Ilustração: Kandinsky

A saideira

André Calazans


- E aí, conterrâneo, começou cedo hoje ?
- Fala, comendador ! Sentaí pra tomá uma branquinha.
- Dá não, vou passar lá na feira pra patroa ...
- Tá de sacanagem ! Tá virando pau mandado de mulher agora ?
- Óia, rapá, não fala assim, não. Se eu num trazê nada, num tem almoço. E eu já tô tomando umas e outras lá em casa, só no limão ...
- Então senta o rabo que a gente entorna a saideira, também vou picando a mula.
- Se é assim tá bom, cumpadre. Tá beliscando o quê aí ?
- Uma moelinha, de leve. Ô, baixinho, traz mais uma porção no capricho. Não esquece do pãozinho. E mais duas caninha também. Ah, e uma cerva pra rebater.
- Mas e aí, cumpadre, que qui tu conta de novo, tudo certinho? As criança, dona Chica ?
- Vai levando, vai levando. Nem te conto o que rolou outro dia, maior danação ... E você, tá ainda trabalhando pro Inácio ?
- Tô mais não. Tive um problema brabo lá, fiquei puto. Eu saí e ele ainda ficou me devendo uma grana.
- Porra, tu tá brincando, logo o Inácio ? Gente boa pra cacete, conheço a família há mais de dez anos ...
- Pra tu vê, eu também fiquei espantado. Achei uma baita sacanagem. O problema é que desde que o Elimar entrou com ele de sócio, eu não tive sossego. Só crocodilagem ...

O homem pára por uns instantes, pensativo. Pede mais duas doses de cachaça e por fim responde, mudando o tom:

- Tu sabe que o Elimar é meu afilhado. Nosso conterrâneo, inclusive ...
- Tudo bem, não se ofende. Eu tenho intimidade contigo pra poder te falar, mas me deram uma puta sacaneada.
- Mas conta aí ... o quê que houve de tão grave ?
- Eu dei uma de otário, só isso. Trabalhei que nem um corno, mais de três meses, vendendo aquelas merda daquelas roupa, aqueles sapato ... Rodei mais de cinquenta barraca, tu tinha que ver só. Conheço todo mundo na feira - tu fala meu nome e na hora qualquer um sabe quem é. Acabei fechando pedido com uma porrada de gente.
- E aí ?
- Aí que não me pagaram nem metade da comissão combinada, só isso. E mermo assim demorou um tempão. Fiz papel de babaca com os filho-da-puta ...
- Peraí, peraí ! Filho-da-puta, não ! – diz o homem, colocando o dedo em riste e demonstrando contrariedade.
- Com todo respeito, cumpadre, com todo respeito. Baixinho, vê mais duas aqui. Num quero ofender a dona Corália, Deus que a proteja. Ela anda até meio mal, fiquei sabendo. Filho-da-puta é o modo de dizer, a mãe num tem nada a vê com as sacanagem dos filho ... Mas mudando de assunto, como é que tá dona Chiquinha, que tu não falou direito ?
- Porra, não me pergunte por Francisca, que eu tô por aqui com ela. Quase me botou pra fora de casa anteontem ...
- Mas quê que tu andou fazendo pra ela te tratar assim ? Tu também não é fácil ...
- Nada demais. Só que ela andou fuçando por aí, com um e com outro, e disseram que eu tava comendo a Martinha, aquela escurinha lá de baixo.

O outro parece não gostar do encaminhamento da conversa. Vira a sua dose de uma só vez, pede pra completar mais duas e pergunta:

- Mas então era verdade ... Tu tá saindo com ela mesmo ?
- Fica na sua, cumpadre, fica na sua. Mas aquela neguinha fode é muito, tu tem que ver só !
- Porra, tu num sabe que eu namorei ela, queria até compromisso firme ? Foi pouco tempo, rapidinho. Logo antes de eu me achegar na patroa, ela embarrigar ...
- Quê é isso, tu é meu irmãozinho ! Entre a gente não tem isso. Então tu sabe que aquilo ali é uma perdição mermo ...
- Não sei é de porra nenhuma, que eu nem cheguei a ter intimidade com ela. Te falei, não deu nem tempo.
- Como não deu tempo, cumpadre ? Eu já cheguei passando a rola nela ! Não acredito que tu ficou só de beijinho e abraço. Marcou bobeira !
- Tu quer dizer o quê com isso, porra ? Tá dizendo que tu é mais homem que eu ?
- Pára com isso, mermão ! Não precisa gritar no meu ouvido que eu não tô surdo ! Eu não falei nada. Ô, baixinho, completa aqui pra gente.
- Aí, precisa completar porra nenhuma não pra mim, que eu tô de saída. Quanto é que eu tô devendo aqui, baixinho ? – diz o homem, metendo a mão no bolso de trás da calça.
- Sossega aí, mermão ! Vamos tomar a saideira. Ficou putinho assim por causa da neguinha, é ? Pensei que não valia isso entre a gente.
- Saideira é o caralho, que eu tô cheio de pressa. Tomaí ! – o homem então procura o dinheiro nos quatro bolsos da calça. Por fim, joga algumas notas amassadas no balcão.
- Aí, faz o seguinte: deixa essa porra pra lá que eu acerto ! A próxima é tua.
- Tá querendo tirar onda comigo, acha que eu não tenho dinheiro ? Tá me chamando de fudido ? Presta atenção !
- Ô, conterrâneo, tu tá muito nervosinho hoje ! É melhor tu ir mermo pra tua casa esfriar a cabeça, porque eu também não vou ficar ouvindo falação, nhém nhém nhém no meu ouvido ! – grita o homem, abrindo e fechando a mão próximo à orelha.
- Tá me expulsando ? Que merda é essa ? Se eu quiser eu fico aqui é o dia inteiro, e que se foda você !
- Porra, tu tá de brincadeira comigo ! Faz o que tu quiser e não me enche o saco, que eu já tô perdendo a paciência contigo !

O homem pede uma cachaça só pra contrariar, vira em dois goles, e prepara a resposta para seu interlocutor:

- Vou me embora mermo, porque tenho que ganhar a vida. Num fico o dia inteiro de bobeira, vivendo de favor ...

O outro homem parece profundamente ofendido com esta provocação.

- Como é que é, seu filho de uma puta ? Tá me chamando de vagabundo ?
- Não chamei é de porra nenhuma, você é que deve de tá se assumindo !
- Olha aqui, se eu não te conhecesse há um tempão, inclusive o teu irmão Clodoaldo, que sempre foi gente fina comigo, eu te enfiava a porrada aqui mermo !
- Pois então pode vir, cai dentro que eu quero ver ! – o homem grita, enquanto pega uma garrafa de cerveja vazia no balcão, quebra seu fundo na quina e a aponta para o outro homem. O balconista tenta intervir, assim como alguns pinguços. Mas os dois pareciam antigos desafetos, tal a disposição com que partiam para a contenda.
- Seu frouxo de merda, nem na mão tu sabe fazer, né ? Então vem aqui, filho de uma égua arrombada ! – o homem arranca uma faca de serra da mão do baixinho, que cortava um pão para servir com carne assada em uma mesa próxima.
- Tu vai é ver quem é que é frouxo, cabra safado !

O homem parte com a garrafa, o outro se afasta. Erra o primeiro golpe, mas insiste, conseguindo ferir o oponente de raspão na barriga. Entretanto, perde o equilíbrio e cai de bruços em cima de uma das mesas de madeira. Aproveitando a oportunidade, o outro contra-ataca. Parte para cima do oponente com a faca pontuda, erra, puxa rapidamente. Na segunda investida atinge o adversário três vezes seguidas - duas nas costas e uma na mão, atravessando-a e prendendo-a na madeira.

- Tá vendo, seu cabrão, como que tu é um merda abusado ? E aí, o que é que tu tem pra me dizer agora ? Vamos, diz, porra ! Tu não é homem pra cacete, não é macho ?
- ...
- Fala ! Fala alguma coisa, seu bosta ! Reage, porra !
- Eu comi ela... Ai, porra, tá doendo pra caralho ! Comi muito ela, sabia ?
- O quê que tu tá dizendo, bundão ? Pára de chorar e finge que é homem !
- Ai, cacete, tá doendo ... Comi ela, passei a pica na Francisca, tua mulher. Vai dizer que tu nunca desconfiou ? Aquele sinalzinho na virilha, lambi tudinho por ali ... – o homem, apesar da dor, muda sua expressão por segundos e faz uma careta depravada.
- O quê, homem, quê que tu tá dizendo ? Repete, porra, vai !
- Ai, meu Deus ! Deixa eu sair daqui, porra !
- Fala, desgraçado, tu ofende a honra de um homem e quer ir embora ? Desembucha ! – o homem então levanta a faca um pouco, apenas o suficiente para desprendê-la da mesa, e roda três vezes dentro da ferida da mão do outro, que se contorce.
- Pára, por favor, eu falo o que tu quiser ! – diz o homem, chorando de dor.
- Então continua, porra !
- Não foi culpa minha, ela tava puta contigo ! Ai, deixa eu sair, pelo amor de Deus !
- Tu se deitou com ela mermo ? É verdade o que tu tá falando ?
- É ...

O homem pára e pensa por uns instantes. Arranca a faca da mão do homem, que se contrai urrando. Em seguida, abre a carteira, retira mais que o necessário e chama o baixinho.

- Tomaí, é pra cobrir o prejuízo !

Ele parte com o instrumento cortante na mão, abandonando o tumulto do bar. Anda rápido, mas sem transparecer o desespero que consumia sua alma. Em três minutos, está defronte à porta. Respira fundo, e dá três batidas fortes com a palma da mão aberta.

- Chica, minha catraia, abre aí que a gente tem que conversar !


ANDRÉ CALAZANS é carioca, analista de projetos e tem 39 anos. Possui um livro de poesias publicado (Ladeiras) e tem participado de diversas antologias de prosa e verso.