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Ilustração: Kandinsky
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Não voltar
Maurício Melo
Júnior
Há um ano lá não vou. Só agora lembro. A lembrança me pegou
desprevenido, no meio da rua, na displicência do dia.
Todo um ano.
Hoje ouvi no rádio – isso bem agora; caminhando com propósito –
a notícia de uma tragédia passada. Há um ano morria o ator.
Diziam ser o fim de uma era. Para mim, sim; foi o fim de uma
era.
Diante da grama extensa, ouvindo a notícia por um rádio que
gritava longe, tudo me parecia passageiro e efêmero – logo eu
que jamais pensei terminar a vida, que carregava um forte cheiro
de eternidade. Isso há um ano. Mas chega o dia em que a vida
começa a suplantar as coisas; amigos mortos, músicas sem
sentimentos no rádio, as alegrias sem espaços. O mundo
envelhecido – envilecido – não é mais seu.
Há um ano não mais vou lá. Lembranças mortas.
Vida... Isso existe além dos sentimentos? Quis perguntar a ela,
mas não houve tempo. Tudo foi rápido. Há um ano perdi o resto
das referências que acreditei eternas. A vida me contradiz; sua
matéria é esquecimento e falência.
Há um ano medido com precisão não posso voltar lá.
Essas lembranças... Preciso de mim. O cotidiano pode ser depois.
Um resto de sensatez me proíbe de inaugurar tragos. Pouco
importa. Bebo como quem apaga o quadro-negro onde se escreveu o
poema de seus dias – Lusíadas insensatos. O passado retirado da
gaveta. Lá deixarei esta dívida e pensarei que apenas apago o
quadro.
Eu era ela, ela era eu; penso e rio. Durante toda uma década
assim vivemos, mas um dia chegou a perda – e veio de maneira
súbita e improvável. Não tínhamos nada para deixar; nem filhos
nem bens. Devolvi a casa alugada, doei o que valia algo e
recomecei a existência com alguns livros e discos, coisas que
não consegui deixar no caminho. E diariamente contemplava a
vastidão da grama. Isso durante toda uma década. Não faltava
sequer nos dias de chuva, nos feriados, nos dias festivos. Minha
rotina. Mesmo quando me voltou a necessidade do trabalho não
fugi ao carma.
Nas primeiras horas da manhã, logo que o sol se mostrava, saía
de minha nova casa e seguia caminho certo. A poucas quadras
estava a vastidão do gramado. Parava no ponto onde podia comprar
uma rosa fresca; depois só onde devia. Chorava algumas lágrimas,
deitava a rosa e voltava ao mundinho meu.
O recomeço logo depois da tragédia. A casa nova – de fato um
apartamento – de fato me procurara. Na casa antiga – também um
apartamento – já não havia tempo nem espaço para este corpo e
suas lembranças. Mudei partindo do zero. Só no dia seguinte me
percebi tão perto do gramado vasto. Gestação e parto de uma era.
Também foi – quando a conheci – o começa de uma nova era. Os
amigos diziam de almas gêmeas, confluência de astros; essas
coisas.
Eu era ela, ela era eu.
Dez anos de cumplicidade apagados com dez anos de solidão. Mais
um de completo alheamento.
No dia seguinte não comprei a rosa. O florista talvez tenha
pensado em minha morte e, de uma forma qualquer, esperou meu
sepultamento. De seu ponto era possível ver minha janela
fechada. Mas eu tinha apenas saído e na volta talvez encontrasse
a porta arrombada, os bombeiros perplexos, as coisas todas em
seus lugares. Nada de desordem, nada de corpo e o florista a se
desculpar pela precipitação, justificando que eu sempre fora tão
pontual e previsível. Para evitar desentendidos é que resolvi
mudar para uma nova casa nova – também um apartamento – levando
só o essencial.
A vida e suas falências.
Eu era ela, ela era eu.
Fazia frio. Talvez tenha sido em umas férias qualquer, pois na
casa – um chalé – havia uma lareira acesa. Um colchão deitado no
chão, o fogo, uma garrafa de vinho, um filme na tevê. Nos
aquecíamos bastos em nós. As vontades maiores que os desejos.
Abraçados em silêncio. Sorrisos e beijos. O tempo tinha nos dado
o privilégio de códigos íntimos, e isso nos ensinou a
inutilidade das palavras. Éramos felizes sim.
Súbito tudo desfeito. De uma hora pra outra – num fim de tarde –
entrei na casa que era nossa sem ainda saber de solidão. O vazio
maior que o mundo era menor que a dor rasgada de meu peito.
Minha vida transformada numa letra de bolero. Naquele instante
saí à procura de um novo espaço, uma nova casa. Fiquei surdo aos
gritos conselheiros dos amigos. Insistiam na possibilidade de
adaptação às regras da nova vida sem perder as referências
construídas naquele espaço de lembranças. Meu momento impunha
outras ordens, era, pois, necessário cumpri-las.
Mudei. E só depois do gesto percebi a proximidade com o vasto
gramado. Tudo asséptico e bem cuidado. A modernidade roubou o
rito barroco e vasto da morte. Os cemitérios de minha infância
eram exuberantes – os túmulos altos, rosas, anjos e trombetas
entalhados, versos lapidares nos mármores. Agora tudo resumido
ao gramado extenso e plano.
Era um dia de folga e eu carregava os músculos exaustos da
mudança. Saí para reconhecer meu novo habitat. Fui levado pelo
eterno fascínio ao desconhecido e pela dor que me habitava. A
compulsão humana me fez comprar a rosa. Caminhei pelas alamedas
tristes tentando resistir ao ponto que me chamava. Quebrei a
resistência. Um lugar com ar de abandono. A grama um pouco alta
quase encobria a placa padronizada onde repousava o nome dela.
Eu era ela, ela era eu.
Chorei um resto de lágrima, até que me assaltou o espírito
prático. Chamei o zelador e ordenei que pusesse tudo no mais
perfeito brilho. Paguei adiantado. Disse para manter a rosa no
lugar exato onde eu a deixara. E durante dez anos visitei o
lugar com pontualidade. Sempre com uma rosa e um choro.
Dez anos. Uma década de luto inútil.
Eu era ela, ela era eu.
Gostávamos de ficar em casa. Tomávamos vinho, líamos os mesmos
livros, os mesmos jornais; ouvíamos as mesmas músicas.
Cozinhávamos com a alegria de quem inaugura brinquedos. Uma
convivência de cúmplices.
Tudo se apagou sem aviso prévio.
No dia em que o rádio anunciou a morte do ator – o fim de uma
era – cheguei ao cemitério na hora de sempre. Trazia na mão uma
rosa e algumas lágrimas nos olhos. De longe percebi a usurpação.
Em meu lugar costumeiro, uma senhora se ajoelhava. Percebi que
chorava com uma dor honesta. Eu, o falsário, não tinha mais
utilidade.
Perdeu-se a necessidade de carpir a falecida real e homônima,
mas em mim a morte tinha feições concretas. Isso bastava. Talvez
até a encontrasse numa rua, numa cidade. Sua morte se faria mais
forte que a verdade.
Deixei o bar. Agora cambaleio para casa já sem qualquer
propósito.
Senti na carne a saudade da volta, mas voltar parece algo tão
sem sentido.
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