Após a chuva

para V.

O que eu quis dizer, o que saiu, na manhã quente depois da chuva, o sol entrando pela janela prenunciando o mormaço, uma luz quase cristal marcando-lhe a estampa, o perfil, aqueles olhos quase verdes me fitando pelas lentes de um delicado oval, e o sorriso desarmado, o que eu disse sem saber que o diria, depois dela me contar sua história, depois de ela me dizer o que sentia e sempre sentiu, e guardava para si nos dias que se passaram, e que podia ser apenas passageiro, coceira de momento, doce nunca provado, talvez nunca se soubesse, nunca se dissesse, e quantas vezes ela hesitou, quantas ela tentou, por medo do não sabido, por medo do conhecido, mas estávamos ali, os dois, na manhã quente depois da chuva, ruas e calçadas lavadas, o rosto dela límpido sem maquiagem e aqueles olhos que me diziam, dispensando palavras, o que eu já sabia mas precisava ouvir, precisava da certidão do verbo, que veio de todas as formas, pelas veredas sinuosas do certo pelo incerto, pela precisão dela de ficar em paz consigo própria, que veio aos poucos como quem procura e não acha, mas acha que encontrou, me disse, apoiando o rosto com as mãos, que sentia alguma coisa por mim, um gostar ainda sem objeto, como saber se isso era mais que o que surge quando se admira alguém, como saber se isso gerará frutos, se o solo em que se planta a semente é fértil, se vale a pena arriscar, se vale a pena esperar pelo que talvez jamais viesse, isso tudo ela me disse na manhã quente depois da chuva enquanto eu as ouvia no conforto e na angústia de não ter respostas, ou as ter, e, fosse como fosse, nenhuma das alternativas propriamente servir para solucionar sua dor, minha dor, nossa dor da indisponibilidade, e eu apenas tinha olhos para procurar dentro dos dela o que nos pudesse unir, ainda que por um momento, no meio do turbilhão de pessoas que surgiam, em meio à balbúrdia da manhã que iniciava, uma palavra ou gesto que lhe dissesse o quanto importava aquele instante em que nossos olhos se encontraram e se sustentaram no espaço quase a prometer a felicidade, e o que eu quis dizer, o que eu disse naquela manhã quente depois da chuva, ignoro se um começo, se um fim, se nada disso ou tudo, enfim, o que eu disse é que poderia beijá-la, que gostaria de beijá-la, e ela me disse que sim, que não sairia dali sem aquilo, e se quedou esperando que eu me aproximasse e a enlaçasse e abraçasse e encostasse meus lábios nos dela, e nossas bocas se entreabrissem e nossas línguas se tocassem e se gostassem e se sentissem, e nossos corpos se tocassem e eu lhe sentisse o calor das faces e a maciez dos cabelos e, por um tempo que gostaríamos que durasse para sempre, compartilhássemos nossos perfumes, nossos cheiros, até nos afastarmos ao de leve, tentando guardar na memória o gosto suave de nossas salivas, talvez temendo que nunca mais isso acontecesse, talvez esperando o dia do reencontro, e, isso dito, tive de amargar a despedida, ainda com ela inteira junto a mim, um adeus de lábios mordidos, ela sumindo, aos poucos, nas ruas amarfanhadas da cidade, me deixando somente com a espera de outra manhã quente, depois de a chuva ter lavado as ruas, a calçada, a poeira dolorida que carregamos dentro da gente. 

RICARDO MIYAKE nasceu em São Paulo, no ano de 1962. Formado em Letras pela USP, onde também cursou (sem concluir) Editoração. Mestre em Letras pela Universidade Mackenzie, com dissertação sobre a obra do escritor João Antônio. Publicou "Livro de Coisa"s (Com-Arte - 1998). É professor de Literatura Brasileira e Teoria Literária.