Ilustração: Kandinsky

Metamorfose


Meu Deus! Estava remexendo alfarrábios na estante quando, sobre a capa de um livro abstruso, muito pouco visitado, me deparei com coisa tri-gosmenta, ectoplasmática, metamorfética. Era algo que a um lado parecia o casco pálido de uma joaninha, a outro quadrante se assemelhava a uma larva molhada de um alevino. Ao sul, era possível inteligir a carcaça de um inseto morto vivo ou redivivo. O algo se movia. Aquilo, através de um processo físico-químico assexuado estaria se transmutando em algo outro com resultados, por mim, desconhecidos. Era tão horrível quanto aqueles seres cósmicos e viscosos dos filmes americanos, só que em escala microscópica.

A entomologia por certo descreve com detalhes frios e classificações traduzidas ao latim esses fenômenos, mas para um observador casual, é uma cena Dantesca. De quantas a natureza é capaz! Pousar ali, na capa do livro adormecido na estante aquele troço. Que me livrem os entomologistas, tantos existem os lugares naturais, ecológicos, para que o processamento metamórfico, metamorfético desses seres seja desenvolvido fora do testemunho de seres humanos.

Ah! Toda paixão pela natureza desabará com a visão da coisa.

Uma amiga de tempos passados traduzia em todo tipo de fenômeno exótico, um sinal dos tempos. Sua memória fantasmática me sobreveio. Val, Valdirene, era quase uma bruxa ou quase um duende. Observava os detalhes microscópicos do movimento dos insetos em sua casa e descobria seus hábitos e habitações. Dizia compreendê-los por telepatia e dali extraía profecias, presságios, prognósticos. As especulações a respeito da legitimidade de seus conhecimentos deixaram Ipanema perplexa nos anos 80. Essa assombração hippie tomou meu espírito naquele instante e me lancei num oceano de indagações interpretativas. Por que ali? Na certa pelo papel. A textura, a porosidade e o olor do papel lembram folhas. Afinal papel já foi folha, tronco, árvore, semente. Então é isso! Insetos necessitam de uma textura vegetal para realizar essas mutações. Não! Mas que besteira! Eu deveria buscar o conceito, o sentido, o senso humano presente nas coisas. O signo.

É claro que foi o acaso. Circunstâncias incidentais favoreciam a desova. Mas na minha casa? Sobre meu livro? Haveria um sinal, uma comunicação do universo naquilo... O cosmos advertia por uma estante com poeira, fungos, umidade e imobilismo. Os livros, em sua disposição vertical, formataram o padrão de um microecosistema. Um bioma próprio para a procriação de lagartixas e seres gosmentos mutantes. Eu estava lendo menos que o necessário. Deveria ter me debruçado sobre aquele livro e tragado suas hipóteses. Era um preguiçoso merecedor de uma trama do cosmos.

O deserto de respostas definitivas para nomear o fenômeno me trouxe o ódio selvagem daqueles que desejam destruir o que não compreendem ou não conseguem explicar. O esquisito os ameaça. O arsenal de meu exército de truques para a defesa doméstica incluía álcool, sabão em pó, desinfetantes, água sanitária, detergente e, a arma drástica, o fogo. Fósforos e isqueiros. Tiranizado pela ignorância, vou queimar o livro para me livrar da dúvida. Neo Nero da cultura vou destruir um representante do patrimônio intelectual da humanidade por considerá-lo maculado. Inutilizado pelo trânsito da reencarnação biológica de uma espécie de inseto. De uma coisa viscosa que três aparências demonstra, e todas, e cada uma per si, descrevem uma tromboscose de formas. Tomo uma caixa de fósforos, uma lata de bom tamanho e a garrafa de álcool. Estou pronto para a execução pirotécnica do desconhecido. Pronto para esculhambar o inusitado, pousado em antigo livro. O fantasma de Val atiçou ainda mais meus instintos perversos. Era o livro das Tragédias de Shakespeare. Caso houvesse escolhido um Kafka, poderia ter lido no evento, uma identidade sincrônica, semelhante e bingo! Interpretaria um presságio positivo, de longa e intensa felicidade. Mas o livro das Tragédias de Shakespeare era a assinatura da fatalidade.

Antes de dar curso ao ritual, um lampejo de consciência social me detém. Devo aguardar a família. Aguardar as pessoas, os outros. Eles saberiam ponderar a mais sábia decisão.

Temia agora pelo tempo. O intervalo entre minha descoberta e a chegada dos outros. Quanto tempo duraria a metamoscose? O quê poderia em tripla dimensão ser tão tri-horrível? Tão tri-inexplicável? Um casco pálido de joaninha, uma gosma de carcaça de mosca e a larva de um alevino num único ser. Talvez aquilo significasse a intervenção de um organismo sobre outro. Um inseto colocara uma larva reprodutiva no corpo de outro inseto e agora se transmutava numa estrutura híbrida.

Estou preocupado. É noite. Ninguém chega.

É verdade que cuidamos de cães, gatos, plantas, pássaros. Mas cuidar do crescimento leguminoso dessa coisa, desse algo que afeto algum poderá oferecer, antes angústia. Que prazer qualquer poderá realizar, antes repulsa. Que gesto amigável demonstrará? Exibe seu não ser impenetrável, impérvio e repelente. E se move, palpita como um fígado extirpado de um carneiro. Uma gosma que parece respirar.

Graças! A chegada da família define uma decisão que envolve pano de limpeza e detergente. Pronto! Num segundo apenas a angústia que me tornara fraco e tirano se precipita para o lixo. O livro, agora de capa reluzente, repousa contente com as palavras e histórias vibrantes que protege e transmite.

A família delibera que a estante passará por faxina e não restará nesga de fungo ou umidade que permita o pouso do inexplicado. Será?

ALEXANDRE ACAMPORA é escritor com cinco livros publicados entre poesia, contos, crônicas e história.É carioca e está no estado do Tocantins desde 1998. Foi secretário de cultura da cidade de Palmas e atualmente é cronista dominical do jornal Folha Popular.