Armadilha das palavras
Jorge Marmelo

"Pequeno Tratado sobre As Ilusões" 
de Paulinho Assunção
Campo das Letras 72 páginas


Poucas coisas são tão complexas de alcançar como a essência daquilo que é simples; exige um tremendo e sábio esforço chegar à singeleza enigmática do sorriso da Mona Lisa, ou ao resumo do mundo contido no binômio de Newton. O brasileiro Paulinho Assunção - mineiro, poeta, cultor de aforismos e produtor manual de livros - parece, porém, ter alguma parentela com o húmus da terra e o rumor das estrelas. Os contos do "Pequeno Tratado sobre As Ilusões", agora editado em Portugal pela Campo das Letras, são como borboletas raras e efémeras: nelas se condensam o fulgor e a beleza, perecendo em menos de um ai - mas ficam gravadas, qual encantamento, na retina de quem teve a fortuna de as avistar. 

As histórias do livro são, a um só tempo, surreais, singulares, mágicas e circulares, impregnadas, contudo, por um humor subterrâneo, como se presididas por um deus caprichoso, que, após cativar o leitor com o esboço da sua criação traçado na areia, sobre ele passasse uma mão rápida e destruidora que tudo apagasse e nos deixasse pasmados diante do logro. Daí que, querendo encontrar eventuais referências para quem se interesse pela leitura do livro, talvez se possa situar este "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" algures entre a inquietação labiríntica das narrativas do também brasileiro Bernardo Carvalho (leia-se "Teatro", "As Iniciais" ou "Aberração") e a simplicidade onírica de "Montedidio", do italiano Erri de Luca, recentemente editado em Portugal pela Âmbar. 

Paulinho Assunção está, na verdade, mais próximo deste último, seja enquanto adepto de um simbolismo desarmante e de uma singeleza quase infantil, seja enquanto espécie de rendilheiro de palavras, mais próximo da poesia do que da ficção comum. Aliás, se uma das personagens de "Montedidio" é um sapateiro judeu à espera que da corcunda ecludam as asas que lhe permitirão chegar a Jerusalém, em "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" há pelo menos duas histórias habitadas por homens alados. Na primeira, "Asas", o homem voa, desce chaminés e investiga fechaduras, passando a matar e a fazer a guerra quando conhece as delícias da mulher; na segunda, "Ícaro", a figura mitológica limita-se a olhar o mundo a partir da janela de um vigésimo andar, estatelando-se quando, por fim, arrisca o voo. 

Por outro lado, "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" é um exemplar (cada vez mais raro) daquilo a que poderemos designar como a prática da literatura pela literatura, predominando o gozo lúdico da palavra, a sua economia e, mais do que isso, a sua justa medida, amiúde tocada pela música da frase perfeita - pela poesia, lá está. A chave deste segredo talvez se encontre, de resto, nas primeiras linhas do conto "Já Faz Muitos Anos", nas quais se lê aquilo que será um bom resumo do livro: "Os homens silenciosos, como nós, não temos medo. Por isso - e há sempre que se precaver - a palavra é a nossa armadilha, a nossa tocaia. E caso seja irrecusável falar, preferimos as palavras duras, consonantais, todas aquelas palavras que trazem no seu bojo a recordação de uma arma. Não é preciso dizer que somos muito perigosos." 
Do gato que principia a manquejar para substituir o irmão - manco - que partiu para longe, e não deu mais notícias, à mulher cega que observa o homem que não faz mais do que olhar o vento e a chuva, passando pelo lúcido que, metodicamente, decide enlouquecer, o livro parece tocado pelo sopro breve e suave do encantamento, por uma loucura mansa e pueril. O ponto mais alto deste culto será o conto "Revoluções", no qual há um homem que muda de pele todos os dias: "O ruído é de palha seca. E geralmente a pele começa a se romper pelas costas. Depois estala. Logo sai inteira, fica no chão como um homem sem recheio. (...) à noite, muitas vezes, me dou conta de que estou abraçada ao invólucro dele, pois escuto os seus passos, na sala, sonâmbulo(...)." 

O que temos é, enfim, uma grata surpresa vinda do Brasil, em forma de livro mínimo. Dizer que "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" venceu, em 1998, o Prémio Guimarães Rosa é, neste caso, dizer pouco; apenas exibe a embalagem. 

MANUEL JORGE MARMELO nasceu no Porto em 1971 e é jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com o livro “O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual”. Nesse mesmo ano foi convidado a participar na colectânea “A cidade sonhada”, a par com alguns dos mais reputados escritores, poetas e artistas do Porto. O seu segundo livro, “Portugués, guapo y matador”, publicado em 1997, foi já objecto de uma adaptação teatral, estreada no Porto em Abril de 1999. Em 1998 publicou o seu terceiro título, “Nome de tango”. Em Maio de 1999 saiu o seu quarto livro, “As mulheres deviam vir com livro de instruções”, actualmente na NONA edição. “O Amor é para os Parvos”, lançado em Junho de 2000, foi também já objecto de três reedições. Em Dezembro de 2001 saiu“Sertão Dourado”, e, em Fevereiro de 2002, editou “Paixões & Embirrações”, uma colectânea de crónicas e reportagens, já em segunda edição. Em Fevereiro de 2003 publicou “Oito Cidades e Uma Carta de Amor”, um livro de contos ilustrados por fotografias captadas nas cidades de Budapeste, Praga, Amesterdão, Paris, Londres, Madrid, Nova Iorque e Salvador. No mesmo ano, mas em Novembro, o autor publicou ainda o seu primeiro livro infantil, “A Menina Gigante”, escrito em parecia com a sua filha, Maria Miguel Marmelo, e ilustrado por Simona Traina. Por convite da Porto 2001, participou com o conto original “Fogo de artifício” numa colectânea de textos de importantes autores de língua portuguesa editada a propósito da realização da Capital Europeia da Cultura. Em Novembro de 2002, o conto “O Faraó” foi incluído na colectânea “Putas – Antologia do Novo Conto Português e Brasileiro. O texto original “Porto, Fragment de Vie” integra, desde Setembro de 2004, o volume “Saveurs de Porto”, da editora francesa “L’Escampette”. O livro conta ainda com textos de Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Manuel António Pina e Christian Seguin. Desde Julho de 2001, o seu nome consta do “Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX”, da Porto Editora, sendo o mais jovem dos nomes biografados.