Ilustração: Kandinsky

Guerra & Paz

 

- Maurício! Ô Maurício, pára de assobiar e responde logo: pagou ou não a conta da TV a cabo?

- Conta?

- A que te pedi pra acertar anteontem, na volta da academia.

- Ah... Não.

- Então pague amanhã, senão vão cortar.

- Não vai dar não.

- E por que não? Maurício, o que você fez com o dinheiro?

- Nada. Comprei um gibi. Um só.

- E o troco?

- Sem troco. Pô, amore, era uma raridade, edição de aniversário, prá colecionador. Saiu até barato!

- Ai, que eu vou ter um troço!

- Calma, Fabiana, prá quê tanta frescura por causa de...

- Frescura?

 

 

Aaaaaaaaahhhhhhhh!

 

Vai dizer que seu marido nunca aprontou uma dessas?

 

Cuidar do marido às vezes é como cuidar de um filho, preparando sua comida, correndo atrás para catar as tralhas espalhadas pela casa... Alguém por favor, me explique: prá quê tanto gibi de heróis multicoloridos e mocinhas com colant apertado?

 

E de nada adianta eu tentar reclamar: o Maurício sempre aumenta o rádio e assobia toda vez que tento pedir alguma coisa, mesmo a mais simples (imagina se fosse para discutir a relação!). Não agüento mais ter de brigar por bobeiras como baixar a tampa do vaso sanitário, tirar a toalha molhada do chão ou não beber direto da garrafa. E ainda tenho que entender que ele, quando quer refletir, precisa fazer isso com a porta da geladeira aberta!

 

Sinceramente, mulher que se desdobra nessa jornada dupla de lavar, passar, arrumar e ainda ter que engolir sapo de chefe deveria ganhar o Nobel da Paz. Da Paz, não, da Paciência.

 

Cuidar de casa + marido + emprego não é nada fácil, ainda mais hoje onde a principal exigência para a mulher moderna é a de ser multitarefa: cuidar dos afazeres domésticos, trabalhar fora, bajular a sogra, fazer compras, almoço, jantar, cabeleileiro quando sobra tempo, além de estar sempre fresca e perfumada. A mulher-esposa-amante-empregada 24 horas em ação.

 

Mas afinal, e para os homens, o que é ser multitarefa? Assistir ao futebol com uma mão segurando a cerveja e a outra minha coxa? Ter que decidir qual deixar livre para pegar o controle remoto e zapear na TV a cobertura dos melhores momentos da partida?

 

Onde foram parar a cordialidade, a atenção e gentileza dos primeiros tempos de casamento? E o romantismo?Desde quando ficou chato ser romântico?

E olha que eu nem sou uma mulher tão exigente assim, eu só queria um homem que me amasse, mesmo com todos os meus defeitos, todos eles - incluindo o cabelo matinal desgrenhado, o pneuzinho aconchegante na cintura, e a vontade de almoçar pizza de vez em quando - e, se possível, que fosse a cara do Brad Pitt.

 

Mas o Maurício não se parece com o Brad Pitt. Talvez de longe, no escuro, visto por esta mulher míope e... apaixonada. O Maurício sempre esquece nossas datas importantes, flerta com minhas amigas, espalha copos sujos pela casa... Mas esfrega meus pés quando reclamo frio, encaixa o corpo no meu prá me ninar quando tenho pesadelo (o último foi com uma visita surpresa da mamãe. A dele). E quando diz “eu te amo”? Faz parecer mentira todas as vezes que ouvi essa frase de outros homens. É raro ouvir dele, mas quando acontece, ele sempre me ganha. Me sinto única, desejada, feliz e...

 

- Fabí...

 

... caindo das nuvens.

 

- O que é, Maurício?

- Cê viu minha camiseta cinza, aquela que uso sempre?

- No cesto de roupa suja.

- Poxa, amore, eu tenho jogo hoje com os caras, e você nem lavou?

- Avisei que a vez de lavar roupa era sua.

- Não, eu lavei da última vez.

- Sua “última vez” foi mês passado, Maurício.

- Ah, Fabizinha, dá uma lavadinha nela enquanto eu tomo banho...

- Não dá.

- Por favor...

- Não.

- Tá.... tá certo, amorzinho. Não quero interromper sua leitura, você deve estar cansada, trabalhando tanto...

- Trabalho mesmo.

- Vai dar uma voltinha com suas amigas, se distrair.

- Eu vou.

- Você merece. Uma mulher e tanto. E é minha. Dá beijo. Te amo.

- Falso. Não vou cair nessa sua conversa mole não. Vai lá tomar seu banho.

 

Sem vergonha. Sabe dizer as palavras certas e do jeitinho certo, não posso negar. Cachorro. Não é o Colin Firth, mas é o homem que eu amo. Fazer o quê?

 

Só tomara que essa camisa seque logo.

 

- Ô, Fabizinha, minha paixão, você lavou e secou a camiseta, minha rainha? Minha gostosa, dá beijinho, obrigado!

- Não foi nada, querido...

- E ainda passou... Peraí, ô Fabiana, não acredito! Cê marcou a minha camiseta predileta com o ferro, quase que fez um rombo! Volta aqui! Volta aqui, Fabi! Por que que você tá assobiando? Fabiana, volta aqui, que agora eu quero discutir a relação! Fabiana!

 
 
 

ALEKSANDRA PEREIRA, santista, publicitária, diretora de produção e roteirista de cinema. Devoradora de livros, enquanto paga contas, empilha contos.  Seja no cinema ou na literatura, seu grande desejo é contar sempre uma boa história.