facto de ali estar o Rulfo era tão verdade como tudo o resto.
- Ui! Que mal cheira aqui, disse uma.
- Ui!, que tresanda a cão, concordou a outra.
E Mayra benzeu-se por dentro, perguntando fosse lá a quem fosse que comanda tais fenómenos quando ia tudo aquilo terminar; quando poderia, enfim, ter
paz.
Como que respondendo à silenciosa prece, soube-se, no dia seguinte, que um pedaço da muralha romana e metade da respectiva porta de armas haviam sido
encontradas na casa vizinha, que estava a ser demolida, surgindo como óbvio aos arqueólogos que ela continuaria para o lado do restaurante de Mayra.
- Mandei foder os fantasmas e pirei-me dali à espera que o município me desse uma indemnização.
Três anos passaram e a casa alta da Plaza de los Remedios continua de pé, com o tapete verde da erva daninha rompendo outra vez por entre o lajedo
antigo. Mayra ainda não viu a cor do dinheiro municipal, mas voltou a ser feliz no restaurante que abriu poucos metros acima, na casa que era de um
pintor. Conta que as coisas acalmaram e que, dos fantasmas, só voltou a saber quando desapareceram algumas das chávenas do café. Mas, quando convoca
a memória dos olhos líquidos e grandes da criança que antigamente a vigiava, contempla os últimos degraus da escada da casa que já não é a assombrada. E
nós, que a escutámos, temos a certeza de que o menino ainda ali está, não já na Plaza de los Remedios, mas no restaurante da calle Rosario, sentado nos
degraus que recebem o olhar de Mayra. Tem os cabelos crespos e eriçados, veste uma roupa escura à moda dos infantes medievais e vê-se que não tem
mais de seis anos, embora o olhar fixo e perscrutador pareça ser o de um adulto e a sua imobilidade seja mais própria de alguém que conheça já o
mundo todo. Para entreter a eternidade, olha para nós e escuta a história que Mayra acaba de nos contar.
MANUEL JORGE MARMELO nasceu no Porto em 1971 e é jornalista desde 1989.
Estreou-se nas letras em 1996 com o livro “O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual”.
Nesse mesmo ano foi convidado a participar na colectânea “A cidade sonhada”, a par com alguns dos mais reputados
escritores, poetas e artistas do Porto. O seu segundo livro, “Portugués, guapo y matador”, publicado em 1997, foi já objecto de uma adaptação teatral,
estreada no Porto em Abril de 1999. Em 1998 publicou o seu terceiro título, “Nome de tango”.
Em Maio de 1999 saiu o seu quarto livro, “As mulheres deviam vir com livro de instruções”, actualmente na NONA edição.
“O Amor é para os Parvos”, lançado em Junho de 2000, foi também já objecto de três reedições.
Em Dezembro de 2001 saiu“Sertão Dourado”, e, em Fevereiro de 2002, editou “Paixões & Embirrações”, uma colectânea
de crónicas e reportagens, já em segunda edição. Em Fevereiro de 2003 publicou “Oito Cidades e Uma Carta de Amor”, um livro de contos ilustrados por fotografias captadas nas cidades de Budapeste, Praga, Amesterdão, Paris, Londres, Madrid, Nova Iorque e Salvador. No mesmo ano, mas em Novembro, o autor publicou ainda o seu primeiro livro infantil, “A Menina Gigante”, escrito em parecia com a sua filha, Maria Miguel Marmelo, e ilustrado por Simona Traina.
Por convite da Porto 2001, participou com o conto original “Fogo de artifício” numa colectânea de textos de importantes
autores de língua portuguesa editada a propósito da realização da Capital Europeia da Cultura.
Em Novembro de 2002, o conto “O Faraó” foi incluído na colectânea “Putas – Antologia do Novo Conto Português e Brasileiro.
O texto original “Porto, Fragment de Vie” integra, desde Setembro de 2004, o volume “Saveurs de Porto”, da editora francesa “L’Escampette”. O livro conta ainda com textos de Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Manuel António Pina e Christian Seguin.
Desde Julho de 2001, o seu nome consta do “Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX”,
da Porto Editora, sendo o mais jovem dos nomes biografados.
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