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Duzentos e dezessete
O último do Marinelli é ótimo. Estreou na sexta, vou ao cinema no domingo, hoje. Domingo é dia de cinema. É por isso que não tem lugar para estacionar o carro perto da Augusta. Marinelli não passa em shopping. Para a sessão das oito, ingresso na mão às sete, a fila do caixa é pequena.
Dessa vez Marinelli extrapolou. Faço questão de não ler crítica de jornal, mas o que se diz é que é imperdível. Marinelli não deu título ao filme, "o último do Marinelli" é como o pessoal o tem chamado. Parece haver um pacto de não dizer o de que o filme trata. Mesmo quem as procura tem poucas informações.
Fila grande é a da entrada para a sala, para ver o épico do Marinelli. Disso eu sei, o filme dura exatos duzentos e dezesseis minutos, duração de épicos. Por isso é que não passa em shopping, filme de shopping tem cem minutos. Para a sessão das oito, a fila se formou às sete e meia: busca pelos melhores lugares. Ou o hábito desencadeado por um imbecil qualquer viciado em. Em Marinelli?
Marinelli não faz superproduções, Marinelli é cineasta de idéias, meus onze reais estão bem gastos, o espaço Unibanco reservou a melhor sala para Marinelli: sucesso no circuito cabeça paulistano.
"O primeiro do Marinelli" estreou naquela saleta do anexo que tem uns oitenta lugares, só, faz uns cinco anos, logo depois da Mostra em que foi sucesso, em que provocou filas, em que causou confusão, em que encheu páginas de cadernos de cultura jamais lidos. A não ser pelas mesmas poucas centenas de pessoas que formaram as filas. Marinelli é a cara de Roma, da Roma que não freqüenta shoppings, a cara de qualquer cidade grande. (Quem já leu o último do Paneau? Pouca gente lê em francês em São Paulo, ler Paneau em Francês é como assistir Marinelli em Roma.)
A fila vai da sala à rua. Dos últimos postos vê-se bem o paulistano dos Jardins bebendo cerveja no Dedé, no BH, aproveitando os últimos momentos do domingo. É verdade que metade desse pessoal não é do tipo que trabalha na segunda cedo. É pessoal que tem grana, e gasta gota a gota em cerveja, festa, ingressos de cinema e livros. Ou não tem grana para mais que cerveja, festa, cinema e livro. Poucas festas. Verdade também que, em São Paulo, domingo tem cara de domingo, mesmo para quem não trabalha na segunda. Implacável.
A fila começa a andar, bom, já não agüentava mais o ambiente abafado do saguão, o barulho dos ônibus na Augusta, as mesmas caras tomando cerveja, os mesmo óculos de aro preto, as mesmas expressões de felicidade de ver o Marinelli. Será que não percebem que Marinelli está tirando uma também com a cara deles? Marinelli é gente, Marinelli não agüenta mais essa correria toda, quer dormir até as duas da tarde e tomar água, para variar, Marinelli usa chinelo de dedo. Marinelli só pega fila como modo de evitar a rotina, não ser dogmático. Abre uma
exceção. Fico quase triste de ter que pegar fila para assistir a um crítico dessa vidinha de sardinha em lata.
Uma poltrona na terceira fila, espero que sente gente pequena ao meu lado, que os ombros não se encontrem, e que todo mundo fique em silêncio, o que normalmente acontece. Dei sorte, uma moça pequenininha de cada lado, acompanhadas dos respectivos namorados, o que faz com que fiquem inclinadas para longe de mim. Os traillers começam, tudo tão ridículo, propaganda do banco, uma atrás da outra, logo antes do Marinelli, ironia brava. Acaba o último trailer e o silêncio se instala - êxtase aos que fetichisam o que é, na verdade, apenas um filme. Circunstancial como as coisas. Meu ritual é tirar o tênis e a meia,
relaxar e render-me. Quinze longos segundos de silêncio e tela branca antes de a primeira reclamação ser gritada. A luz do projetor sequer foi acesa. Nada sai das caixas de som. Alguém diz para o projecionista colocar a fita no lugar. Por que não esperam uns instantes?
O burburinho aumenta. Atinge um pico passados dois minutos, Marinelli é além. Quando não entender o que se passava era já burrice, ou má vontade, meia dúzia de perdidos deixaram a sala. O barulho foi diminuindo, os comentários foram ficando mais contidos. A tela e as caixas de som, ainda vazias, não se encheriam. Houve uma primeira onda de risos, um quase silêncio e uma onda grande de gargalhadas que me comoveu. Eu já quase chorava quando o silêncio se instalou assertivo pelo trigésimo minuto de filme. Segurei as lágrimas enquanto meu corpo não abandonava meu mundo. Mas abandonou.
Era doce a ironia que a tela em branco e o silêncio me ofereciam. E só foi ironia enquanto tentei, sem preceber, escapar do Marinelli. Pouco depois da metade do filme, eu sorria e chorava, ainda tentando me represar. Tela escura, resolvi olhar para os lados e entender um pouco com a comoção dos outros. Meus olhos cruzaram com os do casal à minha direita e eles sorriram discretamente. O casal à minha esquerda estava destruído em lágrimas. Vez ou outra, escutei soluços na sala, suspiros, respirações descontroladas. Duas horas e pouco de filme e uma moça deixou a sala apoiada em um rapaz, seu amigo: não suportou três horas de Marinelli. De silêncio e projetor desligado. Devia faltar bem pouco para o filme acabar quando o rapaz do casal à minha esquerda, vendo que eu chorava sem parar, ofereceu a companhia das suas e das mãos de sua namorada. Sorri e aceitei. O casal à minha direita notou o gesto e se comoveu. Ofereceu também as mãos. Aceitei, ainda que isto tenha me levado a uma posição desconfortável. Tive que retirar as mãos para secar as lágrimas pouco antes do fim. Duzentos e dezesseis minutos de Marinelli, no fim do domingo, agora há pouco. Preciso rever, preciso entender aquele fim em que as mãos se separam sem um adeus quando as luzes se acendem. Preciso.
TONY MONTI é autor de O Mentiroso (7 Letras, 2003), coletânea de contos vencedora do Projeto Nascente (USP) em 2002.
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