Ilustração: Kandinsky

Metades

Rachel Souza


Duas pessoas, perdidas num fim-de-semana "fim-de-linha".Os livros organizados por assunto em seções distintas de uma livraria charmosa, faziam-se testemunhas de um casal (?).Márcia e Flávio, jovens sobreviventes de uma relação a dois.
-Márcia, olha esse aqui, é daquele indiano que escreve coisas malucas, vou comprar!
-Por quê se você não entende o que ele diz?
-Se insisto em ler é pra tentar entender, caso já soubesse não manteria o mesmo interesse! Diz demonstrando alguma irritação.
-É, tá certo! O dinheiro e a insistência são seus...Vou na parte de contos.
-Isso!Vá lá!
Caminhando então, rumo ao gênero escolhido, Márcia vê um título no topo de uma das inúmeras prateleiras e, curiosamente, pega, abre, lê as orelhas, folheia...

-Hum, parece mais um daqueles best sellers sem graça nenhuma.Tece um comentário interno.

Antes de fechar e seguir seu caminho se atém à uma frese que em qualquer outra situação não teria o mesmo impacto."A cura para a infelicidade é a felicidade, não importa o que digam”, dizia o trecho.
-Caramba!Exclama extasiada.
-Posso ajudar?Pergunta a vendedora.
-Não, não.Acho que não...
Fechou o livro ainda pensativa com aquelas palavras a seguindo insistentemente.

-E aí, achou o que queria?Diz Flávio à mulher.
-Oi?Não, na verdade estou com uma frase na cabeça que acabei de ler.
-Qual?De quem?
-Elisabeth Mc alguma coisa, mão sei ao certo.
-E o que tinha nas palavras da senhora "Mac alguma coisa" de tão fascinante?Debocha impaciente.
-Ah, deixa pra lá, você não entenderia.
-Ok!Acabei de ser chamado de burro."vambora"?
Entraram na fila do caixa, pagaram e saíram.Flávio ostentando sua nova aquisição de grife indiana, tecia comentários ao vento, enquanto Márcia fingia atenção.Foi assim até chegarem em casa.Tudo parecia ão fora de lugar, a conversa, a livraria, o caminho de casa, Flávio, o sábado...
A primeira coisa que fez ao abrir a porta foi olhar pro chão, permanecendo assim por alguns instantes, como se nele estivessem respostas.Mudou o alvo, agora era a mesa de jantar.Limpou, encerou, lustrou, ajeitou o pano sobre ela parecendo estar pronta pra receber alguém.Ninguém!
Restou-lhe o quarto e lá foi ela, andando pernas fartas de tal trajeto, olhar perdido e cortante que de pronto ofereceu a Flávio assim que o viu, deitado na cama lendo compra da noite.
Márcia sentiu que era amor, um amor triste quase compaixão.Não!Talvez piedade fosse a palavra... Pensou em dizer "Eu te amo" mas desistiu a tempo, seria muito cruel.
-Está gostando do livro?
-Sim, sim, por enquanto é bom!Responde à mulher.
Sem mais o que argumentar, tirou a roupa e deitou na cama ao seu lado, tentando dar pulso às palavras que invadiam seus pensamentos, as expressões duras e o olhar ainda perdido e cortante foram interpretados como um convite.
-No que tanto pensa?Vem aqui, fala pra mim...
-Bem, é que, talvez..Tentava Márcia iniciar um diálogo.
-Tá com vergonha "mulé”, não acredito!
-Quero conversar!
-Ihh lá vem...
-Vamos conversar?Insistia.
-Acho que já estamos, não?!
-Não!Conversas é algo que se trava entre duas ou mais pessoas e elas, atentas ao assunto, também abrem a boca pra falar!
-Eu não sei se você é capaz de perceber, mas acabei de abrir a boca...E pra falar!
-Pàra com isso!Detesto sua mania de ser engraçado a qualquer custo.Seu sarcasmo fora de hora.
-Pensei que gostasse, pelo menos era o que dizia no início...Ironiza Flávio.
-Isso! É isso que quero, alguma reação, uma opinião sincera.
-Peraí,então você quer discutir?Quase de madrugada e você quer discutir?Dispensou uma noite de sexo pra brigar?
-O quê?!?!

Um hiato.Havia um hiato entre eles, não aquele do início das coisas, em que o silêncio é suave, bem-vindo, quase um carinho, que abre espaço pro outro, mas sim aquele que fecha, que exclui, que agride, que dá medo!
Ela insistia verborrágicamente.

-Não simplifique tanto Flávio.Hoje por exemplo ao seu lado me senti tão sozinha, uma solidão estranha...Antes quando a insegurança batia, bastava te olhar e as coisas se acalmavam.Porque mudou?O que fazer?
-Amor!
-Hã?
-Perguntou o que fazer e respondi.Vamos fazer amor que passa...
-Seu cinismo me assusta, você é um sádico doente!

Diálogos impertinentes tecidos às 4 da manhã de um sábado davam a tônica das palavras, assumindo a função de oráculo, onde com base nas proferidas até então, intuía-se o resto da noite.Um silêncio escandaloso prenunciava o caos.Era o início do fim...