Ilustração: Steve Jackson

 

Visita a Mozart

O que me perturba é a devassidão da luz. As impropriedades do sol e as insídias do calor. Dentro de uma coleção polêmica das coisas que me perturbam, isso cabe aos detalhes. A linha quadrática do sol, agora, toca o carpete que nunca termina. Olho o descontrole dos móveis e resigno-me a ver o cadáver, pela primeira vez desde o nascer do sol, há alguns minutos.

O silêncio oco não permite que eu chore, ainda não há incompreensão necessária para que isso aconteça. As mechas de cabelos loiros-quase-grisalhos parecem tão vivas, mas o rosto é nada além da face dura de uma vida extinta. Nem eu e a longitude de meus extremos estamos livres da morte. Ela já havia tentado suicídio quando um de seus amantes a deixara. E que responsabilidades sentia ela para comigo? Mesmo com suas advertências extremosas.

Repito extremo, pois me sinto extrema, mesmo que na piedade da calma.

Ainda me restam palavras articuladas, mas não vou telefonar. O espelho revela meu áspero-longo cabelo azul; walkman instalado e deixo o sol nascer na equivoca sala de minha madrasta.

O dia sem nuvens não se equipara ao meu estado mental. Aperto os olhos, mas ainda sob olhares-surpresos. Talvez pela cor do cabelo; talvez pelo volume do som. Já não me importa. Retirei há muito os dramas de minha vida, quanto mais cresço vejo que só servem para aparentar. Nunca mostro minhas fraquezas.

A parada de ônibus sonolenta-vazia me faz olhar as horas. Cidade ainda morta. O sol acorda alguns mendigos e acelera poucos carros. Espero saber para onde estou indo quando o ônibus chegar.

Há alguém do meu lado; é um cara alto, mas não muito velho. Sem surpresas vejo que me olha. Talvez pelos cabelos; talvez pelo volume do som.

"O que tu estás ouvindo?" Boa articulação vocal a dele, mas é só para aparecer. Sem baixar o volume, respondo: Mozart.

Pegamos o ônibus. Ele enrola para pagar a passagem. Espera para ver onde vou sentar. Os pensamentos correm; esqueço o rapaz. Quem se cala diante de certas palavras não merece atenção.

O ônibus contorna o verde obscuro da Redenção; os pontos turísticos de Porto Alegre são únicos e belos quando o frio assalta as árvores. A distância cala as visões da última noite com a mulher. Mesmo que não tenha comparecido ao suicídio, sinto o ligeiro trauma.

Pois bem, ele se senta ao meu lado. Ergue a mão para um aparente comprimento polido.

A mão que afaga é a mesma que apedreja, respondo em palavras. Uma citação, mas é possível que ele nunca vá saber.

Olho para ele, mas tão breve, que em sua perplexidade, ele nem percebe. Tem os cabelos de albino, mas o rosto muito avermelhado contradiz tal máxima.

A flauta mágica?, pergunta enquanto o olho. Nego a surpresa, o enjôo súbito e doce. Respondo que não. Réquiem. E ele diz que é uma música tão boa quanto a que citou. Volto-me para a janela, sabendo que ele vai se calar por alguns minutos.

Poucas vezes me arrependo de meu incessante hábito de subestimar as pessoas. Nem sei porquê faço isso, mas os motivos são bem menos importantes que os resultados.

Tentando manter uma boa projeção de voz, pergunto para onde ele vai. A resposta vem sem amargura, acho. Diz ele que não sabe. Principia num discurso lento, mas interessante, e do qual algumas palavras me fogem. Fala sobre Mozart. E sabe do que está falando.

Descemos do ônibus. O mesmo compasso e a incerteza de realizar o resto do caminho, que seria eterno. Ainda com a música no volume alto, leio nos lábios dele a pergunta: Tens o passaporte? Sempre comigo, respondo. Mas acho que não disse isso no melhor tom. Ele estranha. No aeroporto é ele quem passa por toda a burocracia necessária. Minha perturbação para com a luz solar transcende para um cândido desejo olhando-a aqui de cima, entre as nuvens.

São longas horas deixando muitos anos para trás. A viagem de avião é um silêncio incômodo; o paradoxo de uma união súbita e forte entre duas pessoas que mal se conhecem.

Descemos, então, em Viena. Meus olhos não se acostumam com o embalo diferente das proporções. As ruas novas, o ar inconsciente. Tento não me ater às belezas da cidade, não me emocionar com a aventura, mesmo que triste aventura.

No táxi, e quase não identificamos que era um, ele questiona alguma coisa ao motorista. Ouço Mozart e Mozart em meu walkman tão-necessário.

Os caminhos são inseguros e, parece-me, nos afastam da civilização. Lembro-me da tragédia e a proclamo com dificuldade. Viena é imensa e nunca se soube onde o homem fora enterrado. Ele pede que eu me acalme.

Sequer é um cemitério aqui. Lugar inóspito e de pobreza depressiva. Gótico-acinzentado, ao invés de respeito, trás pensamentos sombrios. Muito diverso do Jardim da Paz lá em Porto Alegre.

Entramos. Um ritmo louco, mas de passos mal ensaiados com trejeitos profanos. O lugar é um universo sepulcral e procuramos apenas um nome. Depois de caminhar tempos ilimitados sob o nublado dia quente, encontro. Encontramos.

Quem teria feito este humilde jazigo para ele? Tremo. Dois dedos de minha mão esquerda tremem tanto que se chocam contra as cochas. Uma lágrima petrificada pela relutância hesita, e depois cai, invisível.

Olhamos o túmulo e o nome.

Um homem que vi apenas em fotos, li apenas em papéis empapados de pó. O único, que através da música, permitia que meus ouvidos escutassem. Choro, pois isso eu não compreendo. Nunca ouvi a voz de minha madrasta enquanto viveu; nunca ouvi qualquer coisa ou qualquer outra música, mas ouvi Mozart.

Não sei como ele, o rapaz, descobre meu segredo, pois, também emocionado, ele me diz algo com a linguagem dos surdos-mudos, as mãos treinadas, sem hesitações. Ele me diz que sabe o porquê das minhas lágrimas.

Ainda me restam palavras articuladas, dos tratamentos eficientes, mas não responderei. Aceno um sim sem controle e (num choro irrompido) volto os olhos para aquele nome único e, tão impropriamente, gravado no túmulo cinzento.