Ilustração: Kandinsky

Poesia

– Leu a minha poesia?
– Li. Leu a minha?
– Li. Linda, linda.
– Linda é a tua. Eu quase choro.
– Eu também senti um nó na garganta quando li a tua.
– Deixa eu te dar um beijo de agradecimento.
– Deixa eu também dar um em você.
– Quando é que a gente troca de novo outra poesia?
– Vou fazer outra pra você no fim da semana.
– Eu também.
– Então tchau.
– Tchau.
Caminharam, em sentido contrário, ao longo do quarteirão. Ela conduzindo a sacola de livros e cadernos do colégio. Ele também.
Ele chegou na esquina de cá, ela na de lá. Viraram-se. Ele deu sinal de adeus. Ela também.
O quarteirão ficou deserto.

CAIO PORFÍRIO CARNEIRO é natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem cultivado o conto com regularidade. Sua estréia no gênero se deu em 1961, com o elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva - Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) e Maiores e Menores (2003). Seus romances são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A Oportunidade, estas em 1988. É autor também de ensaios, como Do Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Da Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de Bar, Perfis de Memoráveis). Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1975.