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A Expedição
Ele estava diante da janela. Sim, pronto para morar no apartamento. Era o primeiro que comprava. Foi à cozinha, olhou os pratos e copos que adquirira à tardinha numa loja atulhada de vigias, olhou a lixeirinha da pia, olhou tudo em volta se perguntando se agora que tinha obtido a propriedade de alguns poucos metros, se tudo aquilo seguiria sendo seu pelo resto da vida. Preferia que não, talvez? Já tinha as primeiras nódoas nas mãos; no entanto, qual um jovem recém-casado na ausência breve da mulher, verificava os volumes, as formas do que seria deles para sempre assim, pois nada ali se quebraria, nenhum copo, aquilo tudo não conheceria a decadência, estariam presos numa espécie de eternidade que só entraria em erosão no momento em que ele ou ambos adivinhassem que poderiam ir além _mas esse além lhe soava ali feito um estado que pouco se lhe dava usufruir. Então era isso, só isso: um homem olhava para os instrumentos jogados na pia de uma cozinha no 11º andar de um bairro central, e essa insistência em ver o frugal que ainda conseguia comprar, mesmo às custas de enfrentar a multidão das "Americanas" no meio de aparelhos sonoros dos seguranças emitindo mensagens arranhadas, ininteligíveis _essa insistência em olhar o pouco que arrebanhara o fazia melhor, como se ainda tivesse tempo de se pôr inteiriço sem o imperativo de outra presença humana, um doido, um doido que tivesse uma atenção tão anexada ao imediato, àquilo que lhe circundava, que o próximo passo seria o de rezar, rezar a cada uma daquelas coisas, como se assim os corpos banalizados pelo dia atrás do outro lhe pudessem atender em alguma coisa que ainda era incapaz de supor. A qualquer momento a mulher poderia chegar, não fora longe, mas ainda havia tempo de pesar as consequências de se envolver assim tão longamente não só com aquelas peças da cozinha, mas com o mesmo corpo de mulher que à noite vinha e o queria mais. Porém nada disso era verdade, vivia celibatário, passava da meia-idade e teria que se haver agora pra valer só com aquelas coisas, mês a mês, anos, alguns, mesmo quando sua espinha se vergasse e ele pudesse ir só até a esquina para comprar maçãs argentinas, as mais vermelhas, suculentas, essas que em outras épocas não tinha condições de comprar. Agora sim, vinha-lhe a aposentadoria de professor, miúda, certo, mas que lhe proporcionava saciar suas franciscanas necessidades, se é que chegavam a tanto: comer no restaurante em frente aos sábados, comprar duas rosas por semana, admirá-las timidamente na sombra do mesmo toldo, se empedernir à tarde de Ernesto Nazareth, ah _só agora com a idade era capaz de sorver o melhor do descanso, sesteava, às 9h da noite tomava o remédio que lhe sedava um pouquinho, tão pouquinho que antes da cama tinha forças de espremer uma laranja e bebê-la, sentindo que ainda teria chances de encontrar alguém a quem fosse possível agradecer por algum favor que ninguém lembrava mais. Ao deitar pegava um dos travesseiros e o abraçava, e senti-lo ali entre os braços era como a reparação do olhar que não soubera sustentar na rua _nos últimos anos suas pernas iam em passos mais lentos, pouca coisa, algo entre um passeio e um destino certo, honrado, retilíneo. Aliás, quando se abraçava ao travesseiro surgia-lhe a idéia de que viera ao mundo a passeio, e que, portanto, agora, aposentado, estava de fato conhecendo o melhor, o inigualável, a ante-sala do que não queria pensar de chofre, pensava no cada vez mais escasso campo à frente de mansinho, assim, como se nada mais lhe dissesse respeito, sob a terra em que já estava a adivinhar o vento, o sol, noite ou chuva, não adivinhando nada, e então parecia que o sono lhe tomava um sorriso, puxava-lhe de dentro como se uma véspera de euforia que só um sonho dolorido teria o condão de apagar. Esse sonho não lhe vinha nessas alturas, eram situações informes, lembrando aleijões de barro, e quando acordava já não sabia de onde tirar algum proveito das trevas em que esteve o tempo todo abraçado ao travesseiro feito a uma bóia, ou mais que bóia, abraçado ao próprio homem a quem pedia um aperitivo no mercadinho da esquina antes de dormir, o homem o guiava para os fundos onde havia uma vassoura e um cão chiando adormecido como se com asma. Depois disso mais nada, só ele avaliando um peso por trás que o fazia dobrar-se na frente da privada (a calça do pijama pelo joelho), forçando-se para urinar, sem êxito _essa frustração diária, tão sua conhecida; entretanto dessa vez escorria da glande uma outra coisa, mais espessa e que ainda não era porra, era aquilo oleoso que só na juventude ou na idade plena pôde ver sair pelo pau de excitação, ainda antes de gozar, bem antes, e ele se estonteou e se deixou lançar por uma força que o arrebatava de si _arrancando então de suas entranhas o gozo venturoso, o fim...
JOÃO GILBERTO NOLL nasceu em 1946 na cidade de Porto Alegre (RS). Em 1969, após ter abandonado o Curso de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, muda-se para o Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar como jornalista nos jornais “Última Hora” e “Folha de São Paulo. Em 1970, publica seu primeiro conto na antologia “Roda de Fogo”, organizada por Carlos Jorge Appel, de Porto Alegre. Transfere-se para São Paulo, indo trabalhar como revisor da Cia. Editora Nacional. Retorna ao Rio e à “Ultima Hora”, em 1971, onde escreve sobre teatro, literatura e música. No ano de 1974 volta aos estudos de Letras e, no ano seguinte, leciona no Curso de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1980, um ano após concluir o Curso de Letras, publica seu primeiro livro, “O cego e a dançarina”. Recebe os Prêmios “Revelação do Ano”, da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Ficção do Ano”, do Instituto Nacional do Livro e o “Prêmio Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro. Recentemente lançou seu segundo livro de contos, "Mínimos Múltiplos Comuns".
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