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Joaquim e Manú
(os soldados da higiene)
Joaquim estava parado, no meio do pátio da casa dos avós paternos de Manú - sem mover um músculo -, e com um punhado de milho na cabeça. Pombos voavam no céu enquanto Manú se escondia na garagem. Espiava o amigo pela porta entreaberta. Silenciosa. Com maravilha em seus olhos novos.
Com sonho no pensamento, e brincadeira na idéia. Criança escondida, parada, à espera do pombo que haveria de pousar na cabeça amarela de Joaquim.
Joaquim mal respirava, transpirava angustiado. O pombo não vinha e as horas não esperavam pela caça daquelas duas crianças.
Joaquim fez um sinal a Manú, queria fazer xixi. Manú respondeu com outro sinal, nervoso, dizendo-lhe para que não saísse dali até que o pombo viesse ao encontro do seu cabelo pixaim. Joaquim quase chorou.
Manú comia um sanduíche de mortadela, via as feições desesperadas do amigo e não sentia absolutamente nada.
Queria, apenas, o pombo, aquele bicho voador que diziam ser muito sujo. Queria capturar o bicho e dar-lhe um bom banho.
Um bicho que voa no céu não pode ser sujo, pensava Manú. Era um erro divino a ser reparado com a ajuda do seu valente amigo, Joaquim.
E lá estava ele, lambendo os beiços de fome, e roxo de vontade de fazer xixi. Nenhum grão de milho havia caído no chão porque seu corpo estava completamente hirto. Manú podia ver o corpo negro de Joaquim tremer de tensão, mas, como eram soldados da higiene, não poderiam recuar ante a iminente guerra contra a sujeira alada.
A criança portadora da armadilha, começou a chorar e sinalizou sua fome. A outra ficou furiosa com aquela mímica de fraqueza, e escreveu, bem grande, num pedaço de papel: “Se você sair daí, eu te mato.”
Joaquim recomeçou a chorar, dessa vez, convulsivamente, depois de horas a fio, parado, equilibrando os grãos de milho na cabeça. Manú sentiu uma mistura de decepção e ódio que a levou a pegar uma pedra e atirá-la, com todas as forças, na cabeça do covarde soldado.
A pedra fez com que Joaquim parasse de chorar. O sangue cobriu seus olhos assustados. A armadilha humana caiu no chão, e o milho espalhou-se pelo pátio.
Manú terminou de comer o sanduíche de mortadela e foi, andando, ao encontro da vítima. A criança não ficou surpresa ao perceber que o corpo estendido no chão não era o de Joaquim. Era de uma linda menina de tranças vestida com um uniforme de futebol.
- Esse uniforme é do Joaquim.
- Eu sei.
- Qual é o seu nome?
- Não interessa.
Manú sentiu que poderia confiar naquela menina de cabelos Amarelos. Conversaram como velhos amigos.
- Você lava as mãos depois que você faz xixi?
- Claro que sim.
- Você é uma menina limpa. Eu gosto.
Pegou a menina pela mão, entraram no casarão, e subiram, sorrateiras e invisíveis, até o sótão. Casa imensa.
Sótão. Porão. Caminhos escuros. Luz de infância.
- Vamos brincar de bruxo?
- Vamos.
- Tira a roupa.
Foi o primeiro nome que veio à cabeça de Manú para aquela brincadeira, troca de carícias. As línguas se encontravam ponta a ponta, mas não havia movimento, apenas o toque e olhares úmidos de prazer e mistério. Beijavam-se no sexo. Sentiam um gosto bom. Um cheiro bom. Sem querer, descobriram a unidade, a forma plena e angelical do sexo. Mas eram crianças, e a capacidade de pensar existia mais forte na pele, no sorriso de um pequeno demônio, no sexo cheio de visco e perfume.
Manú fez com que Joaquim lhe desse as costas. Abriu suas nádegas e colocou uma pequena pedra lá dentro.
- Não deixa a pedra cair, Joaquim, segura ela com a bunda.
- Tá.
- Se ela cair, você morre.
- Tá.
Manú gostou de passar horas a fio contemplando aquela imagem enquanto comia um saquinho de amendoim. Sentia prazer em ver seu amigo naquelas situações, sentia amor por ele. Joaquim parecia não gostar muito, mas, Manú nem ligava. Manú era só ciência. Só alquimia.
- O sangue já secou, Joaquim.
- Mas a minha cabeça ainda está doendo.
- Depois passa.
- Tá.
- Joaquim, eu vi a tua mãe cortando a cabeça de uma galinha com uma faca. Depois ela pegou o sangue e pôs dentro de uma bacia.
- É para fazer molho pardo.
- Sua mãe lavou a galinha?
- Lavou.
- Tá.
- Manú, eu quero por a minha roupa e ir pegar um pombo para você.
- Tá.
Retornaram ao pátio e viram o chão coberto de pombos, comendo o milho esparramado. Ficaram caladas para não assustar os pombos e, se pudessem, calariam o mundo todo para contemplar aquele mágico momento.
Vagarosamente, Manú pegou uma mangueira enquanto Joaquim abria a torneira. A água jorrou abundante. Um hino de guerra, composto por elas, afinou aquele tico de tempo. Lavaram os pombos, o pátio e elas mesmas.
Joaquim e Manú eram só gargalhadas felizes. Rodopiavam com muitos braços abertos, fazendo o mundo girar com um tempo comandado pela infância. De repente, pararam encantadas, e fizeram um aceno para o céu movimentado. Uma revoada de bruxos cantava, agradecida, pelo banho tomado.
ANTONIO CALLONI nascido em São Paulo, filho de pais italianos, é ator consagrado na telinha devido a sua participação em novelas como "Hipertensão", "Bambolê", "O Salvador da Pátria" e "Terra Nostra", da Rede Globo. Calloni tem também outra paixão artística, a literatura. Autor de um livro de poesias, "Os Infantes de Dezembro", que na época de sua publicação teve boa acolhida da crítica e do público, Calloni publicou, pela Bertrand Brasil, o livro de contos "A Ilha de Sagitário". Segundo a escritora e crítica Olga Savary, Antonio Calloni, neste seu novo livro, mostra, pela desenvoltura e maneira segura como conduz histórias, "que a paixão pela literatura é tão forte quanto a arte de representar". Publicou ainda" Amanhã eu vou dançar - novela de amor" (2002).
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