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Ilustração: Kandinsky
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Explosão para Liberdade
Uma enorme explosão abalou as estruturas do edifício onde
Florent Martin se encontrava preso. Este, tomado pelo susto,
protegeu-se com os braços e fechou os olhos. Por entre a neblina
de fumo que se formara à sua volta, Florent vislumbrou um
soldado caído e viu que o seu companheiro de cela já procurava,
de todas as formas, alcançar as chaves que estavam penduradas da
cintura do soldado.
- Aide-moi, vite! C'est notre chance de nous échapper! -
exclamou o seu companheiro de cela. Florent Martin sabia que
devia tomar uma decisão rápida mas a sua mente,
inadvertidamente, voou para longe.
Florent pensou, por um momento, na sua vida em Paris, no seu
trabalho, na sua esposa (Florent era recém-casado) e em tudo o
que deixara para trás a milhares de quilómetros de distância do
local onde se encontrava agora. Gostava de imaginar a sua esposa
suspirando por ele durante o dia no seu escritório no centro de
Paris e, à noite, à janela do apartamento do 12º andar num dos
principais Boulevards Parisienses. Essa imagem mental da sua
esposa Marie, à varanda, olhando o infinito através dos prédios
e pensando nele com saudades, era a sua preferida durante as
últimas semanas. Era com essa imagem que adormecia e acalmava o
seu espírito, noite após noite, nessas últimas semanas.
Chegara, havia duas semanas ao Iraque, para cobrir os últimos
acontecimentos nesse país praticamente em estado de guerra civil
para uma revista de reportagens francesa muito famosa e resolveu
seguir o trilho de uma história com a qual, sem querer, se
deparara e que o havia levado até ao cativeiro onde se
encontrava.
Ao terceiro dia de trabalho no Iraque, Florent e a sua colega,
Sabrine Berthaud, repórter da mesma revista que ele, decidiram
visitar uma família iraquiana bastante pobre, nos subúrbios de
Baghdad, mal aconselhados pelo dono do hotel onde estavam
hospedados. À chegada ao endereço, num bairro pobre, encontraram
uma casa de aspecto exterior degradado e pobre. À porta,
estacionado junto ao passeio, viram um Mercedes velho e sujo de
cor castanha. A partir do momento em que entraram na casa, tudo
parecia correr bem. Foram educadamente recebidos pelo senhor
Ibrahim que declarou ser um advogado reformado que havia
trabalhado para o Estado Iraquiano em anos anteriores.
Prontamente se desculpou pelo facto da sua mulher e os seus dois
filhos terem saído de casa naquela manhã pelo que ele seria o
único disponível para a entrevista. Apesar desse facto, os dois
repórteres franceses vislumbraram a possibilidade de uma boa
história já que o senhor Ibrahim parecia solícito e com vontade
de falar. Comunicaram sempre em inglês. De repente, tudo mudou.
Dois homens com as caras tapadas irromperam pela porta da casa
do senhor Ibrahim dentro, empunhando metralhadoras e
apontando-as aos dois jornalistas franceses. Neste ponto, os
dois franceses levantaram as mãos, consternados, como que
indicando que não tencionavam oferecer qualquer resistência.
- Journalistes! - disse Florent apontando para o crachá que
trazia pendurado no pescoço.
- We know. - disse, serenamente, um dos homens de cara tapada,
ao mesmo tempo que começou a amarrar as mãos de Florent atrás
das costas deste.
(...)
- Mais qu'est-ce que tu fait? Allez, vite, aide-moi! - chamou o
seu companheiro de cela, abanando-o mais que uma vez.
Entretanto, através da neblina de fumo, Florent viu surgir a
figura de Sabrine e chamou a atenção do seu companheiro para
este facto. Sabrine com um gesto rápido abriu a porta da cela e
os dois prisioneiros saíram apressadamente. Assim que Florent
saiu da sua cela conseguiu ver à sua volta outros prisioneiros,
dois dos quais, perto dele, falavam apressada e nervosamente em
italiano. Todos procuravam escapar daquele lugar mas a densa
neblina de fumo daquele lugar dificultava a visão. De súbito,
por entre o fumo, Sabrine chamou-o e indicou-lhe os destroços de
uma viatura que havia entrado, através da parede, naquele
edifício. Ambos trocaram olhares como que comunicando
telepaticamente. Ambos sabiam que se tratava de um carro-bomba e
ambos reconheceram o carro apesar deste se encontrar destruído.
Era um Mercedes castanho, velho e sujo.
(...)
Florent e Sabrine acordaram numa cela estranha e à sua frente
estava presente Ibrahim, o senhor iraquiano a quem tinham feito
a entrevista imediatamente antes de terem sido raptados. O
senhor Ibrahim tinha um ar bastante sério e solene, e vestia um
uniforme militar em perfeitas condições. Já não parecia pobre
nem na aparência, nem na postura. Mantendo o semblante sempre
sério, começou por dizer-lhes, em inglês, que os ocidentais não
eram bem-vindos no seu país, que não causavam nada a não ser
pobreza, miséria e mais guerras, e que ainda por cima, vinham
para tirar ao seu país a sua soberania e o seu petróleo. Por
isso, todos os que lhe caíssem nas mãos, explicava ele,
conheceriam todos o seu fim, mas não sem antes poder também ele
tirar proveitos financeiros dos ocidentais, tal como os
ocidentais pretendiam tirar do seu Iraque. Florent e Sabrine
mantinham-se em silêncio, com receio de poder motivar mais ódio
por parte daquele homem se proferissem qualquer palavra. No fim
do seu discurso, o senhor Ibrahim saiu deixando os dois
prisioneiros sozinhos. Minutos depois, uma bonita rapariga
morena, dos seus vinte anos, com uns bonitos olhos redondos e
escuros e com a face pisada entrou na cela e começou a
inspeccioná-los. Depois de os olhar por alguns segundos, fez uma
cara séria e disse-lhes simplesmente:
- Não se preocupem. Eu vou tirá-los deste lugar. - disse a
rapariga.
- Qual é o teu nome? – perguntou Sabrine.
- Iman. Significa fé e crença.
- É um nome muito bonito, Iman. – disse Sabrine. – Porque é que
tens a face pisada?
- O meu pai bateu-me porque descobriu que tenho namorado. Acha
que vou desonrar a família. – aqui Iman fez uma pausa. – Quero
sair daqui...para a Europa. Vou ajudá-los a escapar mas vocês
têm que me prometer que me levam junto com o meu namorado, com
vocês, para França. Dinheiro não é problema. Tenho um plano para
isso.
- Espera um pouco. Vais deixar a tua família? Deves pensar muito
bem antes de decidir alguma coisa deste género. – disse Florent.
- Já penso nisso desded a primeira vez que o meu pai me bateu.
Tenho de viver a minha própria vida agora. Tenho vinte e três
anos e não vivi muito. Nunca saí de Baghdad e nunca tive um
namorado antes deste. Ele é realmente especial. Ele ama-me e
respeita-me. Também me defende mas o meu pai odeia-o ainda mais
por causa disso, porque o Ahmed (assim se chama ele) olha-o na
cara e diz-lhe que o mata se ele me voltar a pôr as mãos. Depois
que eu tiver a minha própria vida na Europa, voltarei e farei as
minhas próprias regras em relação a ele e ele terá de as
aceitar. Chega!...a verdadeira questão é: querem sair daqui?
(...)
Finalmente, Florent e Sabrine, juntamente com os outros
jornalistas ocidentais raptados conseguiram chegar ao exterior.
Incapazes de resistir à curiosidade, voltaram as suas cabeças
para trás para ver o edifício onde haviam estado presos nas
últimas semanas que era um bonito e grandioso palácio ao estilo
árabe. Atrás deles, Iman, a rapariga dos olhos negros redondos e
bonitos esperava-os. Indicou-lhes, em inglês, que entrassem num
carro que estava parado a alguns metros e apontou-lhes a
direcção com a mão. Explicou-lhes, com expressão determinada,
que tinha ainda uma última tarefa a cumprir antes de se juntar a
eles e mostrou uma chave num porta-chaves com a figura de uma
serpente esculpida.
- Podem confiar em mim. Eu dei-vos liberdade agora preciso
conquistar a minha - disse-lhes.
- Mas e o carro? Quem estava no carro? - perguntou Sabrine.
- O carro não carregava nada além de uma enorme carga de
explosivos. O Ahmed tinha tudo bem planeado. Ele é optimo, não
é? Ele está a vossa espera no taxi. Agora vão!
(...)
Fazia uma semana que os dois jornalistas franceses se
encontravam em cativeiro. O senhor Ibrahim mandou chamar Florent
e Sabrine através dos seus guardas. Desta vez conseguiram dar
uma boa olhada ao interior do palácio onde estavam prisioneiros
e onde Ibrahim e Iman provavelmente moravam. Enquanto caminhavam
pelo palácio viram, de relance, Iman com os seus belos olhos
negros, atrás de uma parede, observando-os. Os guardas
conduziram-nos até uma sala e fecharam a porta, permanecendo do
lado de fora. O senhor Ibrahim já os esperava e parecia estar,
particularmente, de boa disposição.
- Como nunca vão sair daqui vivos, posso-vos mostrar uma coisa.
- disse o iraquiano, tirando do bolso uma chave num porta-chaves
com uma serpente esculpida. - Observem.
O senhor Ibrahim colocou a chave numa fechadura e a porta de um
cofre abriu-se mostrando várias barras de ouro que cintilavam.
- Isto é para que saibam o quanto vocês ocidentais me têm dado a
ganhar. Isto são resgates dos vossos sequestros. Eu era pobre,
vivia naquela casa em que vocês me conheceram, casa essa que
conservo não só para os meus golpes como o que fiz com vocês,
mas também para me lembrar do que era a minha vida. A certa
altura tomei uma decisão, quando o meu irmão foi morto pelos
americanos numa emboscada. Iria conquistar a riqueza e
proporcionar uma vida decente à minha família. Iria ser rico,
não importava como. Sabe o que é a pobreza, Sr. Martin? Sim, eu
sei os vossos nomes! Os vossos nomes dão-me riqueza. Só tenho
mais uma coisa a dizer-vos. Podem ficar contentes porque quem
quer que seja que se preocupa com vocês na Europa já pagou a
primeira quantia que eu pedi. Isso quer dizer que há pessoas que
se preocupam com vocês do outro lado. Este pode ser o vosso
consolo antes da vossa morte.”
(...)
Iman entrou no taxi e sentou-se no banco da frente no lado do
passageiro, dando um beijo visivelmente apaixonado no rapaz
sentado do lado do condutor, obviamente o seu namorado Ahmed.
Trazia consigo uma mochila que parecia pesada. “Aqui está a
minha liberdade”, disse abrindo a mochila e mostrando as barras
de ouro. O namorado rejubilou de felicidade e ligou o motor.
Iman ainda tirou do bolso uma máquina fotográfica que colocou
nas mãos de Florent. Este tirou uma fotografia dos dois
namorados e, logo depois, Iman voltou a tirar-lhe a máquina das
mãos. Florent entendeu que aquele momento só pertencia a Iman e
Ahmed.

GONÇALO COELHO, português, 28 anos
e sou apaixonado por literatura, tanto pela escrita como
leitura. As referências são variadas passando por nomes como
Milan Kundera, Tolstói, Dostoiévsky, Gabriel Garcia Márquez,
Kafka e Paulo Coelho. Já morei em Curitiba, PR e São Bento do
Sul, SC no Brasil (2 anos), em Brighton na Inglaterra (5 anos) e
actualmente moro no Porto em Portugal. Tenho o curso de Masters
em Engenharia Mecânica na Universidade de Sussex mas o meu
grande sonho é ser escritor e sigo lutando por isso. Tenho um
livro escrito e em avaliação desde Agosto de 2006 em várias
editoras portuguesas, intitulado “Poker – Um romance de acção,
romance e reflexão” (http://livro-poker.blogspot.com), cuja
primeira parte está publicada na internet em inglês e português.
Vários pequenos textos publicados no blog pessoal
(http://actualidadedigital.blogspot.com). Melhor nota do liceu a
português.
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