Ilustração: Malcolm Liepke

 

Nouvelle Vague
ou : A nostalgia é geralmente dispensável, mas às vezes ajuda a escrever

O cara era assim, calado quase o tempo todo. Os olhos não diziam muito, os gestos não pareciam seus, mas emprestados ainda de Jean Paul Belmondo ou Jean-Pierre Léaud, outros caladões irresistíveis. Puxava um cigarro, acendia, tragava fechando os olhos, expirando longamente. Poderia-se dizer que incorporava um personagem de um filme do Truffaut. Um dia ele disse Se você quiser, passe lá em casa na quarta à tarde, então. 

Abriu a porta para mim, na tal quarta-feira à tarde, ostentando um enfado misterioso, algo que eu não sabia se era cansaço, aborrecimento, se era resignação diante do que já via nos nossos destinos... Como se ao abrir a porta estivesse pensando Agora ela vai entrar, vai tomar um café, nós vamos fazer música juntos, vai ser fantástico, vamos nos apaixonar, ela vai largar o marido, eu vou largar a minha namorada, depois vamos viver uma relação doentia de ciúmes e desconfianças e aí ela vai me trair e eu vou traí-la, vamos sofrer como cães e nunca mais vamos nos falar, fazer o quê, é a vida. E então eu entrei na sua casa e ele me perguntou se eu queria um café.


ANNA TOLEDO é atriz, cantora, compositora e tem muita vontade de incluir "escritora" no currículo. Vive em São Paulo, onde é facilmente encontrada na Mooca.