|

Ilustração: Kandinsky
|
 |
Dor
Ricardo Timm de Souza
Para Charles Kiefer
Estevão parou subitamente. Não podia seguir adiante, assim
simplesmente, como se não houvesse acontecido nada. Eram nove
horas da noite do último dia do ano. Mas isso em nada mudava os
fatos. A gatinha havia sido atropelada. Sim, a gatinha de
sempre, a gatinha preta que cada vez o seguia quando ele passava
a pé por ali, mas desistia no meio do caminho, voltando à
escuridão do bueiro onde talvez houvesse nascido, poucos meses
antes, e onde morava. Preta. Agora, à morte, seus olhos estavam
pretos também, ou eram as sombras do crepúsculo que haviam
permanecido? Lembrava-se de seus olhos amarelos, que sempre o
fixavam. Na ida, na volta: ela o seguia uns passos, uns miados
modestos, e depois retornava resignadamente ao seu buraco, ao
meio-fio. Passava das nove horas do último dia do ano, mas
Negrinha não veria o ano novo. Esse não era seu nome, era apenas
um nome óbvio, informal, que Estevão destacava de seus
pensamentos para ainda encontrá-la. Não. Seus olhos não havia
ficado pretos: eram suas pupilas que, em seus estertores, se
haviam ampliado desmesuradamente, como dois buracos negros que a
tudo devoravam. Não, ela não era mais a Negrinha do bueiro; era
alguns centímetros de carne agonizante. O que fazer? Estevão a
olhava, ela o olhava. Estevão só via sua fuga mal-calculada, o
segundo que a separara da salvação do bueiro, ele só via seus
poucos meses solitários no bueiro, a chuva que ali escorria, a
insistência dessa Negrinha bastarda em segui-lo, uma esperança
ingênua, seus miados e sua resignação silenciosa, o silêncio que
unia o antes e o agora. Essa Negrinha que nunca tivera nome logo
seria só ossinhos e pó, não, nem isso; os lixeiros passariam
ainda hoje e a poriam, ainda viva, no caminhão triturador de
lixo. Não, isso não poderia acontecer, pensou Estevão. Isso
seria a única coisa que não poderia acontecer. Ele ficaria ali,
cuidaria para que isso não acontecesse. Seus olhos estavam
negros, mas ela ainda vivia. Seu pelo, seu corpo inteiro,
emaranhado no asfalto ainda quente da longa tarde. Negrinha o
olhava. Talvez o visse, ou não. Mas ainda vivia. Às vezes se
mexia um pouquinho. Ia tocar nela, mas recuou; pensou que ela
poderia sentir ainda mais dor. Mas logo teve vergonha de si
mesmo. Não a tocava pelo medo do desconhecido. Afinal, Negrinha,
com poucos meses, já sabia o que era a morte e ele, velho, ainda
não. Isso os afastava infinitamente. Mas também os aproximava.
Ele estava ali, dali não sairia. Negrinha virou-se um pouco,
lentamente, sua cabeça reacomodou-se no cimento quente. Talvez
tenha uma chance de sobreviver, pensou Estevão, mas logo achou
sua idéia ridícula, embora os gatos fossem muito fortes e
pudessem suportar muita dor. Negrinha estava morrendo, e ele não
sabia o que fazer: isso era tudo. Os lixeiros passaram, mas nem
os notaram. Agora a noite já era intensa, combinava com os olhos
de Negrinha, estranhamente abertos, devoradores, mexendo-se
quase nada, engolindo-o. Negrinha colecionara esperanças vãs,
seguindo-o tantas vezes; agora colhia o prêmio por haver
existido. Estevão olhou a porta do carro ainda aberta, não
houvera nem tempo de fechá-la, foi tudo tão súbito. Estevão não
sabia o que fazer. Cuidadosamente, para não ferir Negrinha ainda
mais, colheu sua cabeça na concha cuidadosa da mão. Teve tempo
de se admirar espantar pela leveza daquela cabecinha, antes de
ser envolvido por um estranho torpor, o negror da noite que
vinha dos fundos dos olhos de Negrinha.
Uma tontura súbita o acordou novamente para o mundo, foi
apedrejado por sons agressivos: foguetes. Negrinha agora já
estava morta. Onze e meia da noite! Viu que nem o motor do carro
se lembrara de desligar na rua deserta, e o carro, fiel,
ronronava ainda, marcha lentíssima. O tempo voara, o cimento já
estava frio. Ao longe, foguetes pipocavam. Na casa em frente, um
bebê chorou; seu choro assemelhou-se estranhamente a um miado
baixo. Mais e mais foguetes. Dentro em breve, recomeçaria mais
uma sessão do grande circo.
|