Dialética do conto

Narrar é um des-velamento. Desencobrir o que estava velado, no mundo e em si mesmo, e re-velar, tornar a cobrir de véus, o que estava evidente, esconder outra vez. Esse duplo movimento, de fazer aparecer, e de fazer esconder – o excesso de luz também impede de ver –, é a essência do bom conto. Na poesia, essa dialética melhor se mostra. Na prosa, a luz difusa e homogênea do verbo desgastado pela cotidianidade também permite ver, mas superficialmente – e sob um mesmo tom monocromático. Neste sentido, o conto, o objeto literário que mais se assemelha à poesia, ainda pode re-velar, desde que evite a tagarelice, o prosaísmo, e consiga equilibrar harmonicamente fábula e trama. Se o contista descura da última, lança o seu objeto nas águas poluídas do entretenimento; se desmerece a primeira, arrisca-se a descaracterizar o gênero, jogando-o no tedioso mar do lirismo em prosa. Um bom conto esconde o que mostra e mostra o que esconde, exigindo um leitor ativo, capaz de dinamizar as profundas reservas de energia que o texto não pode sonegar, mas que não deve oferecer com a facilidade dos anúncios publicitários.

CHARLES KIEFER é natural de Três de Maio (RS). Estreou na ficção em 1982 com Caminhando na Chuva, novela de temática adolescente que, já em sua 14ª edição, transformou-se num clássico da literatura infanto-juvenil. Em 1985 Kiefer ganhou projeção nacional com a novela O pêndulo do relógio agraciada com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1993, com o livro de contos Um outro olhar e com Antologia Pessoal (primeiro lugar na categoria Conto), o escritor recebeu novamente dois prêmios Jabuti. O autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras premiações, entre elas o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, para o O pêndulo do relógio, Prêmio Afonso Arinos 1993, por Um outro olhar, e Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes 1986, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o livro infanto-juvenil Você viu meu pai por aí?.