Ilustração: Kandinsky

Quando nos mudamos para Jerusalemstraat estávamos realmente felizes. Já fazia mais ou menos um ano que morávamos em Antuérpia e nossos projetos pareciam estar iniciando seus caminhos. O apartamento ficava bem mais próximo ao centro que o antigo... bem, para que Raquel não me venha desdizendo, o outro também era próximo ao centro. Entretanto, havíamos sempre que atravessar grande parte da Volkstraat e depois pela Nationale (pois as duas eram a mesma rua, a não ser pelo seu nome que vem trocado sem que se entenda o por quê), para chegarmos a Universidade e isso me aborrecia. Nosso apartamento era pequeno, assim como o outro, mas com um espaço melhor destribuído. Logo a entrada, tinhamos uma pequena sala de estar, onde também, um pouco ao canto, bem ao lado do sofá-cama, dependurávamos nossos casacos. Logo vinha a mesa de jantar – costumadamente usada para jogar cartas ou apenas conversar. A passagem da mesa tínha-se a cozinha e a escada que levaria ao banheiro e nosso quarto. Raquel estava feliz porque assim mudavámos de ambiente. Passava horas e horas a imaginar o que colocaria nas paredes, o tipo de pano que poderia forrar o velho sofá, uma luminária que faltava ou um tapete que atrapalhava a porta. No fundo, ela gostaria somente de fazer com que aquele pequeno pedaço de paredes e portas ficasse um pouco mais parecido conosco. Eu sempre fui passivo em relação a estas coisas, embora aprecie os detalhes pessoais que fazem a diferença nas casas. Quanto a isso, deixava tudo para o bom gosto de Raquel. Sabia que ela faria o melhor. Para mim, bastava um lugar próximo a janela, meu computador e minha moka sempre sobre o fogão. Entretanto, a um certo tempo a agitação de Raquel passou a me afligir. Em alguns momentos, parecia-me que ela só falavasse em tintas, móveis e outras coisas. Logo depois vim a saber que havia convidado uns amigos para a próxima semana ou na outra, não entendi muito bem. Gostaria de preparar alguns salgadinhos, mas sua preocupação inicial eram as paredes que estavam muito sujas, que deveríamos pintá-las e o por quê que eu tinha que ser sempre assim, como um saco plantado no sofá sempre abstraído e distante de tudo. Dizia-me que não podia nunca contar comigo. O que não era verdade, pois toda vez que Raquel tem um desejo, as coisas mais complicadas acabam sempre comigo. Ou um sofá que se deve carregar escadas acima ou mesmo um armário para descer pela escada caracol, a qual, como já disse antes, leva ao nosso quarto e banheiro. Dias depois, ela tinha aparecido com uma bicicleta preta. Disse-me apenas que comprara a pouco dinheiro e que era um presente para mim, visto minha paixão por bicicletas pretas. No entanto, como não tínhamos com o que trancá-la, ela gostaria de trazer para cima, por isso eu deveria correr – acabara apenas de acordar – porque a bicicleta estava aberta lá embaixo, e não podíamos perder tempo, pois nestes dias de hoje roubam tudo. Meia hora depois eu tomava meu café olhando para a bicicleta, que tomava toda a nossa pequena sala de estar. Era realmente bonita e estava praticamente nova. Gostei do presente. Aliás, todos os presentes que ganho de Raquel. Não sei o que ela tem, mas me parece que lê pensamentos ou coisa parecida, pois sempre chega com aquilo que estou querendo. Havíamos pintado as paredes no dia anterior, e minha preocupação maior era fazer com que a bicicleta não sujasse tudo. Quanto a corrente, decidi que a compraria na segunda. Estávamos ainda na sexta, mas não seria um problema tão grande, a parte o incômodo. Naquela noite resolvemos ir ao teatro, com um casal de amigos. Quando reentramos, Raquel disse sentir que o apartamento ainda não nos pertencia. Como se existisse algo que faltava fazer. A partir daquelas palavras, passei também a sentir o mesmo que Raquel. Eu não sei o porquê, mas desde pequeno quando alguém me afirmava algo com tanta certeza ou simplesmente dizia que estava sentindo algo ruim, também eu passava a pensar igual ou também a sentir instantaneamente a mesma coisa. Antes, culpava a personalidade vazia que possuía. Entretanto, nos dias de hoje não sei o que é. Procuro entender, e a isso me parece uma sensibilidade apurada, como se pudesse ver e sentir através da óptica desta pessoa. Entretanto, disso ninguém sabe. É um segredo meu, visto por mim de formas contrárias, como uma dádiva ou uma deboleza. Por isso, por um leve segundo, o apartamento passou a me incomodar. Mas, logo já havíamos nos esquecido disso e nos amassávamos na cama. No outro dia, acordamos tarde e subi para me preparar um café. Percebi que a bicicleta não estava no mesmo lugar que havia deixado. Naquele momento, estava de lado, em frente a porta, bloqueando a passagem. Gritei a Raquel que como sempre não me havia entendido. Então esperei o café bulir para que pudesse descer e contar-lhe com mais paciência. Enquanto isso, Raquel gritava vários “quês” lá de baixo, esperando que eu repetisse o que havia dito. Eu sempre me diverti com aquilo, pois no fundo odiava quando dizia as coisas e ela não me entendia. Transformava seus “quês” em uma vingança, deixando-a perguntar até o momento em que se cansasse e dissesse que sou chato. Desci e lhe disse então o que ocorrera. Falei, ainda, que naquela tarde não poderíamos sair e Raquel se entristeceu, pois gostaria de ir comprar umas cortinas. Passamos toda a tarde em nosso quarto, mas quando nos deu fome, Raquel resolveu nos preparar uma comida rápida. Foi, mas desceu correndo, dizendo que deveríamos nos trocar, aproveitando a possibilidade para sair, já que a bicicleta havia tornado ao seu lugar inicial. Por isso nos trocamos e saimos rindo como loucos pela rua. Nossa felicidade contagiava as pessoas e fazia com que sorrissem para nós. Era como se tivessemos ficado presos por anos e somente naquele momento nos fosse permitido ver a cidade com suas pessoas, suas ruas e suas luzes. Resolvemos comer uma pizza e no restaurante o garçom nos atendeu sorrindo, enquanto puxava a cadeira para Raquel se sentar. Pedimos vinho e as pizzas, e algo nos fazia crer que estávamos na Italia, com todos aqueles garçons rindo e andando como se dançassem uma tarantela. Por um momento paramos de rir e nossa felicidade nos pareceu que havia murchado como rosa sem água. O pensamento de que poderíamos voltar e não entrar em casa se fez presente. Mas, entre um e outro copo de vinho, disse a Raquel que não se preocupasse, pois qualquer coisa poderíamos dormir em um hotel. Havia trazido dinheiro suficiente. Deixamos nos levar e quase não comemos nada, embalados que ficamos pelo álcool. Raquel ligou para Fátima, sua amiga, e resolvemos sair para dançar. Nunca na minha vida apreciei dançar e, na verdade, como venho da Amérida do Sul as pessoas me obrigam a isso, dizendo-me que a dança eu tenho obrigação em ter no sangue. Sempre sorria e me deixava levar, querendo ser agradável, no entanto logo no primeiro momento que podia, fugia e saía caminhando para olhar as pessoas e o ambiente. Gosto muito de ouvir as conversas. As frases soltas em locais assim sempre me pareceram ou pensadas demais – o que para mim traziam algo como que falso – ou soltas sem a menor preocupação. Aliás, eram estas as mais engraçadas e melhores para se ouvir. Bebia desesperadamente um gole após o outro, talvez para não me sentir tão sozinho. Raquel e Fátima se consumiam e danças e risadas, e com isso a noite se ia até o momento em que já não seria mais. Ao sairmos da boate resolvemos comer algo. As meninas iam a frente, rindo e fazendo piruetas sobre a rua. Tudo era como se fosse um pequeno teatro, onde somente eu era o público. Satisfazia-me isso, pois pensava que aqueles eram espetáculos feitos exclusivamente para mim. Peças que ninguém jamais teriam o acesso, a não ser nós mesmos: as duas atrizes e eu, o público. Comemos e como sempre fizemos os mesmos comentários a respeito de molhos, carnes e cebolas (não como cebola e Raquel vive me fazendo publicidade gratuita deste vegetal). Ao voltarmos a casa foi como se um filme tivesse acabado. Estávamos em silêncio e pareceu-nos que as escadas eram mais longas e íngremes. Demoramos a chegar a nossa porta. Ao pegar as chaves notei uma certa apreensão por parte de Raquel. Quando girei o trinco, a porta impunhou uma certa dificuldade em seguir seu curso. Tive de redobrar minhas forças e, afinal, consegui abri-la. Vimos que não era a bicicleta, mas o tapete que metera-se bem próximo a porta, dificultando a sua abertura. Sorrimos e foi como se houvessemos recebido um telegrama contendo uma boa notícia. Raquel me olhou de um modo que só ela sabe me olhar e nos beijamos. Começamos a tirar nossas roupas e lhe disse que deveria trancar a porta, que ainda estava aberta e, para tanto, acendi as luzes. Foi quando ouvi um grito de Raquel. Olhei para trás e vi a bicicleta bem no começo da escada. Isso queria dizer que deveríamos dormir na parte de cima, pois não haveria outro modo de descermos. Aquilo nos tirou do lugar que estávamos e nos fez voltar rapidamente ao nosso mundo, ao nosso apartamento. Resolvemos então dormir. Liguei o som e esperei Raquel preparar o sofá-cama. Ela me disse que sentiria falta de seus travesseiros, pois não sei muito bem o porquê ela dorme com uns quatro. Disse-lhe que poderia dormir com a minha almofada, que aquilo não me importava tanto. Resolvi fazer um café, pois havia perdido sono. Como sempre, Raquel me disse que eu era louco, pois onde já se viu tomar café aquela hora. As horas, realmente, não me interessavam tanto e nunca pensei que devesse segui-las para fazer alguma coisa. Dei-lhe boa noite e pensei que poderia aproveitar o tempo para escrever alguma coisa. Feito o café, tive o cuidado em desligar a torneira do gás, pois nunca se sabe o que pode acontecer. O fiz porque a bicicleta estava muito próxima ao fogão, e aquilo me deixara um pouco preocupado. Não escrevi muita coisa e, quando acordei, notei ao meu lado a xícara cheia de café frio. Não havia sorvido nem mesmo um gole. Raquel ainda dormia, por isso resolvi não fazer muito barulho. Levantei-me da cadeira com uma imensa dor nas costas, e então me lembrei da bicicleta. Olhei para trás e pude ver que ela havia recuado um pouco, deixando um espaço para a passagem. Acordei Raquel e lhe disse para irmos à cama. Levei um livro mas foi inútil, visto que ao me deitar e sentir as qualidades de uma boa cama, o sono veio logo em seguida. Acordamos um pouco tarde. Como sempre, primeiramente Raquel que, como uma criança, acorda acesa. Sempre foi assim, e nunca me deixa dormir um pouco mais. Passamos toda aquela tarde de domingo deitados, com filmes, beijos e comida na cama. No outro dia acordamos cedo. Tínhamos muito o que fazer e a vida parecia retomar seu rumo. Raquel pensava ainda nas cortinas e no jantar que estava chegando. Eu deveria fechar alguns acordos de tradução em Bruxelas e ela me lembrava a todo momento do cadeado da bicicleta, porque não podemos viver assim e tem o jantar e como as pessoas vão se virar em casa? E foi neste momento que nos relembramos tudo. E se estivesse na porta, como seria? Deveríamos sair de qualquer forma. Resolvemos, então, nos trocar em silêncio e dentro do quarto. Quando estivéssemos já prontos, sairíamos correndo, subiríamos as escadas e sempre correndo nos dirigiríamos a porta de saída. E assim foi. Sem tantos empecilhos. Saímos novamente correndo e rindo, mas deveríamos nos separar logo. Lembrei-me que não havia fechado a torneira do gás, mas não disse nada a Raquel, pois havíamos nós dois o que fazer e eu ainda tinha que viajar a Bruxelas, fechar negócios, pois como poderíamos viver assim, sem ainda haver emprego e gastando até mesmo aquilo que nós não tínhamos.

ALESSANDRO GUERGOLET é autor de "O plantador de pedras e outros contos", que recebeu uma menção honrosa no Prêmio Afonso Duarte de Portugal.