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Ilustração: Kandinsky
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Desconhecer
O homem na esquina deseja narrar o fim do mundo.
Exerce o ofício pelo preço de uma moeda que no toque diz
denunciar o metal corroído da caneca então vazia. O que vale é a
explicação apaixonada dos versículos. A placa pendurada faz de
sua apresentação uma conversa direta: Profeta.
A barba grossa, os dentes faltosos, o suor, as olheiras. É o
destaque. Não suficiente, porém, para que parem e o escutem.
Estão indo e vindo, as pessoas, com tantos compromissos quanto
suas suposições equivocadas. Ter o final ao alcance das mãos,
fácil para desprezá-lo, singelo num sujo rosto mendigo, é uma
sensação que desfrutam alheios à conta, alheios ao valor devido;
como a respiração para o ar. Sequer agradecem movendo as cabeças
em afirmativa. Esses que passam... Sequer funcionam.
Há horas para se matar. Não ali. Não com ele. Evidente que não.
É duro.
Eu o vejo. Observo o vai-vem. Caos e ordenação dos clichês.
Escrevo linhas dum pesadelo qualquer que descarto, aumentando o
morro de papel que se acumula na lixeira de quina. Envelheci.
Para mim, a esta altura, o conhecimento de que o ruído das
folhas compactas inundando o chão não será irritante o bastante
para que reclamem no andar inferior, por si só, me trás
satisfação quase plena. Calcule isso.
Respiro fundo, tento me convencer de que não é coisa pouca.
Lembro do mês distante, quando posicionei a mesa na beira
janela, fazendo subir em procissão um grupo de fiéis egoístas do
silêncio, os quais reclamavam dum suposto insuportável arranhar
na madeira. Eles tinham conhecimento de causa, da causa
irritação; certo? Quase puseram a porta derrubada. Oh, eles eram
ameaçadores e soprariam.
No fim, após os jogos de cena, fitaram os pés, ligeiramente
envergonhados em terem incomodado o senhor de idade (que levava
a morte pendurada num ombro, feito um ventríloquo obscuro). Um
velho que permitia a seus parafusos soltos a diversão de rolar
escada abaixo.
A moral (e sempre há uma?): o grupo deixou claro sua opinião; a
quem julgava pertencer a culpa pelo desentendimento. Fizeram
assim, em frases baixas seguintes ao estágio de pena, pensando
talvez ser aquele outro idoso sem audição, incapaz de estar
atento à difamação que ia pela descida. Não poderiam estar mais
certos.
Não fosse eu um estranho recluso, saindo na penumbra quando
muito – disseram - o alvoroço seria evitado e – acrescento -
todos estaríamos confortáveis na linha de rotina que cega.
Efêmeros.
Maravilha. Incoerentes, todos eles. É o que são, os malditos.
Compreenda; no meu caso discrição fora um pecado. Para o
indivíduo na rua com a plaqueta, o espaçoso sedento por contar o
apocalipse; louco por atenção rasteira... Para ele valia o
inverso. Oras, que se decidam.
Aprendi minha lição: há um modo malicioso queira ou não, de se
justificar qualquer egoísmo. Isso sim é muito claro.
Lá embaixo está o prestador do serviço essencial, ignorado,
debatendo-se, de joelhos num chão de paralelepípedos irregulares
que fere a pela sob malha fina; ou num altar improvisado em
caixotes de feira empilhados. Ele aponta o céu que trará chuva
terminal de fogo. Esbraveja.
Meu amigo é o individuo sendo desconhecido.
O sol afoga pra se pôr. Libera cores laranjas por detrás da
fumaça densa que consome e faz de tudo - e um bocado mais - um
borrão de cinza. O volume de carros e pedestres aumenta. O nome
estrangeiro do horário se repete por ser gostoso.
Fecho meus olhos e reencontro velhos colegas; estão dizendo como
farão na velhice; contando planos de mudança para o interior
pacato, explicando como se deve investir dinheiro acumulado.
Atravessam meu pensamento, feito as espadas do ilusionista preso
no quadrado.
Quisera eu ter sósias espalhados no palco. No limbo, onde se
deitam as coisas sem valor. Talvez fumaça e espelhos que me
resolvessem.
Está lá, meu amigo, o individuo sendo desconhecido.
Acordo do hiato com o estrondo colossal, uma explosão seca vinda
desde o embaralho de ruas. O mundo real retorna,
convenientemente; justo quando os velhos colegas iniciariam o
discurso manjado em meu devaneio, a fim de me convencer a largar
da idéia de reclusão urbana. Por teimosia, venho ignorando a
sugestão; lá se foi o tempo quando ainda eram carne, ossos e
agradecimentos, não espectros distantes exclusivos.
No momento fantasioso em que se cogita hesitar; hesitei,
deixando para depois outra leitura daqueles lábios persuasivos.
Família é um erro, eu dissera, anos, muitos anos antes.
Responsabilidade poda o cidadão, faz pensar no que se diz.
Reprime.
“Publique suas bobagens com dinheiro do governo”.
Restou-me o quarto solitário.
Estão tratando o corpo na rua.
Após um estouro as vítimas são recolhidas. É o que fazem; as
pessoas. De longe me parece um jovem, não consigo identificar.
Posso me inclinar sobre a vista, a salvo pela tela contra
mosquitos que impede minha queda no buraco da janela... É o que
faço. Não há certeza. Navegar é preciso, e só isso o é. O resto
é especulação, farofa, poeira, qualquer coisa assim.
Pondero, pode ser uma mulher, quem sabe, de cabelos curtos,
mesmo uma criança mais crescida. O cidadão corcunda abandona sua
posição na banca de jornal e levanta o dedo para o semáforo; a
chave do enigma. Desta feita, o estrépito não era a fome do
trovão derradeiro do fim do mundo, mas um acidente motorizado
somente.
Hei, decepção.
A multidão, antes ao redor do carro, move-se em bloco;
escoltando o corpo molenga que é carregado sem cuidados devidos
até o automóvel de um voluntário, certamente em vias de seguir
para o pronto socorro. O hospital chama-se São Lucas,
irrelevante. A saída da ambulância improvisada é sonorizada por
aplausos.
O foco muda e a atenção se volta ao motoqueiro, motociclista,
motoqueiro. Em sua jaqueta há rasgos longitudinais avermelhados,
sangue de arranhão. Vermelho é sempre belo e gosto de pensar que
a dor dessa beleza não me escapa. Lembrei-me de certa história
que escrevi no passado: “Vermelho é o que você dirá ao se
encontrar com o Rei do Crepúsculo“.
Bem, ele, o rapaz da moto, caminha. Está consciente e com boa
disposto. Confere de perto o carro que atingiu o poste. Ergue o
capacete e o beija agradecido. Parece tranqüilo em relação a
seus procedimentos, prévios ao acidente, mas não me convence.
Meu veredicto sobre quem avançou a vez irá aguardar.
O homem de placa pendurada se afasta. Cabisbaixo. Chuta
pedrinhas sem orientação. Uma criança insatisfeita com o
castigo. Sugere a mim que o pobre diabo imagina tudo ser
coincidência conspiratória; de certa forma, um expediente
arquitetado em detalhes que o faz sucumbir na atenção do mundo
metrópole. Preciso alertá-lo do contrário.
Para uma história é pouco, mas que se dane, devo acalmá-lo.
Consolá-lo ou algo que o valha. As boas idéias fugiram. Está
cada dia mais difícil.
Estão caindo, as histórias. Também ando me desconhecendo.
Fito meu lar. A montanha de rascunhos está maior, embora não me
recorde de qualquer linha que tenha escrito no meio tempo.
Parafusos escada abaixo.
Escurece. Os antigos colegas retornam. A ladainha circular
rotineira.
O que nesse mundo não é fantasmagórico? Estou bem onde estou,
explico. Vocês não me devem conselhos. Vocês foram bons, bons
contos. Dinheiro suficiente. Um apartamento, um cobertor contra
o frio. Café e às vezes banho quente.
Vão.
Engraçado dizer que o beco é confiável, apesar da iluminação
precária. É como passear em páginas de quadrinhos desenhadas por
um iniciante. Olhos de gatos brilham, há o vagão de lixo aberto,
as paredes descascando, os canos mal escondidos, as infiltrações
esverdeadas por lodo. Uma longa ordem de acúmulos óbvios.
Meu ritual consiste em deixar o dinheiro preso a um tijolo
solto.
Hoje não.
- Boa Noite. – eu o saúdo.
- Doutor. Está bem?
- Pior que você.
- Não creio.
- Quem furou o sinal?
- O carro.
- E desviou da moto pra se espatifar no poste?
- É.
- Agora sim.
- Foi o que aconteceu. Outro idiota com pressa.
- Nada.
Ele não compreende de imediato. Guarda o montante que o trouxe
no bolso, sem conferir. Está agradecido. Deus irá me abençoar,
ele diz, ou profetiza. Sua voz não é grotesca como sugere seu
contorno. É fina, a um palmo de ser suave. Amanhã voltará para a
esquina, ao invés de vagar por outras localidades caso não fosse
recompensado. Estará disposto a fazer sua narrativa. Disposto a
antecipar e explicar o fim. E eu gosto que seja assim, e que
seja aqui, na minha esquina. Eu dou o valor devido.
Ele estala os dedos e saca uma bíblia com a maestria de
pistoleiro. Pequena, a capa preta, a borda rosa.
- Passo. – digo.
Ele soluça. Dá de ombros.
Eu viro as costas e na escuridão de volta à escadaria explico a
sutileza. Um piso de rascunhos me aguarda.
- O cidadão do carro se distraiu. Algo relevante chamou sua
atenção. Pra valer. Fez com que flutuasse. Tenha certeza, meu
caro.
Não é necessário que me vire para vê-lo sorrindo de canto,
orgulhoso e satisfeito por ter o trabalho notado. Nem tudo é em
vão.
Ganhou o dia.
No fim, é melhor escritor que eu.

LÚCIO CORTELETTI
– Nasceu em 1982, e vive no Espírito Santo à sombra dos
pseudônimos. É um Escritor de Histórias de Fantasmas e quer que
continue assim.
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