A Bola Amarela

O velho professor estava no meio da sua palestra, com nariz de palhaço, falando a mais uma turma de professores com espanto nos olhos e sorriso nos lábios, quando a bola amarela, que passava de mão em mão pelo público (ou platéia, conforme alguns, pois cada palestra do professor era também um espetáculo de graças e truques didáticos), a bola amarela chegou às mãos de um discreto professor de província. Estava vestido de marrom como uma raiz exposta entre as flores perfumadas de um jardim, mestras casualmente chiques e doutores solenemente elegantes, um discreto professor de paletó surrado e gravata torta, que levantou com a bola nas mãos e interrompeu o velho professor, justamente quando dizia que todos, para ser realmente professores, deviam antes de tudo fazer alguma coisa extraordinária, mesmo que fosse cuspir à distância ou equilibrar um tomate no nariz, aí o professorzinho levantou entre as fileiras de penteados e carecas brilhantes, e, erguendo o braço com a bola amarela na ponta dos dedos, disse com voz clara de professor:

- Com sua licença, mestre, tenho uma questão.

Todos os olhos olharam para aquela voz, os das primeiras fileiras tendo de olhar para trás, entortando o pescoços e amarfanhando colarinho. O velho professor parou de falar, com a frase a meio e a respiração suspensa, mas então suspirou, parecendo soltar um ar cansado, ele que transmitia entusiasmo como uma fonte sempre cheia de fôlego. Olhou, no entanto, com afeto e humor o jovem professor de colarinho aberto por trás do nó da gravata.

- Fale, professor - o velho professor sorriu e o jovem professor respirou não fundo, até nisso discreto, enquanto balançava leve a cabeça como sopesando cada palavra antes de dizer:

- O senhor tem percorrido este país há décadas, despertando os professores para iniciarem em cada escola uma revolução, como diz o senhor. Em vez de reclamar, começar a atacar os problemas da escola e da comunidade, para resolver, com ajuda dos pais, dos alunos e até do governo e das autoridades... 

Murmúrio brotou das bocas, sorrisos afloraram, a dizer que seria talvez mais uma brincadeira do velho professor, um truque teatral como já usara tantos, como quando o governador lhe prestara homenagem no palácio e o professor comparecera com discípulos que tomaram a palavra e o controle da cerimônia, transformando a homenagem em sessão de críticas e sugestões ao governo para aparelhar as escolas e suprir as bibliotecas.

- Eu escolhi a profissão ou missão de professor, mestre, devido a seu exemplo e às histórias que minha mãe professora me contava do senhor. Desde criança sei que o senhor jamais repetiu uma aula ou uma palestra, jamais consultou uma ficha para dar uma aula, e que já deu aulas sobre canoas para professores ribeirinhos, organizou seminários em escolas onde não havia ao menos giz e a lousa era uma pedra, que depois virou monumento ao lado da nova escola erguida pelo povo junto com os professores. 

Os sorrisos voltaram às bocas, todos já esperando o desenlace de mais um truque do velho professor, que levava no bolso um nariz vermelho de palhaço, sempre usado quando queria falar as coisas mais sérias. 

- Então, mestre - continuou o jovem professor - é com muito respeito que quero lhe perguntar esta questão que há décadas também acompanha o seu trabalho. Em suas palestras o senhor sempre pede que passem, de pessoa para pessoa, esta bola amarela que agora chegou a minhas mãos e... 

Todos voltaram a olhar o jovem professor, ou mais precisamente a bola em suas mãos, a mesma bola de décadas atrás, pequena como uma laranja, amarela, de plástico esponjoso, feita para terapia dos dedos, já amassada por milhares de mãos, fotografada por dezenas de revistas e jornais, filmada por tevês e comentada em todo o país, motivo de riso e mistério.

- ...o senhor nunca disse o que pretende ou o que quer dizer com este jogo, esta brincadeira, este símbolo, esaa bola, mestre. Uns dizem que o segredo de tudo está no amarelo, lembrando o losango amarelo da bandeira nacional. Outros dizem que é uma brincadeira para acordar os sonolentos, que ficam à espera de receber a bola, mas o fato é que, ao menos aqui, não vejo ninguém sonolento, e o senhor é famoso justamente por ser o professor que nos motivou a arrancar as nossas aulas da rotina, com criatividade e alegria de participar da educação, que deixou de ser um processo longo e doloroso para ser uma sequência de acontecimentos gostosos e descobertas boas, como sempre disse o senhor. 

Agora todos já ouviam com sorriso pronto para virar riso, mãos prontas para o aplauso, certamente era, senão mais um truque do velho professor, uma forma criativa do jovem professor prestar sua homenagem ao mestre. 

- Até li numa revista, mestre, rapazola ainda, que o segredo da bola amarela seria o fato de ser uma bola, figura que representa a convergência sobre um ponto, a integração entre professores e estudantes, entre escola e comunidade, para iluminar os problemas e fazer frutificar as soluções, frutos da nossa criatividade e do nosso trabalho, como o sol amadurece as frutas. 

Pelas cabeças bem penteadas, enquanto o jovem professor falava, iam passando imagens do velho professor em sua jornada de anos e anos, a percorrer o país de escola em escola, com seu simples salário de professor licenciado, sem aceitar mais nem transporte do governo, apenas o salário, levado para vilas e povoados distantes pelas próprias comunidades, de carro, de barco, de trem, de canoa, no lombo de burro ou mesmo a pé, como mostrava o documentário sobre sua vida: o velho professor sendo recebido em escolas onde tinha passado há anos, como aquela no alto da mais alta cordilheira do país, aonde chegara a primeira vez com os pés esfolados de grimpar as encostas, lá mesmo onde não havia escola e agora uma escolinha feita de pedras, no alto de um rochedo, recebia visitantes alpinistas de todo o mundo.

Conhecido em todo o mundo, entrevistado em praias e montanhas, pântanos e desertos do grande país que percorria com sua mochila e seu capote xadrez, o velho professor era exemplo de cidadania, conforme os políticos que conseguiam eventualmente arriscar um discurso antes que ele transformasse toda cerimônia em reunião de criação ou mesmo já de trabalho. Até por isso também era orgulho nacional e ídolo dos professores, que antes dele recebiam baixos salários e se queixavam do desmonte da educação pública num país que tinha então tantos pobres. 

Quando os professores deixaram de se queixar e de se unir apenas para lutar por salários, foi seguindo o exemplo de sua escola, onde o lixo tinha virado adubo, a horta supria a merenda e também os desnutridos do bairro, a biblioteca era modelar e até um cinema tinha construído em mutirão pelos pais com material doado por empresas. Quando o velho professor, então ainda moço, tinha deixado sua escola para percorrer o país de convite em convite nas férias, ainda era um país injusto e caótico. Quando as escolas começaram a renascer por onde ele passava, transformadas em casas da revolução, como ele dizia, fazendo renascer junto as pessoas e as comunidades, um governador tivera a idéia de lhe oferecer licença permanente, para continuar com sua peregrinação que, se rendia tanta admiração, também podia a seu protetor render votos. 

Uma década depois, já morto o governador, fora o próprio presidente da República quem concedera ao velho professor, agora um homem grisalho, licença federal para continuar, por todo o país, a sua obra de, como ele dizia, abrir os olhos das pessoas, ouvir o coração, dedicar-se com alma, criar como criança, fazer como operário, agir com decisão, decidir com vontade, conseguir com diplomacia, trabalhar com alegria e conviver com amor. 

Com o tempo, o governo fora notando que já não era preciso enviar tanta merenda para as escolas, que se supriam das próprias hortas, dos pomares de chácaras e doações de empresas. Quando, porém, pensava o governo em mais uma homenagem ao velho professor, que economizava tanto para os cofres públicos, foi preciso pagar mais aos professores, pois suas greves, que até então pouco tinham aumentado os salários, passaram a receber adesão do povo, com seus milhões de votos a eleger ou destituir governantes. 

Em trinta anos, década a década, o país tinha se transformado a partir das escolas, atacando por exemplo os problemas do lixo e da ecologia, da marginalidade dos jovens e da violência nas famílias, da imbecilidade das comunicações e da carestia das editoras, fosse com parcerias criativas e construtivas, fosse com boicotes às tevês imbecis ou aos alimentos ruins. O país, de escola em escola, tinha descoberto a auto-estima e a força comunitária, a ordem e o progresso - e agora, ouvindo o jovem professor, as mestras e doutores de todo o país, escolhidos pelo ministério para um super-seminário, que ao mesmo tempo fosse homenagem e exaltação do velho professor e do novo país, sorriam esfregando as mãos prontas para o aplauso, enquanto o jovem professor continuava: 

- A primeira vez que ouvi o senhor, era um homem grisalho e agora está de cabelos todos brancos. Mas em todos esse anos o senhor nunca revelou porque passa essa bola amarela para a gente. Sei que o senhor já foi interpelado por colegas, pela imprensa, por estudantes, mas sempre respondeu que não deve dar resposta enquanto não for tempo. Agora, mestre, o senhor está de cabelos brancos, e tem dito que está na hora de se retirar para uma praia e descansar cuidando de horta e pomar, como os tantos pomares e hortas que o senhor motivou em tantas escolas e comunidades. Não será hora, mestre, de nos revelar o segredo da bola amarela?


O velho professor continuava com seu sorriso, não o sorriso tranquilo e confiante das mestras e dos doutores, sim um sorriso de menino diante de brinquedo novo, e balançou leve a cabeça como se quisesse guardar ainda um pouco mais as palavras e seu segredo, até que falou: 

- Obrigado, professor, finalmente alguém me faz essa pergunta assim, com a bola ainda passando de mão em mão. Há décadas aguardo isso. Mas, antes que lhe conte, me conte você o que fez em sua escola para estar aqui.

Ali estavam os luminares da educação no país, as mestras das mestras e os doutores dos doutores, os que tinham chegado ao topo da carreira, os que tinham há tempos erguido suas escolas da miséria e dos fracassos, os que tinham dado exemplos luminosos e feito façanhas incríveis, levantando a moral de todo o povo com suas histórias louvadas na imprensa. Eram guerreiros que, depois da fama, tinham se dedicado a criar mais guerreiros, seguindo o exemplo do velho professor, embora não de escola em escola mas nas suas escolas, como o próprio velho professor preferia - ou o que seria se todos os apóstolos tivessem ido para a crucificação, se todos os professores deixassem as escolas? 

Eram guerreiros envelhecidos e consagrados, muitos já aposentados, e voltaram a olhar o jovem professor, de repente com a mesma curiosidade do mestre: afinal, o que aquele jovem teria feito para estar ali?

Bem, começou o jovem professor, na sua escola tinha primeiramente mostrado aos poucos alunos que ele sabia fazer algo extraordinário, como recomendava o professor:

- Eu fiz uma ponte. 

A escola era uma tapera, os alunos eram meia dúzia, das casas mais perto, e iam para a escola apenas enquanto não começasse a colheita. Viu que chegavam à escola passando por uma pinguela sobre um riacho poluído pelas fezes dos próprios moradores ribeirinhos. Aquela água dava cólera, já sabiam, e não deixavam mais a criançada nadar ali, onde gerações tinham crescido a nadar e brincar longe das águas perigosas do mar. A pinguela era levada pela enxurrada a cada chuva, e nova pinguela era feita em seguida, com tábuas velhas, remos quebrados, cordas meio podres. 

O jovem professor falava rodando nas mãos a pequena bola amarela, há muito mais suja e puída do que amarela; e contou que então, no primeiro dia de aula, substituindo um velho professor que tinha se aposentado e lhe deixado suas fichas de aulas, convidou os alunos para brincalhar:

- Trabalhar brincando de catar pedras. 

Havia muitas pedras por perto da escola, e brincalhando cataram e empilharam dois montes, um de cada lado da ponte. Os pais não se importavam nada das crianças trabalharem, mas ficaram curiosos e foram saber daquilo. Ele falou que era para fazer uma ponte sólida, que resistisse às enchentes que desciam e às marés que subiam o riacho, e que durasse tanto tempo quanto tempo tinha passado o riacho sem ponte. 

Primeiro riram dele, mas ele continuou a fazer a ponte com as crianças no dia seguinte, catando mais pedras até que dois homens foram falar sério com ele. Deixasse daquilo, não ficava bem um professor, que devia ensinar coisas melhores a seus filhos, ficar ali catando pedras feito um doido. 

- Mas em apenas uma hora convenci os dois de que uma ponte ali era o melhor a fazer, e que a melhor forma de fazer é começar. 

Não poderiam nem sabiam fazer uma ponte só de pedra, mas fincaram as bases de cada lado do riacho, cavando e enchendo os buracos de pedras e massa de cimento e areia. Mas não sabiam mesmo como continuar aquilo, e foram os três pedir ajuda na prefeitura distante, um dia de viagem de carona e a pé, até chegarem empoeirados e sedentos, tendo de dormir ao relento para esperar o dia seguinte, quando foram atendidos e pediram não uma ponte, apenas a planta de uma ponte. O secretário de obras da prefeitura estranhou tanto aquilo que foi até lá, levando os três de jipe, e aproveitou para levar também um engenheiro. Quando o engenheiro viu o que tinham feito, riu, disse que assim nunca fariam uma ponte.

- Então nos ensine, pedi, e era um velho engenheiro, disse que não tinha idade para ficar ali cuidando daquilo. 

Mas um dos pais disse que José também era velho quando recebeu a missão de ser pai de Jesus, e o velho engenheiro, que era religioso, se sentiu tocado, ainda mais quando um casal desocupou seu quarto para lhe hospedar. O secretário prometeu ao velho engenheiro horas extras enquanto ficasse ali fazendo a ponte, que podia render ao prefeito uma inauguração com belas filmagens e propaganda na televisão. 

- Aí o engenheiro pediu cimento, ferros e outros materiais, que pessoal já havia para a construção.

Outros homens e moços, vendo ali um engenheiro, tinham se juntado ao grupo. A ponte ficaria pronta em dois meses, grande, larga e a coisa mais bonita do mundo, conforme uma velha moradora que discursou na inauguração, depois de ter levado água todo dia para os trabalhadores que se revezavam na construção, onde até o engenheiro meteu as mãos. 

- E depois da ponte, mestre, foi fácil fazer o resto, porque o povo começou a acreditar.

Na inauguração, diante das câmeras da imprensa e em bem alta voz, tinham pedido uma nova escola, um posto de saúde, calcáreo para recuperar as terras e draga para limpar o riacho. A escola se encheu de crianças, e o jovem professor continuou a plantar: uma associação de pais e mestres, depois uma cooperativa, conselho de saúde e, ultimamente, até com turismo lidava aquele gente que antes só pescava cada vez menos e mal plantava para sobreviver. Na avaliação do ministério, o caso da sua escola tinha sido escolhido um dos mais produtivos e, agora...

- Chega - disse o velho professor - É mais do que suficiente, e mais que hora também de contar o segredo da bola amarela.

Se moscas voassem em palácios, ouviriam uma mosca voando ali no grande salão do palácio do governo, enquanto o velho professor falava com a tranquilidade de sempre:

- Primeiro, acho que devo contar que a bola é amarela porque era a única onde comprei, para fortalecer os dedos de um braço que passou tempo engessado depois de quebrar num tombo... 

Naquele tempo, já andava havia alguns anos falando em escolas nas vizinhanças e até lonjuras, sempre inconformado com tanta gente que nada fala nas reuniões, e pensou num modo de fazer falar ao menos alguns: entregaria a bola para passar pelas pessoas e iniciaria um raciocínio ou história qualquer, ao fim do que perguntaria o que achava daquilo quem estivesse no momento com a bola na mão. 

- Mas acabei esquecendo da bola, naquela reunião, e só fui lembrar depois, quando me perguntaram qual o sentido daquilo, o que queria eu dizer com a bola amarela. 

Tinha resolvido então não contar, como uma pirracinha a que tivesse direito, uma brincadeira para seu divertimento exclusivo. Pensava que aquilo fosse ser logo esquecido mas a coisa acabou num jornal, depois numa tevê, e na renião seguinte a bola amarela já era um pequeno mito de mão em mão, e ao final alguém tinha perguntado, como depois fariam muitos: e a bola, professor?

- Tive vergonha de confessar meu pequeno objetivo, minha birra com as pessoas caladas, os que aplaudem quando todos aplaudem, vaiam quando todos vaiam, vão atrás de todos para a luta ou para o linchamento, sem opinar nem perguntar coisa alguma. Depois, vi que de nada adiantaria revelar isso, pois só revelaria meu inconformismo infantil com a variedade das pessoas e o direito que têm de ser como são os tímidos, os reclusos, os medrosos, os indecisos, os fracos enfim. Mas não somos nós os únicos animais no planeta a cuidar dos feridos? Por que rejeitaríamos os fracos?

A mosca que voasse pelo salão veria as carecas suando suas gotículas, e as mãos já não mais preparadas para o aplauso, unhas sendo roídas discretamente. E o mestre abriu os braços, como se pronto para uma crucificação ou a mostrar que já acabava o que tinha a fazer ali:

- Como não esqueciam a bola amarela, e ela se tornava um mito que rendia curiosidade, esse motor da humanidade, resolvi manter o truque, sem saber o que um dia iria fazer com ele. Até que comecei a esperar por alguém que não se conformasse com isso, e parasse esse jogo no meio e me questionasse, com a bola nas mãos como o senhor fez. Passei a acreditar que um dia eu passaria a bola a esse alguém, como os corredores de revezamento passam o bastão.

A mosca até pararia no ar vendo tanta gente imóvel, a escutar com todos os ouvidos as últimas palavras do velho professor, antes de pegar sua surrada mochila e se dirigir para a praia da velhice:

Agora, meu jovem, a bola é sua. 

Anos depois, o jovem professor seria ministro da educação, levando até para o governo a revolução das escolas; e a bola amarela seria incrustrada numa pedra, numa caixa de madeira, dentro da velha mochila do velho professor, levada a todas as escolas do país por professores em rodízio e a pé, para conhecerem a terra e a gente como fazia o velho professor; como é levada a pira olímpica antes dos jogos, em cada cidade, em cada bairro, para, quem quisesse, tocar aquela herança em sua matéria e seu espírito. 


DOMINGOS PELLEGRINI nasceu e vive em Londrina, Paraná, onde estudou Letras. Trabalha com jornalismo e publicidade. Seu primeiro livro de contos foi o ganhador do Jabuti de 1977. Também escreve poesias, romances e romances juvenis.
Vive atualmente na Chácara Chão em sua cidade natal, de onde envia as notícias publicadas desde 1997 pelo Jornal de Londrina, enquanto escreve seus livros.