Ilustração: Kandinsky

Um pesadelo

Eduardo Schmitt Amaro

...............................andando..............
............som.de.folhas............................ ..............................................................cerca..........
........................................................................
..........cidade.....................conversas.................
..............corda........................praça.........
........casa.fechada.....
.....................................

...................procurando..............procurando a chave de casa, não tendo a menor idéia onde estava. Havia guardado em algum lugar, mas onde? No vaso... não. Dentro da flor... também não. Quebrou o vaso para remexer na terra... nada. Pôs as mãos nos bolsos e só achou uma chave, que não servia. Lembrou-se da porta dos fundos onde poderia testá-la. Caminhava com cuidado, para não acordar a esposa. Ao colocar a chave na fechadura, não conseguiu girar e nem tirar. Pensando no que iria fazer, virou-se e viu um labirinto no jardim. Concluiu que estaria ali a chave da porta da frente, mas era muito trabalho procurar, então, chamou a  esposa.......................
................suspiros.............
........................

.................alívio.......................................cansaço...........
...........nuvens.....cama....

com o abajur ligado, foi até a cozinha pegar o bolo de cereja feito pela filha naquela tarde. Sentiu um cheiro muito enjoativo. Não queria comer, entretanto, seria muita falta de educação. Odiava cereja! Ao morder um pedaço, sentiu uma enorme repulsa, tremendo todo o corpo. Jogou todo o bolo no lixo (estava horrível mesmo) e foi pego de surpresa pela filha. Indignada, perguntou por que fez aquilo. Henrique disse que um ninho de barata havia se criado dentro do bolo. Não acreditando Michelle correu pelo corredor, chorando e chamando sua mãe. Puro arrependimento!....................................tédio...............

...............buraco.......................Lua..................frio......
......muito.frio.........noite.......o ônibus vinha. Começava a ficar perigoso, esperando naquela parada mau iluminada. Olhava com freqüência para todos os lados: somente via vultos de casas e árvores. Nenhum carro passava por ali. Deserto silêncio. Uma inquietação o assaltou. Quando viria o ônibus? Teria quebrado? Ou não vinha? Ele veio! Longe, mostrava seus faróis acesos chegando. Antes de entrar, percebeu que chovia ali dentro, então, pôs o capuz, abotoou a capa de chuva e embarcou. Como todos os bancos estavam vazios, optou por sentar-se no fundo, onde não chovia tanto. Aquela água não era normal, o angustiava. O ônibus corria até demais. Rápido demais; um abismo! Há quilômetros de distância havia um abismo. Como evitá-lo? Cada vez mais medo... mais pressa. Caminhando aos tropeços foi até o meio do ônibus onde começava uma violenta tempestade. Perigo crescente. Era complicado respirar o ar úmido. Precisava pular! Congelou a espinha ao vislumbrar uma figura medonha, voando do lado de fora, perto da janela. Estava morto. Com certeza estava morto e mesmo assim voava. Os cabelos longos ficavam presos na forca, balançando abaixo do pescoço. Conforme Henrique se mexia, o enforcado seguia seu movimento. Correndo o máximo que pôde, passou pela tempestade e arrombou a porta de embarque. Daquele lado, a figura não podia pegá-lo. Jogou seu corpo para bem longe, rolando descontroladamente até bater num poste, onde se escondeu. O ônibus dobrou a esquina e nenhum sinal do defunto. Bem abaixado, andou até o outro lado da freeway. Ali estava a parada que o salvaria, possibilitando o retorno. Porém, logo atrás havia arbustos que o enchiam de medo. Tinha pressa. Mais pressa! Não chegava nunca! Olhava para todos os lados. Ah... finalmente, uma luz ali na esquina. Ou vir o som barulhento do motor era relaxante. Os arbustos se mexeram! O enforcado flutuava perto! Ele se aproximava! A porta não abria! Ele mesmo... SE APROXIMAVA!

 

 

..........sorriso.........brincar........concentração....
.....balões......bolo vinha logo. Não conhecia muitas pessoas, preferindo ficar só com a esposa. Respirava tranqüilo, na manhã tranqüila. Até que... o bolo veio; e a indignação. Carregado por uma mulher desconhecida, o doce não tinha velas. Nenhuma! O que era aquilo? Uma piada? Sem graça por sinal. Achavam que ele era o que? Empurrou o bolo no rosto da moça, cobrindo-a toda de merengue. Metade da sala caiu na gargalhada, mas Henrique não. A mulher foi tomar um banho enquanto ele tinha uma conversa séria no quarto. Era inexplicável a atitude do marido. Nesse instante, percebeu a burrada que cometera e logo após a sogra sair do banho, foi se desculpar. Não tinha porque se preocupar, ela afirmou. Foi até vantajoso, pois assim, pôde comer todo o bolo no banho.................................

.....fogo.........................sopro..................................

EDUARDO SCHMITT AMARO nasceu em 23 de março de 1985 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Faz graduação de Letras na PUCRS e trabalho como bolsista num projeto literário. Comecou a escrever em 2001, sendo que com 13 anos já gostava de criar estórias fantásticas. Em 2002 fez uma Oficina de Criação Literária chamada Scrivere, orientado por Berenice Lamas.