Whisner Fraga, um lírico no ocaso do Capitalismo

                        Cada vez mais nos afastamos da compreensão de um regional que não seja uma reprodução reduzida dos grandes centros urbanos. O século XXI, após a queda do Muro, a hegemonia capitalista e o vertiginoso salto tecnológico em rumo ao consumo fácil, não nos apresentou soluções ou alternativas para diminuir as diferenças sociais, as injustiças, a violência e a imensa solidão que nos torna dependentes químicos, seres anônimos e impotentes para vencer a distância de uma parede, um corredor, uma rua, os fios que ligam os computadores. As fronteiras caem não só geopoliticamente. Fica cada vez mais difícil sentir quando e de que forma ocupamos o bairro, a cidade, o país, o continente e o mundo, qual a nossa importância para a constituição destes espaços, qual a nossa parte neste latifúndio.

                        A Cidade Devolvida, lançado pelo selo rocinante da 7Letras em 2005, é o terceiro livro de contos de Whisner Fraga. Antes, havia publicado Inventário do Desassossego e Coreografia dos Danados. O leitor, minimamente informado, também poderá encontrar seu nome em meio aos mais badalados sites da Internet e mesmo em periódicos como o Jornal do Brasil, Estado de Minas e Rascunho. Portanto, não podemos considerá-lo um estreante. Whisner, além de contista militante, escritor sério, é formado em engenharia. Poderia ser só um dado de sua biografia, um detalhe, mas, no caso deste livro, não. Muitos escritores pensaram a cidade. Suas representações passam por Platão, Dickens, Jorge Amado, Ítalo Calvino, Borges, Paul Auster, Lúcio Cardoso, Hanif Kureishi e tantos outros. O enfoque variou entre o utópico, o realístico, o mágico, o futurista, a descrição em primeiro ou segundo plano, um desenho, fragmentos, sempre o espaço do humano. Fraga olha a cidade por dentro, traça suas linhas e subjetiva sua matemática, desconstruindo a noção de criador e criatura, homem e pólis, matéria física e abstrata.

                        Tal qual um Voltaire-pós-moderno, satiriza o Brasil logo no primeiro conto, o homônimo A cidade devolvida, fazendo dele um modelo de inadequação, caricatura atroz do paraíso, o Novo Mundo como celeiro neocolonial. A tábua de salvação, contudo, não residirá mais nas especiarias, no ouro ou no café, estará na produção da Cannabis Sativa, o elixir alienante, a anestesia para o mal. A partir daí, deste simulacro de lugar, o narrador nos devolve a cidade, perpassada por uma sensibilidade que a avalia e acusa, após sofrer a rejeição: “e a cidade? a cidade? a cidade? confusa geografia a me cuspir...” (p. 29).

Chama-se Papiú Novo, a cidade, localizada na ilha de Pakaa Nova, onde tanto europeus quanto americanos são reis:

 

jamais se aproximavam por medo do exército bem treinado e munido de armas um tanto pesadas, figurando também nessa máquina de terror tanques alemães, submarinos soviéticos e torpedos e bombas francesas, e que não perdoa a menor curiosidade e protege os senhores (e as drogas) como se fossem seus pais e creio até sejam mais, visto que esses jagunços foram resgatados de cadeias ou da miséria e transformados em Rambos e talvez um míssil Patriot conseguisse um estrago um pouco maior, caso os Estados Unidos resolvessem se interessar por mais este negócio pau-brasileiro (p. 13).

 

                        Do exagero proporcionado pelo efeito cômico, surge a contestação do paradigma civilizatório. A câmera se movimentará e da tomada aérea buscará penetrar a intimidade de um close, confundir as referências: “sem preocupação com a acuidade dos dados geográficos, podendo ser esta ou aquela, bem cá ou acolá” (p. 8).

Prepondera nas narrativas de Whisner Fraga uma veia poética, a maneira particular e altamente subjetiva, com que trata a linguagem para dar conta de sua repulsa, a dor e a doença espalhadas em toda a arquitetura das páginas, costuradas pelo fio de um pessimismo que nada tem a ver com clichê machadiano, mas que se sabe incapaz diante dos extremos da vida e da morte.

Contos urbanos? Tento imaginar o fora da cidade, esta impossibilidade que o autor nos anuncia, que se dilui no estar e negar pertencer a um lugar fixo. Cenários: o interior de um automóvel, o corpo de uma mulher, a cama de um hospital. Os demais 18 contos do livro se configuram uma luta contra o tempo, por isso, líricos e trágicos simultaneamente.

A cidade transita por ele, impõe marcas, ranhuras. Desnudado, tem a ousadia de nos mostrar seu esqueleto, vísceras, moradias. O autor-personagem é um eu tentando sobreviver. Ou, ainda, transgredir. Assim, a nota da sua lira será um lamento, a distorção de guitarra triste ou a rispidez de um solo de violino tão pungente quanto A liberdade é Azul.

                        Em O trilho, acompanhamos a personagem, um possível assassino, em suas lembranças, um monólogo com um amor traído, e a metáfora para o suicídio ou a insistência em novos tremores, outras vibrações, atropelamentos:

 

A bala, destinada ao cérebro, arranhou minha orelha e foi aos poucos que parei de escutar e hoje surdo, avanço nestes trilhos, experimentando vibrações distantes, colhendo distâncias (p. 58).

 

                        Do mesmo modo como a escrita decupada de Teia de Noites, o ritmo arrastado em assonâncias em “s” e vazios gráficos:

 

Trouxe-me abraços e cediço, permiti a fuga e enlaces decidimos aproximações e arrependimentos nos vimos quando ver era queimar em amarelos, e a dor antecipada de tudo que parte, que perde, átomos disjuntos, que beber e tragar era obsceno porque no final (p. 63).                   

                        Os temas dos contos são aparentemente variados, em todos eles estão entranhados o veneno da revolta e uma fragilidade do ser humano na contemporaneidade, a batalha sem glórias de amar – presentes em O Jogador (p. 65), A gaita (p. 45) e no excelente A medida do que perdi (p. 51) –, um aniquilamento inescapável: “não somos assim?, nos juntamos para irmos mais rapidamente de encontro ao limo?” (p.22).

A morte bate à porta. E se extasia no fantástico, lançando um convite. A tentação seria ceder, adequar-se à geografia do comum, integrar antologias temáticas e esvair-se. Contudo, Fraga não é Fausto, prefere o albatroz de Baudelaire, um passo no escuro vão da linguagem, o deslocamento, a relativa desimportância, a que realmente importa para a vida.

                        E me pergunto se poderia ser diferente, se tal mergulho no centro da kaóspole deveria alcançar outra dimensão que não esta da subjetividade e linguagem imprimidas pelo autor. A certeza que fica é que o grito lançado por Whisner Fraga tem a coragem e a ousadia de fazer da literatura um suporte para a poesia e a transgressão.

LIMA TRINDADE é mestrando na UFBA, editor da revista Verbo21 (www.verbo21.com.br) e autor dos livros Supermercado da Solidão (novela, LGE, 2005) e Todo Sol mais o Espírito Santo (contos, Ateliê Editorial, 2005).