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O começo é assim: cortador de grama no ouvido por fora. Pausa, de novo, pausa e assim por diante.... Pausa também na escrita, preciso pôr um som e abrir outra latinha. Na mesa da cozinha, limão e rúcula estão descobertos, que isso se torne bem biográfico e pouco visceral. Ignoro o que há no ouvido por dentro.

Autobiográfico, automóvel, já não ouço o cortador de grama. Há grama onde você está? Sei de vários homens que viraram animais irracionais atrás de dinheiro ou bebida ou sexo... Andar atrás de quê? ou melhor: viver pra quê? Tirando o meu da reta: eu vivo para me relacionar com pessoas e escrever.

Um surdo bateu na minha porta, pensei em Elis Regina e Cássia Eller, na mesa da cozinha as cenouras e as pimentas estão cobertas, ser surdo tem as suas vantagens: não ouvir o cortador de grama nem o barulho que os vizinhos de baixo e do lado fazem à noite, madrugada, manhã... Já sei o que vou ouvir: respirar pela barriga, os ouvidos de dentro e de fora uma coisa só. 

Agora já é outro dia e quase sinto saudade do que não fiz ontem, dos fios interrompidos, da falta de seqüência, do que ficou perdido – para sempre – no ar. Ouvi várias músicas, ainda tenho cenoura, pimenta e rúcula na geladeira, não há cortador de grama nem limão. Serei autobiográfico sem vísceras. O cu parou de coçar. 

Aragem rouba aroma do meu corpo que não é meu, nem aroma nem corpo são meus. Porque no dia seguinte eu tinha perdido completamente a inocência, a leveza e a juventude, eu era um homem velho e amargo. No dia seguinte ao dia seguinte, acordei a munição e a arma... Penso em não ser mais conivente, cadê meu canivete?

Viver fede, apesar dos banhos de rio, dos cosméticos, dos perfumes e das anestesias sempre tão efêmeras. Apesar da lavagem de roupas, utensílios e corpos.

Palavras e sons que não me traduzem mais... O que quero está sempre à beira, no limo. E o lema: "se contentar com aquilo que a vida oferece" tornou-se um imenso suplício. Deus dá o desejo e a punição... É injusto! compreende? Compreenda que minhas vontades mais primordiais (primitivas? idade da pedra?), ou melhor, minha vontade mais essencial desemboca no abismo, moral e bons costumes, linchamento público. E tenho de ser execrado pelo meu desejo? 

Devo trair meus verdadeiros sentimentos, minhas verdadeiras vontades? Regras demais, prazer de menos. .

Agora a narrativa vai para outro lado, um lado que, felizmente, ainda desconheço. Se quiserem me linchar, me linchem.

Sexo: chupar paus, rolas, cacetes. Boquetes, chupetinhas, xoxotinhas, bucetinhas apertadinhas. Hilda Hilst, Jean Genet, Charles Bukowski... Quem é que se excita com tudo isso? Eu não, eu busco e quero o mais puro dos amores, o amor onde sexo seja apenas conseqüência natural.

É naturalidade que falta à minha biografia. Sou tão artificial como uma lente de contato colorida. Cortador de grama aos meus sentimentos e pensamentos mais sombrios e à artificialidade.

O personagem agora se encontra num beco. O futuro esplêndido virando mera opacidade, dias cinzas, embustes, vãs tentativas... Eu, o narrador, comendo tudo isto, degustando e digerindo.

A massa: ouvir Cássia Eller e Elis Regina, aproveite enquanto os ouvidos não estão surdos. Enquanto os olhos não estão cegos. Aproveitar bem a vida: ver, ouvir, cheirar, sentir a textura, provar o gosto... Um dia a coisa pára, necessitará de conserto, remendo, retirada, hospital... Ai, que meda! Sou o mais covarde fisicamente.

O surdo bateu à minha porta com crachá pendurado no peito e prancheta pra eu escrever meu nome e a quantia ofertada... Sabe como ele pediu água? 

Dedão na boca aberta... poderia ser outra coisa, poderia? Convidei-o a entrar, ele estranhou – percebi – mas entrou. Nunca o convidavam a entrar? Ofereciam copo d’água na porta?

À margem: Adélia Prado, Os Componentes da Banda: ‘dona, me dá um gol’d’água?’

Já na cozinha, apontei o pote e a geladeira, o surdo preferiu água gelada, bebeu dois copos. Apontei a fruteira isenta de maçãs e tangerinas, só com bananas naquela tarde de calor insuportável... O surdo não quis, gesticulou que banana enchia, engordava... E se foi assim: agradecendo. Não poderia ser outra coisa, ele só queria o gol’d’água, eu jamais poderia lhe oferecer Adélia e seu homem da mão seca, ai que meda de dentista, hospital, mutilação. Minha coragem é mera miragem.

Mera opacidade de sentimentos opacos, o surdo foi embora me deixando muito só e muito triste. Eu sei que é melhor ser alegre mas, atualmente, não encontro a porta da alegria. Sou um homem só, um homem triste.

Não somos mais um só, com os mesmos sonhos, as mesmas idéias, os mesmos ideais. Hoje somos vários, hoje somos muitos: muitas idéias, muitas turmas, muitos guetos... Quem quiser que retire a primeira pedra.

O grito que não dei, a palavra que eu não disse, o gesto que não fiz, a reação que não tive... Meu silêncio e minha inércia ao mundo: o pensamento que não pensei, o sentimento que não senti. Agora, já posso pensar, sentir, colaborar. Mas aquele outro instante (que já passou, que não volta jamais) foi alimentado apenas pela minha apatia. Os olhos com que vejo uma flor não estão isentos, olho a flor com o que sinto por ela, penso dela, com o que analiso e reflito sobre ela... Olho uma flor carregando toda minha trajetória e, principalmente, minhas memórias olfativa e visual.

--- Eu não gosto de me chamar parede. Sou feminina. Pa lembra pai. Eu gostaria que me chamassem marede.

Pedido aceito, a marede viveu feliz para sempre. E nunca mais ouviu barulho, só marulho.

WAGNER MANGUEIRA nasceu em Marília (SP) em 1965, onde vive. Dos 18 aos 34 anos morou em São Paulo (SP), onde formou-se em Arte Dramática no INDAC - Instituto de Arte e Ciência (1985). Participou de oficina literária ministrada pelo escritor Caio Fernando Abreu nas Oficinas Culturais Oswald de Andrade (1989). É autor de A gaveta (2001), Pó (2002) e Vamos passear na floresta? (2003). 

O inédito "4" integra PRATA, novo livro do autor, em fase de conclusão