Ilustração: Kandinsky

Açúcar, farinha e gesso

Decidi escrever sobre o que aconteceu comigo. Vou começar do princípio: fiz meu curso de enfermagem com muita dificuldade. Trabalhava como empregada doméstica de dia e à noite estudava. Nas horas vagas eu lia. Lia tudo que caía em minhas mãos: O tesouro da juventude, seleta em prosa e verso, J.M. Simmel, Ágata Christie, Morris West. Eram livros que ficavam nas estantes das casas em que eu trabalhava. Eu ficava sonhando com uma casa enorme com um monte de livros de capa dura, amarelados. Quando fiz dezoito anos e terminei meu curso eu vim para a capital. Li um anúncio no jornal que oferecia emprego e moradia. Quem me abriu a porta foi dona Alberta, a filha do seu Francelino. Ele não saía sozinho do quarto. Tinha que dar banho nele, mudar sua roupa e colocá-lo na cadeira de rodas para ir tomar banho de sol.

“Ele fala muito pouco e não come nada sólido. Tem que esmagar tudo, entendeu?” - eu tinha entendido, sim.

“Às vezes ele não faz cocô e a gente tem que tirar com o dedo, sabe?” - ela falou isso e roeu uma unha grandona.

 “Sei, sim dona Alberta, pode deixar”.

Achei o serviço fácil e adorei meu quartinho. Seu Francelino era magro, não controlava o xixi nem o cocô e dar banho nele era mais difícil do que eu pensava. E também colocá-lo na cadeira de rodas. Quando eu o levava pra rua ele pedia pra entrar, quando entrava, pedia pra sair. Haja paciência. À noite nós três ouvíamos o rádio e seu Francelino gostava muito. Olhava pra mim com seus olhos grandes. Nem piscava. Eu ficava meio sem jeito.

“Não liga, não. Ele é assim mesmo. A gente nunca sabe o que está passando na cabecinha dele”.

É, mas eu desconfiava.

No final de minha primeira semana de trabalho um sobrinho de seu Francelino veio trazer alguns livros velhos. Trouxe várias caixas de papelão. Ele disse que não cabiam mais no seu apartamento e que na casa do tio havia lugar e que ficou com dó de jogar fora aqueles livros todos. Perguntei para dona Alberta se eu podia arrumá-los e ela achou ótimo. Eu arrumava, tirava o pó e ia lendo. Li quase todos: os três mosqueteiros, o príncipe e o mendigo, O chamado da floresta, Pimpinela escarlate, Mowgli, o menino lobo, Tarzan, o rei das selvas, As sete esposas de barba azul, As viagens de Gulliver, Lord Jim, As aventuras de Sherlock Holmes. Em pouco tempo não ouvia mais o rádio, só lia. Mas eu estou me adiantando, antes dos livros chegarem eu tive que agüentar uma braba do seu Francelino. O velhinho resolveu parar de fazer cocô. Dona Alberta veio perguntar e eu tive que dizer a verdade.

 “Então tem que usar o dedo, menininha”.

Pedi um par de luvas e ela respondeu: “pra quê luvas?” - e depois roeu uma unha.

Comprei as luvas escondido e quando meti o dedo ele fez um aiaiai estranho. Parecia estar gostando. Engraçado, isso me deu uma vontade danada de aprender. Não queria ficar o resto da minha vida metendo o dedo no seu Francelino, por isso, quando os livros chegaram me empolguei e comecei a ler com vontade. Quando levava ele para tomar sol eu lia contos e novelas: Maupassant, Gogol, Mark Twain, Henry James. À noite me entretia com os romances: o Homem Invisível, Scaramouche, a Montanha Mágica, Crime e Castigo, Moby Dick, Frankestein, Bel Ami, O homem da máscara de ferro, Papillon, O lobo da estepe. Quase não lia poesia, também pudera: não dá pra ler poesia enquanto se limpa a bunda do seu Francelino.

Dona Alberta não havia casado e não tinha filhos. Passava os dias bordando e eu às vezes desconfiava que ela desfazia o bordado de um dia só para ter o que fazer no dia seguinte. Com o tempo fui me apegando aos dois. Depois de seis meses eles eram como minha família. Dona Alberta me chamava de “minha menininha” e seu Francelino já conseguia dizer as primeiras sílabas de meu nome. Eu puxava seu cocô duas vezes por semana e, juro por Deus, estava ficando desconfiada que ele ficava sem fazer de propósito. Fui falar com dona Alberta e ela ficou fula da vida comigo, mas depois quis me agradar e disse que iria adquirir novos volumes para a biblioteca que eu estava organizando com os livros velhos de seu primo. Não demorou e chegaram vários: uma coleção de contos de Machado de Assis, algumas peças de Shakespeare e Tchecov e todos aqueles russos importantes, As aventuras de Tom Sawyer, Servidão humana, O Último dos Moicanos, A dama de espadas, O velho e o Mar, os sete pilares da sabedoria. Eu ia lendo um por um. Um dia o tal sobrinho do seu Francelino quis me conhecer. Queria saber quem era aquela empregadinha que leu Crime e Castigo. Dona Alberta me chamou e disse que seu primo me esperava na biblioteca da casa e que eu levasse uma xícara de café para ele. Eu estava vestida como sempre: com uma larga bermuda azul-claro e o avental branco, sem sutiã. O doutor Ivo era baixo, gordo, careca e fumava um charuto fedorento.

“Então você é a menininha literata? Sente aqui, perto de mim” - ele puxou uma cadeira pra bem junto do seu joelho gordo.

 “Ouvi dizer que você gostou de meus livros?”

“Sim, me foram de grande utilidade, doutor Ivo”.

“Qual deles você mais gostou?” - ele disse isso e passou a mão de leve em meus braços.

“Eu gostei de todos, doutor Ivo”.

“Eu posso trazer mais livros para você... Enciclopédias... Que tal uma máquina de escrever?”

 “Uma máquina de escrever seria legal”.

“Então eu irei trazê-la na minha próxima visita” - ele disse isso e eu fiquei olhando para a janela, pois a cara do doutor Ivo era repugnante. Ele passou então a apertar minhas coxas e foi subindo suas mãos até chegar bem perto de minha calcinha.

“Traga a máquina de escrever e nós conversamos, doutor Ivo” - eu disse isso e afastei os dedos dele do meio de minhas pernas.

Eu lia muito depressa e chegavam novos livros toda semana. Passei também a comprá-los: As reinações de Narizinho, O Menino do Engenho, Olhai os lírios do campo, Vidas secas, Capitães de areia. Li Grande sertão: veredas em uma semana. Quando eu terminei Guimarães Rosa, doutor Ivo chegou com a máquina de escrever. Logo aprendi a datilografar e já estava escrevendo, mas custei a me livrar do doutor Ivo. Depois que ele me trouxe a máquina passou a fazer visitas quase diárias e dona Alberta fazia questão de me deixar sozinha com ele na biblioteca. Ele pedia pra eu escolher um livro e ler em voz alta, então ele tirava as calças e pedia pra eu segurar. Eu segurava por pouco tempo. Doutor Ivo tinha problemas.

 Agora com a máquina de escrever além das leituras eu também escrevia. Decidi tornar-me uma escritora. Li: O vermelho e o negro, Grandes esperanças, A morte de Ivan Ilitch, Madame Bovary, Anna Karenina, os contos de Hemingway. Doutor Ivo parou de me incomodar. Acho que ele ficou constrangido por que eu mal terminava o primeiro parágrafo e ele já sujava o tapete.

 Decidi então que iria escrever diariamente. Ocupava minhas noites escrevendo depois de terminar meus afazeres. Dona Alberta, de início, estranhou, mas depois que ficou sabendo que eu pretendia ser escritora ficou entusiasmada e sempre me perguntava, a cada começo de mês, se eu precisava de algum livro. Eu não me fazia de rogada e sempre pedia algum. Comecei a me interessar por escritoras: Dinah Silveira de Queiroz, Júlia Lopes de Almeida, Ligia Fagundes Teles, Raquel de Queirós. Eu as idolatrava. Dona Alberta ficou feliz por eu estar lendo autoras brasileiras e em uma manhã de segunda-feira comprou um livro que lhe foi muito bem recomendado.

E eu então descobri Clarice. Tomava seu lugar quando lia seus contos e me imaginava ela. Toda vez que me sentia triste me olhava no espelho e dizia em voz alta: Clarice. Pudera eu escrever tudo aquilo que pensava e sentia nas minhas madrugadas. Eu queria apenas escrever como ela. Depois de conhecê-la o cocô e as manias de seu Francelino não me incomodavam mais. Eu o limpava e ia para a máquina de escrever.

Descobri que Clarice tinha sido internada após um acidente em sua casa – tinha dormido com um cigarro aceso na mão. Era minha chance. Iria procurá-la e oferecer meus serviços. Descobri onde ela morava – liguei para a redação do jornal onde ela colaborava e inventei uma história triste -, vesti um avental bem limpinho, coloquei algumas coisas que eu tinha escrito em uma pasta de couro que era de seu Francelino e bati na porta dela. Me Atendeu um rapaz:

“Quem é você?”

“Eu sou a nova enfermeira da dona Clarice”.

“Enfermeira? Ela não precisa de enfermeira” – o rapaz deveria estar brabo, pois fechou a porta na minha cara. Um estúpido! Bati na porta novamente.

“O que você quer, já disse que...

“O que foi meu filho, algum problema?”

Era Clarice. Eu a vi. Lá estava ela, na porta, com suas olheiras orientais e sua voz arrastada.

“Você é minha nova enfermeira?”

“Eu posso explicar dona Clarice, eu...

“Entre. Deixe ela entrar, meu filho.”

Entramos na sala e o rapaz sumiu dentro do apartamento. Clarice estava com um grande curativo em sua mão direita e parecia triste.

“Eu posso cuidar disso pra você” – apontei para sua mão machucada e ela a afastou como se quisesse proteger um filho.

“Não! Estou bem assim. Sente-se aqui, por favor” – e indicou seu sofá. Apontou para sua máquina de escrever que estava sobre a mesa de centro e pediu para eu acomodá-la em meu colo. Sentou-se na poltrona ao meu lado e acendeu um cigarro. Na máquina havia uma folha com algo escrito:

 

Meus pecados estão maduros. Querem se desfazer da vergonha e a mim pedem mais tempo do que posso lhes dar...

 

“Jogue isso fora, por favor.”

“Mas é muito bonito...

“Jogue fora. Você não quer trabalhar para mim? Então jogue isso no lixo que está ao seu lado.”

Ao lado do sofá havia um pequeno balde de bronze onde já se encontravam várias bolinhas de papel. Deu uma profunda tragada no seu cigarro e suspirou. Sua mão machucada repousava sobre seu colo. Seu olhar era parado e enrolava um pouco a língua pra falar.

“O que aconteceu com sua mão?”

“Foi um acidente. Os médicos queriam amputar, mas eu não deixei. Eu estava certa” - olhou pra sua mão toda orgulhosa.

“E você, o que faz aqui? É tão novinha. Não devia estar estudando?”

“Eu já terminei meus estudos e ...

“E quer ser escritora?”

Ela deve ter lido meus pensamentos. Era também uma bruxa.

“Você sabe datilografar?”

E começou a me ditar um texto. Fiquei enlouquecida. Não conseguia percutir as teclas na mesma velocidade que seu fluxo de pensamentos. Solicitei que fosse mais devagar.

“Não posso ir mais devagar. Você precisa me acompanhar. Escrever é lembrar-se e a lembrança para mim é como uma ferida em carne viva. Você me entende?”

“Sim, eu...”

“As coisas vão acontecendo e eu preciso pensar depressa para não ouvir o silêncio. Esse silêncio sem lembrança de palavras”.

Ela falava e eu datilografava da melhor maneira. Eu tinha alguma habilidade desenvolvida nas minhas madrugadas, mas acompanhá-la era impossível.

“Não está me acompanhando. Eu lamento muito, mas você não poderá ser minha enfermeira.”

“Mas eu consigo, só preciso praticar mais.”

“Não fique triste. Eu tenho um outro serviço para você.”

Entramos pela sua cozinha até a área de serviço. Ela apontou para o chão.

“Essas baratas não são minhas. Pertencem ao apartamento do térreo e escalam os canos do edifício até aqui. De dia, elas são invisíveis, mas a tardinha, aparecem”.

“Eu conheço uma forma de acabar com elas, dona Clarice”.

“Você tem uma receita?“.

“A senhora mistura, em partes iguais, açúcar, farinha e gesso. O açúcar e a farinha vão atraí-las e o gesso faz o resto”.

Elas endurecem de dentro para fora?”

“É, e ficam branquinhas...

“Como estátuas?”

Combinei com Clarice que retornaria no dia seguinte com o elixir. Dona Alberta reclamou da minha ausência, mas eu disse que estava na biblioteca pública e ela entendeu. Na verdade havia antes passado no mercado e comprado os itens da mistura. Não era comum eu fazer o jantar, mas naquela noite dona Alberta me solicitou com jeito. Para seu Francelino o mingau de maizena e para ela engrossei uma sopa de aspargos. Fui deitar mais cedo e só consegui pegar no sono às três da manhã, pois estava ansiosa com o encontro do dia seguinte. Ao acordar fiz minhas obrigações e deixei seu Francelino tomando sol ao lado de dona Alberta. Eles demonstravam muita calma e tive um pouco de pena deles.

Cheguei à casa de Clarice às 10 horas e quem me recebeu foi uma moça esguia e antipática. Disse que era amiga de Clarice e que ficou de me receber na ausência dela. Agradeceu meu interesse e conselhos e como prova de sua gratidão havia deixado um presente: um livro chamado Laços de família.

Fiquei estupefata. E minha ansiedade? Minha frustração? E tudo que eu havia feito para chegar até ali? Quis deixar meus escritos, mas a moça foi taxativa em na aceitá-los: “Clarice não fica com os manuscritos de ninguém”.

Restou-me o livro e a rua. Caminhei de volta para casa tonta e nauseada. Decidi que a partir daquele momento não continuaria a ser enfermeira. Não estava preparada para cuidar dos outros. Seria outra coisa na vida. Abri a porta da casa que, sem nenhuma surpresa para mim, era só silêncio. Arrumei meus pertences em uma sacola, mas antes busquei o armário de dona Alberta. Usei sua maquilagem, pintei minhas unhas e coloquei um batom rutilante. Encontrei algumas roupas de quando dona Alberta era mais magrinha e que me caíram muito bem. Olhei-me no espelho e o entusiasmo tomou conta de mim. Eu agora era uma rainha, mas não uma rainha delicada, passiva. Dessas que só pensam em beneficência. Ao contrário, sentia-me orgulhosa e sem nenhum pudor. Seria independente como nunca tinha sido. Livre. Antes de sair busquei a biblioteca para levar comigo alguns livros. Com o dedo indicador da mão esquerda e de olhos fechados escolhi três volumes e disse para mim mesma que eles seriam emblemáticos. Julguei que meus dedos eram guiados por alguma energia secreta. Os livros escolhidos foram: Os últimos dias de Pompéia, Fausto e Os Demônios. Limpei todos os cômodos e escrevi um bilhete de demissão onde declarava meus momentos privados com o doutor Ivo na biblioteca e o quanto ele era implicante com meus patrões. Bati a porta e pendurei nela uma placa: “Esta casa foi dedetizada”.

RICARDO SILVEIRA nasceu em Porto Alegre (1968), é médico com mestrado em Psiquiatria pela UFRGS. Participou das antologias 102 que contam (ed. Nova Prova) e 30 contos imperdíveis (ed. Mercado Aberto), ambas organizadas por Charles Kiefer