
Ilustração: David Beckham |
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A
casa d'água
Uma casa d’água cheirando a gato preto e arco-íris misturado em burro quando foge.
Coração desaguado é assim mesmo, bate no passado. Fica sem referência de presente. Memória engana. Lembrança, não. Nunca conta uma glória! Depois, mesmo se quisesse, não poderia. Jamais a tivera.
Em casa, sempre ausente. Distraindo-se na demência, andando de lá pra cá. Sem se fixar. Sem função. Fumando sem parar, arrastando chinelo, dando pum e mijando no batente da porta. Jorrando sua própria água amarela escura. Fedida feito mijo de gato. Bebendo café para mais manchar os poucos dentes.
Toda hora lavava a mão na parede. Casa d’água. Fartura de líquido acumulado. Mãos tremendo de artrose e Parkinson. Enxugava depois, nas calças pingadas de urina. Camisa babada de cuspe e catarro. Braguilha aberta e os pés voltando a arrastar-se, fazendo poças de imagens pelo chão.
Pisava devagar, agora, na infância, estalando água para os lados. Mãe batia com cabo de vassoura todo dia. A cabeça ficava moída de tanto cocuruto. À noite, os homens chegavam. Cada dia, um. Teve um marinheiro que lhe deu um anel de mar. Pingou no chão salgado deixando a tinta azul do oceano... Por muitos anos. Anel de mar, cor de marinheiro. Esse nunca mais voltou. Se voltou, não lhe deu mais nada. Não lembrava. Só deve ter servido para encher mais a casa de água.
Sentou num caixote velho que tinha na sala. Ao pisar, olhou para baixo. Outra poça. Mais água. Essa, da juventude. Homem bonito, mas estragado. Bêbado. Mulherada toda apanhava do jeitinho que a mãe batia nele. A cada lembrança de uma surra de menino, passava-a adiante, numas boas lambadas. Vingança? Quem se importava? Seus filhos corriam medrosos ao entardecer. Lá vinha ele pela rua, cambaleante, se escorando nos muros, trocando os pés, vomitando. Depois, chutava o portão e caía no chão. Mais água: era molhado, até levantar, começar a xingar o mundo e ir para cama se deitar. No chão, ficava uma poça de solidão. Não adiantava esfregar nem secar. Ela voltava.
No dia seguinte, levantava-se e ia até a varanda suja da casa onde plantas esturricadas em latões de manteiga, cercadas por tocos de cigarros apagados escorriam em mijo. Já não sabia mais se era dele ou do cão magro, deitado com os olhos sempre virados de fome. Mas embaixo do cão, tinha sempre uma poça. De lealdade. Ali, podia sentir o calor. Porém, o sol batia de frente e a luz espantava. Então, incomodado chutava o cachorro para fora quando não resolvia pisar nele.
Mais cigarro. Mais cuspe à distância. Caía perto. Já não tinha força, nem fôlego, mas fazia o que queria: outra poça. Uma a mais. Outra mais. Bem na frente da entrada. Poça doente. Rançosa. De saliva de quem tem convulsão. Grossa. Voltava para dentro e deitava na cama. Por cima, havia uma goteira, por conta de umas telhas quebradas. A chuva caía exatamente na cabeceira. Encharcava tudo e, mesmo assim, ele deitava por cima. Mais água e mofo, que ele nem ligava.
Um dia, a enchente chegou. Sentado no caixote da sala, viu só liquidez escorrer pelos poucos vidros da única janela. Por baixo da porta, um rio parecia se esgotar, fazendo os raros móveis boiarem. Das torneiras, saía água vermelha. Do inferno. Agora, já não havia mais poças. Era uma enxurrada que fazia pressão e corria de um lado para o outro. Inclusive a sua paixão que pingava, brotando do nada, seca. Sem água. Parada.
Coração desaguado é assim mesmo, bate no passado. Fica sem referência, faz mergulhar num mar que não conhece o amor. Do mar, amor, do mar. Da cor do anel. Dos virados olhos do cão. Da misturada cor-arco-íris. Do burro que fugiu sem beber sua água...
Dizem que tudo aconteceu porque, de poça em poça, a casa d’água flutuou e levou seu dono para o meio de um mundo que conhecia apenas um tipo de pensamento. O pensamento seco, curto, único. Certo somente onde a vastidão do mundo se mostrasse oca. Mas em uma casa d’água, uma casa apenas sua. Mais nada.
CLAUDIA VILLELA
DE ANDRADE, carioca, nascida em outubro de 1956, professora e escritora.
No currículo literário, prêmios e publicações em diversas
antologias.
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