Ilustração: Kandinsky

Abatedouro 506

Claudio Eugenio Luz

Ontem, mais uma vez, Perseu chegou atrasado ao trabalho; para variar, amargou outro dia enterrado até o pescoço nos infindáveis números da contabilidade. Ora, a razão por que começara a chegar atrasado era que, antes quieto em seu canto, condizente com seu papel de ruminante, um cavalo alado cruzara seu caminho no metrô; desde então, toda manhã, de segunda a sábado, enquanto finge esperar alguém, desesperadamente, procura localizá-lo em meio à boiada disciplinada; quando o vê, o tempo pára, o mundo pára, e seu pobre coração de meia idade, inconformado, morrendo de ciúmes, não acredita que tal besta humana possa passar despercebido pelas câmeras da vigilância; oh, qualquer manhã vai cometer uma loucura; oh, sim, vai atravessar a plataforma e laçá-lo; vai cortar-lhe as asas; depois, descer-lhe o cacete, arrancar-lhe o couro e, por fim, abatê-lo. Como é possível, meu Deus, deixá-lo por aí, provando livremente desse dolce far niente?