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Ilustração: Kandinsky
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A biblioteca da Santa Clara
André Chermont de Lima
1
Reinaldo nunca soube o que provocou o quê: se a sua não-promoção
foi a gota d’água para que a mulher o abandonasse ou se a crise
conjugal, que já se arrastava há meses, causara a má vontade
decisiva do chefe. O fato é que, no dia em que viu desabar o
casamento e a carreira, Reinaldo deixou a biblioteca da Santa
Clara e foi ao bar.
Para celebrar aquele dia esquisito e as notícias fortes, tomou
dezesseis chopps no seu pé-sujo favorito e único, o Bar do
Aleixo. A sensação de perda fora substituída por outra, uma
espécie de confortável torpor que normalmente se segue ao
alívio. Quando se levantou, havia pago duas vezes a conta e por
isso ninguém o barrou quando decidiu carregar o cardápio, uma
folha impressa no computador, encapada em plástico gorduroso,
anunciando o suco de restos de sardinha em lata (chamado de
moqueca de peixe) e o chopp pela metade do preço na promoção de
boas-vindas ao fim-de-semana. Era sexta-feira, portanto: dia em
que a rapaziada da vizinhança se juntava aos aposentados de
grandes barrigas e chinelões de couro para apostar no futebol de
domingo e começar a longa bebedeira pré-noitada. O porre da
sexta comecava no Aleixo e, muitas horas mais tarde, ao
amanhecer de sábado, também terminava no Aleixo.
Reinaldo não tinha o hábito de misturar aperitivos com cerveja,
em especial ali. O cardápio roubado e sua cobertura de gordura
anunciavam todos os clássicos de botequim, o caldo de feijão no
copo de geléia, o torresmo frito, os ovos coloridos, os
sanduíches de pernil, as coxinhas com requeijão. Só que o Aleixo
não ressuscitava como o resto dos botecos, na onda dos pé-sujos
que de repente viram Mecas de cachaceiros: Reinaldo considerava
os aperitivos incomíveis; preferiria engolir o cardápio
plastificado. Os bêbados da alta madrugada, os garotos da rua e
os aposentados mais calejados os amavam, e os porteiros dos
prédios vizinhos levavam-nos embalados; faziam isso havia anos,
suas dores de barriga davam amnésia. Até as velhas moradoras da
Santa Clara, as ex-grã-finas dos anos 60, chamavam o pão de
forma com queijo prato de “pizza de pobre”, sorrindo cheias de
autopiedade entre uma mastigadela e outra. Reinaldo bebia a
cerveja desacompanhada, como fez naquele dia negro e sempre
fazia nos seus dias mais brancos. Era um bicho que enxerga em
preto e branco: para ele apenas a cerveja e a biblioteca ditavam
os tons de cinza entre as extremidades desconhecidas. Mas talvez
tenha sido aquela a primeira vez em que tomara dezesseis chopps
de uma vez. Embriagou-se, pagou duplamente o que devia, roubou o
cardápio plastificado e partiu para a livraria.
Antes, porém, uma última saudação aos que ficavam:
- Bando de canalhas!
Parecia que os olhos não agüentariam mais tanto sangue, de
vermelhos que estavam. Sua voz saiu macia, no entanto, macia
como a de quem não tem ódio. A rapaziada e os aposentados não o
ouviram talvez por isso: porque nessas horas os ouvidos são
escravos do olfato; quando não se cheira a raiva, finge-se de
morto. E isso também fez com que percebesse, no meio dos
desesseis chopps que lhe caíram puros no estômago e lhe subiram
a cabeça sem a intervenção dos aperitivos, no meio da embriaguez
pura e perfeita: não sofria. Pensou na mulher e pensou no chefe:
- Canalhas!
A palavra saiu com gosto de constatação, como um teste pessoal,
pouco amarga e pouco ácida. Estranho. Estava doido para ir à
livraria, e só. O resto era cinza; e doce.
2
Reinaldo esperava a promoção como manifestação de reconhecimento
de sua cultura geral. A Secretaria de Cadastros e Documentação
Civil da Prefeitura era um poleiro de pequenos funcionários de
nível escolar primário à espera de aposentadoria ou do salário
do fim do mês, que viam como garantia para os períodos de vacas
magras entre os biscates, estes sim sua verdadeira
especialidade: serviços domésticos de toda espécie, venda de
muamba de Foz do Iguaçu, intermediação de conhecimentos dentro
dos universos paralelos da administração pública, animais
silvestres, conhecidos-de-conhecidos que vendiam drogas ou
remédios contrabandeados, despachantes de toda ordem;
chefiavam-nos os intermediários hierárquicos, por sua vez
especializados na bajulação e em imaginativas formas de
apadrinhamento político. Vicentino, muito embora enquadrado na
categoria do meio, considerava-se protegido dos métodos viscosos
de auto-sobrevivência naquele inferno burocrático pela aura
invisível de uma sabedoria quieta, quase religiosa, algo
arrogante com todo o orgulho que destilava.
O chefe direto de Vicentino era o “Capodócio”. O termo que
tomara emprestado do Lima Barreto nas suas crônicas do Rio
antigo, edição da antiga da Mérito comprada num sebo havia já
anos e anos. Secretário João Jorge do Aragão, o “Capadócio”,
sinônimo de malandro, boêmio desqualificado, tomador de cachaça
com dinheiro dos outros, galanteador barato das secretárias,
amigo dos superiores e algoz dos subalternos. Perfeita cria
híbrida de Gogol e Lima Barreto, um crápula de almanaque.
Cláudia telefonou-lhe num meio de tarde decisivo de
quinta-feira, um daqueles dias em que se fechava licitação na
Secretaria de Obras e os cadastros e documentações de pessoas
físicas e jurídicas eram requisitados com volúpia anormal.
Ligavam do Gabinete do Prefeito, ligavam das empreiteiras,
ligavam da Consultoria Jurídica e do Tribunal de Contas; as
secretárias marcavam dias como esse nas agendas, em hidrocor
vermelho, e dividiam-se em dois grupos: o das que acordavam com
gripe e desculpavam-se fanhosas para o Supervisor de Programas;
e o das que chegavam cedo e reportavam-se direto para o
Secretário, emanando sexo e perfume pelos poros, cheias de falas
altas, dengos e afetações, porque “trabalho não as assustava”.
Era uma dessas tardes quando Cláudia ligou. Reinaldo, mergulhado
nos classificadores de cópias de identidades, xingou mas atendeu
a chamada transferida por uma das secretárias de Aragão, que
inadvertidamente apanhara a linha pensando tratar-se de uma
cobrança do Gabinete. Aragão perguntou quem era e, quando soube,
soltou por trás do fone:
- Por que é que a mulher desse merda fica ligando numa hora
dessas?
Reinaldo ouviu as mensagens em camadas superpostas, como um
homem sonhando que se vê acordado de repente: a secretária
transferindo a ligação num maquinal desinteresse (“atende sua
mulher?”), o Capadócio com seu juízo de valor (“a mulher desse
merda”) e Cláudia com outro juízo de valor (“qual é o problema
com essa mulher?”).
- Como? Que mulher?
(“a mulher desse merda”, “a sua mulher”, “essa mulher”?)
Depois de alguns segundos de suspensão, Vicentino mandou-a não
encher o saco e desligou. Era dia de fechamento de contrato, não
havia tempo para chatices, ele estava ainda por cima com
enxaqueca...
Cláudia, que há muito procurava desculpa para sair de uma vez da
sua casa cheia de livros e dores de cabeça, encontrou a
oportunidade perfeita. Mas gostava da comunicação. Era honesta o
suficiente para antecipar os seus atos mais íntimos, mais
unilaterais; e se desde sempre já tinha propensão para decisões
partilhadas, o circunspecto Reinaldo só lhe dera motivos para
diferenciar-se dele e desenvolver a virtude além do razoável. Os
círculos do inferno entre marido e mulher parecem-se com a
formação da personalidade de irmãos gêmeos: seja para chamar a
atenção de terceiros ou para realçar as próprias virtudes diante
do que vêem de mais podre no outro, o capítulo final é o
desprezo mútuo e a morte da sociedade.
Vicentino bem que se esforçou para chegar a uma conclusão sobre
como proceder com o chefe, mas preferiu a reação desmedida e foi
mostrar que estava ali presente e à disposição, tal qual o
funcionário público de Gogol:
- Dr. Aragão, se precisar de qualquer coisa...
Na verdade pensava em quantos volumes do russo ele tinha em
casa. “Almas Mortas” era um...
- Já sei, Reinaldo, obrigado.
Os contos estavam espalhados em antologias, coleções...
- Reinaldo, você atende a sua mulher?
- Já atendi... e já desliguei.
- Mas é ela de novo. Você atende?
Tinha a peça, “O Inspetor Geral”, num volume grosso de teatro
russo...
- Reinaldo, vá atender sua mulher.
- Com sua licença então, Dr. Aragão. Mas estou às ordens, viu?
O telefonema decretou a morte da sociedade e o coma da carreira.
No dia seguinte, Cláudia deixou o apartamento cheio de livros
rumo à casa da mãe, a dois quarteirões de distância. Reinaldo
abriu a porta para ela, sem ajudá-la com a mudança das malas de
trapos (o porteiro a acompanhara até a nova casa por alguns
trocados, pagos pela mulher), vestiu-se e partiu para a
Prefeitura. O Secretário o chamara de “merda” no dia anterior e
permaneceu coerente com sua avaliação: protelou-lhe a promoção a
Superintendente de Setor: “se precisar de salário adiantado,
posso falar com o Departamento do Pessoal; mas a
Superintendência permanece vaga”.
Reinaldo celebrou a volta à vida de solteiro com dezesseis
chopps e atos de terrorismo na livraria.
3
A única virtude da livraria Fernandes, além do fato de ser uma
livraria, era a proximidade de casa. Vicentino levava
semanalmente alguns volumes para o apartamento, comprados com
sacrifício financeiro mas amor descontrolado. Os vícios do lugar
eram muitos, em compensação: a demora de semanas ou meses até
que os exemplares comprados por Vicentino fossem substituídos,
quando o eram; a pinta amorfa de farmácia ou papelaria; e a
prioridade clara dada pelos vendedores às donas-de-casa e aos
alunos de primeira série, consumidores de cadernos com capas de
artistas de novela, livros de receita, disquetes de computador,
agendas decoradas de corações e receituários de ensinamentos
esotéricos; e os vendedores em si, semianalfabetos,
pobres-coitados acomodados com seus salários de fome, tão
estranhos a Machado de Assis quanto Machado de Assis a eles.
A gênese do Terrorista Reinaldo deu-se em dois dias: no sábado
em que chegou a primeira leva de material de escritório e na
terça-feira, semanas depois, em que a prateleira de “Autores
estrangeiros – Ficção” fora afastada para o fundo e substituída
pela “Auto-Ajuda” sem nacionalidade. Paulo Coelho ao lado de
PhDs criados em granjas, com todas aquelas siglas e as
universidades e empresas onde reciclavam seus cursos. No sábado
ainda mantivera a sua conduta impassível de funcionário público
gogoliano. Na terça de semanas depois, porém, apanhou uma leva
de seis ou sete “Coelhos” e os repusera na seção de guias
turísticos, com a imensa indiscrição auxiliada pela indiferença
com que os vendedores o toleravam.
Depois pensou: a troca de lugar fora uma bela obra de seu
inconsciente. Os Coelhos têm tudo a ver com turismo! Pois um não
se passa no Caminho de Compostela, o outro no Saara e o terceiro
na margem do Rio Pedra? O Rio Pedra, se não existe, deveria ser
criado junto a um quiosque de suvenires, para atrair os
peregrinos especializados nas ambientações do Paulo. Turismo,
ora. Neoturismo. O velho Fernandes, se ainda vivesse, teria
gostado da idéia. Seus filhos certamente não.
Na quarta-feira voltou e comprou um exemplar de “Brazil”, de
John Updike, cuja crítica o etiquetara como uma reunião bem
feitinha de clichês simpáticos, pouco afeitos ao realismo do
outro Coelho – o Coelho verdadeiro.
Cantarolou “Run, Rabbit, Run”, apanhou um segundo volume e o
meteu debaixo da pilha de “História das Sociedades – 2o Grau”.
Na quinta-feira, dia do fechamento das licitações na Secretaria
de Obras, Vicentino desfez seu casamento e viu a carreira
esmigalhada em pequenas partículas de mediocridade à la russe,
como um strogonoff de suas festas de adolescente.
Na sexta chegou bêbado à Fernandes, às quinze para as nove da
noite, quinze minutos portanto antes da hora de fecharem;
cambaleou pelas pilhas de cadernos com capas de surfistas em
atividade no Havaí e estacou junto aos dicionários.
“O que vou fazer?”
A pergunta, claro, não continha traços interiores ou exteriores
de desespero existencial. Dirigia-se, singela, à atividade
terrorista do dia.
Catou um Michaelis de espanhol-português e português-espanhol,
dirigiu-se à caixa e, no meio do caminho, novamente parou.
Precisava de alguma obra em castelhano para justificar a
aquisição.
- Vocês têm algum livro em castelhano? – gritou, como que se
investido numa função inquisitorial. A resposta, dependendo de
qual fosse, os condenaria.
O vendedor mais próximo já o conhecia. Era um jovem cheio de
pequenas espinhas nas bochechas e cabelo cortado à máquina em
volta das orelhas, que tomava Reinaldo por um professor de
segundo grau pelo aspecto conservador-vagabundo das roupas e
pela rispidez com que consultava sobre livros e autores
estranhos, como se estivesse sempre aplicando provas orais nos
outros em seu tempo livre.
- Vou verificar, senhor. Só um minuto.
Reinaldo exalava odores de botequim e andava em círculos pela
livraria deserta (era sexta-feira à noite), desorientado pelas
pilhas de artigos profanos, pelas caixas de programas de
computador. Não sabia do que precisava, se de livros em espanhol
ou de mais cerveja. Cláudia aparecia no seu pequeno delírio com
roupas bonitinhas de colegial, como aquelas que vestiam as
freqüentadoras da Fernandes durante as manhãs: sapatinhos de
verniz preto, meias brancas, saiotes, peitinhos salientes. Ele
pensou na cama para dormir. Talvez a associação fosse meio
distorcida, uma associação ao revés: pensava na mulher, nos
tempos em que lhe inspirava desejos, porque no fundo queria
mesmo era ir para a cama.
O rapaz de cabelo de asa-delta demorava a responder. Uma
consulta tão simples, uma consulta de boçal. Quem era mais
boçal? O consultante ou o consultado?
Vicentino riu e sentiu o assolo do vômito, subindo como se a sua
alma quisesse dar uma volta.
Atingido de novo por uma sagacidade inteiramente sóbria, molhou
o máximo que pôde à sua volta. Teriam dez minutos para limpar os
despojos de guerra, as cinzas e cadáveres de seu ataque
terrorista, se quisessem sair às nove horas. Ele já ganhara a
sexta-feira. E, para eles, a coisa nem estava assim tão feia:
consistência líquida, pouca comida, quase que apenas cerveja
pura, livre de saudades de mulheres ou de tesão por colegiais.
4
O apartamento na Santa Clara era o único bem de Reinaldo. Fruto
da obra de uma vida inteira de funcionário público honesto,
embora não tão capaz, e herança de um verdadeiro gogoliano na
periferia do mundo. Ótima combinação, já que perdedores combinam
com fins de mundo. Neruda falara nos confins, e ele colecionava
coisas do Neruda desde sempre. A última aquisição estava ali
perto da porta, nas fronteiras do apartamento com o corredor
comunal: um volume amarelinho d’Os Versos do Capitão, bilíngüe.
Taí: ele chamaria aquele recanto de “Chile”, um pedacinho de
território ainda livre, de onde cresciam novidades como
cogumelos. Tinha uns dois metros quadrados e estava junto à
porta de entrada. Era a primeira coisa que um visitante veria,
se houvesse visitante. O Chile, pronto. Só não era comprido, era
quadrado; mas estava ali, perto da fronteira, no fim do mundo.
Espaço vazio, em franco crescimento. Em breve estaria tão
densamente povoado de livros como todo o resto do apartamento.
Bêbado, Reinaldo tratou de buscar o seu Fausto do Goethe, cuja
segunda parte lhe lembrava também o fim do mundo. O diabo ali,
envolvido em tremendos torneios com aquele herói supremo, de
quem Reinaldo juntava também a bibliografia. Tropeçou várias
vezes, quis vomitar de novo, não entendeu como conseguia se
perder ou perder alguma coisa naquele pedaço de nada. Bem, se o
Chile é só uma centésima parte do apartamento, mais países
poderiam surgir noutras partes; quando achou o Fausto – um dos
volumes do Fausto – e o exilou no fim do mundo, nomeou o espaço
vazio que deixara na estante de “Mongólia”.
- Tenho que comprar o livro do Bernardo Coelho – disse, antes de
se limpar na pia e comemorar a falta de tristeza na cama vazia.
Leonardo da Vinci, Sodiler, Livraria da Travessa, Unilivros
(ainda existia a Unilivros?), Saraiva, Argumento. O que
continuava a atrair Reinaldo para a Fernandes? Talvez as
colegiais, as donas-de-casa e os atendentes e seus penteados de
funkeiros lhe dessem uma certa sensação de prepotência, uma
prepotência inocente e ao mesmo tempo terapêutica. Reinaldo
alternava seu complexo de superioridade diante dos iletrados com
um vivo sentimento de pequenez quando entrava na repartição ou
tinha de enfrentar a mulher. Não que seus colegas de trabalho,
incluído o Secretário Capadócio, tivessem lido algo além de
Turma da Mônica; não que a Cláudia o beijasse na boca a cada
livro que trazia à noitinha para suas estantes. Mas a aura de
autoridade que lhe conferia a biblioteca fazia efeito em rostos
anônimos, nos consumidores de porcarias, nos ignorantes e
arrasta-pés, nos zumbis de papelaria.
Tinha vontade de ler Chico Buarque. Mas não era Bernardo Coelho?
Compre-se ambos... Enriqueçamos os herdeiros do velho Fernandes.
A papelaria, na manhã do sábado seguinte, fedia a vômito e aos
subprodutos de um dia de chuva em Copacabana: cocô de cachorro,
lama das construções, águas pluviais, a maresia que parecia
liquefazer-se sobre as calçadas pastosas. Duas turistas de
biquíni entraram atrás de um cartão postal; estavam a caminho da
praia, apesar do tempo. Era verão: o cheiro da rua e o calor
misturavam-se com a chuva numa espécie de sonho ruim, numa
incongruência total. Garotas a caminho da praia no meio do
cinzento e do asco. Garotas de Ipanema ao revés.
Lá estavam todos os empregados: o rapazote de espinhas e seu
horrível penteado, a morena pernóstica da caixa, um ou outro
sem-rosto que também o julgava algum professor sádico de
escolinha. O rapaz tinha claramente algum problema com Reinaldo
e a acidez e o fedor do episódio da véspera só catalizaram as
coisas. Olhava-o com ódio e despeito. Ignorava a existência de
Bernardo Coelho e indicou, sem olhar-lhe nos olhos, a loja de
discos do outro lado da rua para o Chico Buarque.
Quando Reinaldo catou “Budapeste” em “Autores Brasileiros –
Ficção” e o levou à caixa, fez de tudo para localizar o seu
vendedor preferido; mas ele havia sumido nos fundos.
5
À exceção dos dois países recém-fundados, a biblioteca do décimo
andar no velho prédio da Rua Santa Clara não era organizada com
muito método; Vicentino amontoava livros na eterna penumbra do
apartamento, sem respeitar a divisão de cômodos. Cláudia, muito
antes de o largar, já se acostumara às pilhas de volumes debaixo
da cama, dentro das cômodas e dos armários embutidos, no velho
banheiro de hóspedes, que havia muito recebera o seu último
hóspede; Reinaldo usava os corredores e a sala, usava a cozinha,
a área de serviço e, depois de uma briga com a mulher, tentava
enganá-la levando livros para a repartição. Como, porém, dividia
a sala com outro colega, acabava se aproveitando das suas
compras quase diárias para levar de volta os manuais exilados,
disfarçados dentro dos pacotes como namoradas escondidas,
pequenos adultérios que ele depositava pelos cantos da casa
esperando que a mulher nunca descobrisse.
A sala de estar, no entanto, era o seu ambiente favorito em casa
e o destino de grande parte dos livros. As estantes percorriam
as quatro paredes cheias de mofo (o apartamento era de fundos e
nunca recebia o sol), só interrompidas pela janela e pelas
portas. Eram estantes empenadas com o peso de milhares de obras
na vertical e de centenas na horizontal, obras compradas
posteriormente ou retiradas para consultas e nunca devolvidas
aos seus vazios de origem, que por sua vez eram preenchidos por
exemplares soltos ou recém-adquiridos. Reinaldo conhecia seu
acervo mas não sua disposição movediça. Isso seria impossível:
ele consultava e misturava trechos das estantes diariamente,
enquanto Cláudia se empenhava em catar peças jogadas no chão
para colocá-las onde pelo menos não tropeçassem nelas. Foi assim
que se desconjuntou sua célebre (para ele) coleção de Dom
Quixotes: quinze exemplares, cada um numa língua diferente, do
alemão ao russo, coroados pela edição portuguesa do século XIX
autografada por D. Pedro II, um presente do bisavô a seu pai.
Tudo perdido pelos cento e poucos metros quadrados do
apartamento da Santa Clara.
Um dia Reinaldo, ainda louco de fúria pelo desaparecimento do
seu Cervantes precioso, levantou-se no meio da madrugada. Suas
insônias eram históricas, avassaladoras; eram insônias de várias
noites seguidas, alternadas por desmaios rápidos e sonhos cheios
de cenas de perseguição, calores insuportáveis, cotoveladas da
mulher, pavores de perdas materiais, livros pegando fogo.
Cláudia resmungou:
- Vai pra sala, caramba...
Reinaldo obedeceu. Acendeu a luz muito fraca da sala e decidiu,
aleatoriamente, catar uma amostra na estante para ocupar seu
tempo reorganizando-a. Tudo ali era caótico, tudo merecia ser
rearrumado e repensado: como uma espécie de divindade capaz de
apontar identidades no meio de uma multidão, como o
bibliotecário lendário de Borges, ele conhecia cada livro que
via. O mundo de volumes comparava-se a uma massa humana com seus
rostos únicos e suas cabeças de cores e formatos diferentes, sem
fazer qualquer sentido em conjunto; as cabeças pareciam gritar
por ajuda, clamar por unidade, por um deus que lhes desse
caráter e não fosse apenas capaz de apontá-los. Reinaldo,
rindo-se da metáfora, pensou quase em voz alta que as multidões
deveriam elegê-lo deus, pois ele era um deus que não matava. Ele
apenas separava.
Dois Kafkas juntos: um em português, outro em alemão. Era um
microcosmo organizado, aquele. Dois volumes aparentados, entre
um dicionário de bolso português-inglês e um “Tratado da
História das Religiões”, de Eliade.
- Tratados e dicionários merecem estar juntos – matutou – e
Kafkas merecem a companhia de outros Kafkas.
Mas cadê o resto? Vicentino conhecia os outros parentes,
exemplares de bolso meio despedaçados da Metamorfose, edições de
jornaleiro combinadas com antologias de contos e fábulas,
traduções e comentários de Modesto Carone, várias editoras,
reedições de reedições. Kafka em alemão devia ser interessante.
Quem sabe um dia, quando ele, já eleito deus, pudesse parar o
tempo e ir comparando a versão em português com o original,
medindo as palavras e as frases como um detetive. Melhor que
penar anos e anos no Instituto Goethe, sem dúvida!
Com os Kafkas na mão, lembrou-se das traduções de Herbert Caro.
Caro, o grande tradutor amigo de Otto Maria Carpeaux (onde estão
os ensaios reunidos de Carpeaux? O volume existente, perdido na
sua casa, e o volume ainda para existir, perdido numa pasta de
projetos pendentes da editora?), que trabalhara duro para
traduzir alguns de seus livros mais pesados, os grandes
Empenadores de Estantes: A Montanha Mágica, Doutor Fausto,
Buddenbrooks, Auto-de-Fé... Esses eram até fáceis de localizar,
mas a essa altura o sono já chegava.
Reinaldo voltou para a cama e usou os dois Kafkas como anteparo
para a cabeça, apenas enquanto não pensava num novo espaço para
a dupla. Cláudia acordou cedo e pensou em divórcio. Levar livros
para a cama passava dos limites.
6
A manhã de sábado fora a manhã das grandes estepes e das
literaturas menores: Bernardo Coelho, uma das novíssimas
revelações da ficção brasileira, e sua obra dedicada à Mongólia,
entravam no lugar do Fausto e “Kafka – por uma Literatura
Menor”, da dupla Deleuze e Guattari, emergiu do mar de livros
que cobria o carpete velho como uma espécie de anunciação: ela
clamava por Dom Quixote.
A associação entre Deleuze/Guattari e Cervantes veio à cabeça de
Reinaldo como um pensamento desconexo, uma irracionalidade
inconsistente que custou a tomar corpo. Reinaldo amontoou mais
alguns compêndios em pilhas, no meio da sala, afastou para um
canto a mesa de centro – um dos últimos móveis “decorativos” a
ocuparem o espaço sagrado dos livros na sala de estar – e
começou a mastigar a antiga referência literária. Mastigava-a
como se fosse um chiclete: seus dentes ralaram um no outro até
doerem, como costumava acontecer à noite, quando acordava de
repente com as mandíbulas exaustas.
Era fim de manhã e parara de chover. Melhor para as turistas de
biquíni. O sol entrava medroso pelas frestas das cortinas velhas
e o botequim já devia estar aberto. A associação meio vaga
precisava de uma cervejinha para virar idéia. Ele também se deu
conta de que estava sozinho e precisava comentar algo sobre a
decisão de Cláudia. Seria possível? Cláudia era chata, mas
compartilhara com ele alguma coisa longa e, até certo ponto de
suas vidas, importante.
Pegou o telefone. Atendeu a sogra.
- Bom dia, Dona Norma. A Cláudia está?
- Está, Vicentino. Mas duvido que ela queira falar com você.
Espera um momento.
A espera foi curta como a resposta. Cláudia não queria saber
dele, pelo menos tão cedo. Mandaria pelo porteiro, ou pela mãe,
ou pelas amigas, notícias sobre algum pertence que tivesse
esquecido na pressa e sobre o momento certo de aparar as
arestas, de conversar civilizadamente. Agora não dava. Justo
ela, com sua mania de comunicar-se. Devia estar furiosa.
- Pois bem, então. Eu estou aqui, vocês sabem onde me encontrar.
- Até mais ver, Vicentino. Eu sinto muito que as coisas tenham
chegado a esse ponto.
- Até mais, Dona Norma.
- Um abraço.
- Hã, Dona Norma...
- Sim?
- Sempre considerei a senhora uma pessoa preparada, de boa
educação, consciente...
- E essa agora...?
- É verdade, uma pessoa de ótimo nível cultural. Sábia e de bom
senso. Isso me influenciou bastante na minha decisão de casar
com a Cláudia, sabe? Mas acho que já lhe disse isso alguma vez.
- Sim, quando estava bêbado. Vamos acelerar essa conversa, sim,
Vicentino?
- A senhora, que é muito lúcida, uma pessoa de bagagem...
- Vicentino, já lhe disse que a Cláudia não volta atrás. Não
agora.
- Não é isso, Dona Norma. A senhora nunca leu o Dom Quixote?
- Quando eu era adolescente, há uns cem anos atrás.
- Dom Quixote é um libelo contra a má literatura, a senhora já
pensou nisso?
- Hã?
- É isso mesmo. O Quixote é um relato trágico sobre a influência
terrível que livros ordinários exercem sobre pessoas comuns,
pessoas com força de vontade mas pouco brilho. Ao mesmo tempo, é
uma premonição dos tempos modernos. O Cervantes é um mago.
Silêncio. Vicentino pensava ouvir duas respirações do outro
lado, como se Dona Norma e Cláudia se acotovelassem para
assistir a um show.
- Paulo Coelho é uma criação de Cervantes!
O aparelho foi bruscamente desligado. Vicentino calçou os
chinelos e caminhou para o bar.
Lá repetiu a associação, que virava idéia. Para o garçom, chamou
aquilo de “sacação”: o homem já ia dando meia-volta quando
parou, escutou de costas e voltou. Sua concentração durou menos
de dez segundos; embora na mesma posição, os olhos começaram a
divagar e os pés a sacudir em um desespero muito contido.
- Pois então: o Quixote fez o que fez motivado pelos livros de
cavalaria, que eram livros vagabundos, eram equivalentes às
aventuras enlatadas de hoje. De certa forma, influenciaram
Quixote como as auto-ajudas...
O garçom pigarreou e girou a cabeça em direção à mesa vizinha,
cujos ocupantes, dois porteiros de folga, prestavam atenção e
trocavam sorrisos.
- Sei lá, eu digo isso mas preciso reler o homem. Eu li Dom
Quixote há tanto tempo... Acho que há mais tempo que a Dona
Norma, mais de cem anos...
Olhou para a sujeira da noite anterior, acumulada no chão do
bar: cacos de vidro, copos de plástico, restos de comida e
cerveja seca. Não eram restos de festa, apenas restos de uma
noite comum, dos bêbados de sempre. Tragou seu segundo chope.
Hoje não seriam dezesseis. Ele tinha o que fazer, tinha que
atender às novas associações, às idéias e à ânsia de comprar.
Dito o que tinha de ser dito sobre o Quixote, era hora de criar
novos países para fazer companhia ao Chile e à Mongólia. Os
porteiros sorriam, junto com o garçom.
7
O centro do gabinete, tal qual o coração de uma cebola, era mais
denso e mais branco. As conversas orbitavam em torno do
aniversariante, ligeiramente contrariado, as rugas nas bochechas
dos sorrisos forçados e as mãos nos bolsos escondendo os
cacoetes de ansiedade. Os anéis ao redor, ocupados pelos
funcionários mais altos e pelos prestigiados de ocasião (as
secretárias siliconadas e os puxa-sacos masculinos), cuspiam
assuntos renovados a cada segundo, piadas catadas na Internet,
elogios em voz alta, sussuros de admiração. Tudo numa homofonia
perfeita, como que ensaiada, contraposta ao caos dos zumbidos
nos círculos exteriores.
Na roda de conversas paralelas, próximas à casca da cebola,
imperava o “aí ela disse”: eram os coadjuvantes, os subalternos
e os anjos caídos. Ousavam transitar pelo centro apenas com uma
desculpa, a de cumprimentar o Capadócio; em seguida, voltavam
com pressa, os olhos no chão, para o território livre das
boatarias e esculhambações mútuas.
A Coca-Cola girava pela periferia em copos de plástico. Batatas
fritas nos pratinhos de papelão, amendoins, brigadeiros. O
núcleo esperava com paciência a hora da debandada para saborear
o uísque. Os contínuos atropelavam colegas de hierarquia
intermediária, os telefones do secretariado alternavam-se sem
resposta, despercebidos por todos a não ser pelo chefe, que
enfiava as mãos cada vez mais no fundo nos bolsos.
Reinaldo conhecia as liturgias da repartição e sabia a
quantidade de vezes que lhe era permitido trafegar entre os
círculos da cebola; foi uma vez para os parabéns, voltou para
explicar ao Secretário um trâmite qualquer. Duas ou três viagens
ao centro eram até bem-vistas, para mostrar presença, fidelidade
e estado de alerta ao que acontecia no plano das decisões.
Quatro ou mais viagens, em compensação, significava paparicar e
exigia desenvoltura: tal freqüência só se tolerava entre os
profissionais do assédio, sobretudo as mulheres para quem já se
havia dado algum tipo de entrada. Reinaldo, que não era mulher
nem circulava à vontade entre os puxa-sacos da Secretaria,
esperava.
- E aí ela disse...
Uma velha datilógrafa relatava o aborto da filha de uma vizinha,
aborto que acabara mal, com hemorragia, a menina no hospital e
processo aberto na delegacia. A primeira e última leva de quibes
desaparecia pelo interior da concentração; alguém metia os
salgados dentro da bolsa e saía, rindo com meia boca desdentada.
Reinaldo recapitulava sua coleção de traduções d’O Idiota: Paulo
Bezerra, Pevear e Volokhonsky, Garnett, o francês Mousset...
Bezerra era o brasileiro do momento, festejado pela crítica,
aqueles lumiares que nos tiram do atraso medieval das traduções
intermediárias vindas do francês e do inglês.
A hora dos presentes era o início do fim da festa: o momento em
que os quibes desaparecem mais rápido e os contínuos aparecem
com os copos de vidro vazios, à espera do sinal que destrancava
do armário o uísque da tertúlia. Nova movimentação entre os
círculos: os mais humildes revezavam-se no beija-mão, penetravam
ordeiros, saíam sorridentes; a turma do meio tirava os
presentinhos das mangas e dos bolsos como mágicos de festa de
criança. Seus olhos brilhavam e a impaciência crescia. Passavam
pela galeria de olhares dos maiorais e de seus protegidos,
olhares meio curiosos fingindo desdém, sorrisos de
condescendência com o mau gosto de certos agrados. Reinaldo
deixou a datilógrafa passar na frente, para que ela finalmente
interrompesse o caso sem fim do aborto da vizinha. Em vez de
terminar, a mulher continuou a contar, olhando para trás e
esbarrando nos donos dos círculos interiores. Era uma das únicas
que pareciam estar ali priorizando a sua própria história:
abordou o Secretário comentando a hemorragia interna da menina
(“Aí ela disse – parabéns, hein?”)
e deu a meia-volta descrevendo a clínica clandestina com
detalhes de quem estava lá. Com um suspiro trágico, o
homenageado tirou a mão do bolso para apertar a da velha e
franziu a testa, impaciente. Os cumprimentos guardavam um
paradoxo quase que atávico, o grande mistério da hierarquia nas
relações humanas: o enfado e o prazer que a subserviência
provoca.
Reinaldo, que trazia o seu pacote nas costas como se continuasse
a esconder livros da mulher, anunciou os votos com muita
discrição e mostrou o presente, cheio de expectativas de que o
Capadócio o abrisse imediatamente. Não o fez. Reinaldo então
esperou. Sua cara era de súplica. Estava disposto a duelar com o
homem, ficar ali parado até a hora em que as faxineiras do turno
da noite os expulsassem com as vassouras. O Secretário soltou o
seu burocrático “Muito obrigado, Reinaldo” e esperou que o
razoável acontecesse: seu subordinado desaparecer nos anéis
exteriores e ele poder despachar o pacote (que era até meio
pesado, parecia ser um livro grosso) aos cuidados da secretária.
Só que o funcionário ficou: os olhos de cachorrinho fixavam-se
ora no pacote, ora no semblante do chefe, cada vez mais marcado
por uma fina impaciência. O subalterno sabia no que pensava o
Capadócio: “e agora? Dispenso esse cretino na frente de todo
mundo ou abro o presente?”
O duelo durou pouco – nada dos constrangimentos ou dos silêncios
que às vezes parecem custar uma eternidade. O tempo foi apenas
suficiente para que o Secretário avaliasse os limites de seu
poder e a conveniência de perder aquela disputa-relâmpago. Ele
não havia aberto quase nenhum presente; sob a guarda de uma
cachorra fiel, estavam todos ali empilhados, um monumento
erguido em homenagem ao seu micropoder: coisas embaladas, claro,
dão a impressão de maior respeito. Mas vá lá, Reinaldo era um
pobre-diabo: um tipo exótico desses, abandonado há coisa de dias
pela mulher, preterido na promoção. Diziam que era escritor
frustrado, que era bicha...
- Vamos ver o que é... Será uma bola de futebol?
Todos riram ao redor. Reinaldo sentiu alguma coisa que não
saberia descrever, ainda que fosse um escritor frustrado, ou
mesmo um escritor de sucesso: alívio sem dúvida, mas algo mais.
Os risos transmitiam humilhação e carregavam uma mensagem
qualquer de mal-estar, como se o seu oponente, um faixa-preta de
caratê ou um peso-pesado, se permitisse levar um tapa no meio da
luta para mostrar a sua superioridade – com ou sem o golpe de
misericórdia que depois o partiria em dois pedaços. Talvez
tivesse sido mais recomendável recuar, dar meia-volta como a
velha do aborto, beijar-lhe a mão e deixar que seu pacote
aumentasse a pilha, fosse dado de lembrança ao sabujo que a
guardava ou confundido com o de outro puxa-saco.
- Não se preocupe, Secretário, depois o senhor...
- Imagine, Reinaldo, imagine.
“Não era pra ser assim”, pensou. O Capadócio, sem os óculos de
leitura, aproximou o pacote entreaberto do rosto e levantou a
testa.
- “O Idiota”?
O segundo silêncio durou ainda menos que o primeiro, mas ganhou
em peso. Foi o tempo para a recomposição do chefe e o comentário
de alguém:
- Ah, esse é um grande livro!
- Tomara que eu não me identifique com o personagem principal!
Novos risos para quebrar de vez o constrangimento. O chefe
apertou a mão de Reinaldo e agradeceu, relaxado. Sua tez estava
vermelha, as rugas desenhavam uma mensagem sutil: acabou-se o
enfado, começou a raiva fria. “Você vai ver”, diziam as fendas
da testa, as covas ao lado da boca, os olhos espremidos, sem
óculos e sem cor. Nos círculos mais externos, os contínuos
afoitos já começavam a catar as migalhas e os copos de plástico.
8
Há silêncios que duram o tempo de pronunciar a palavra “Idiota”;
outros, os de certas mulheres, levam dois meses e poucos dias,
como se obedecessem aos compassos gigantescos de uma dança sem
tempo e sem espaço. Cláudia acreditava numa vida com esse
andamento:
- Eu quero o divórcio.
Reinaldo aproveitara aquela mínima unidade de tempo de sua
ex-esposa, a medida de vida à la Montanha Mágica, para
transformar o apartamento da Santa Clara na maior biblioteca
particular de Copacabana. Sua cabeça trabalhava com metas
maiores; ele pensava no Rio inteiro, no Brasil. Poderia ter
pensado em Babel. Queria desafiar grandes intelectuais, copiar
histórias de jornalistas que compravam apartamentos inteiros
para acomodar suas coleções, superar ricaços e suas bibliotecas
virgens, compradas a granel. Para isso existiam os sebos e as
casas de penhor.
- Não tenho condições de pagar pensão. Ganho uma miséria e durmo
no corredor...
- Você pode dormir até na cozinha, Reinaldo. Com o que você
ganha no Estado...
- Você não entendeu, mulher.
Cada prateleira trazida pelo marceneiro, numa freqüência de duas
a três por semana (“vai me trazendo aos poucos, para dar tempo
de completar. Não quero estantes vazias nem livros sem estante
nesta casa!”), era preenchida com obras aleatórias de grande
densidade artística e reconhecimento almanáquico: depois de
Cláudia o abandonar e o Capadócio pedir sua transferência para a
Secretaria de Cultura, onde acabara de ser encarregado de
fiscalizar as obras de duas bibliotecas, em zonas-limite da
presença do Estado de Direito, na Baixada Fluminense, Reinaldo
se convencera da necessidade de deixar um legado. A biblioteca
seria sua obra-prima, o seu manuscrito precioso, o livro
imaterial de um “escritor frustrado”, coisa que o Rio nunca
veria igual. Um monumento histórico nascido de um funcionário
público vexaminoso num apartamento decadente. Que bonita
homenagem ao Kafka...
Entrar pela porta da frente já era dar de cara com o “Chile” e
sua coleção de exemplares, em espanhol e em português, de
Neruda, Reinaldo Huidobro, Gabriela Mistral. Relatos de façanhas
antárticas e latino-americanos perdidos, sem pátria delimitada
naquela sala, também davam sopa sobre o carpete naquelas
fronteiras: Vargas Llosa, o peruano auto-exilado, e seus
best-sellers sobre ditadores e profetas místicos; Júlio
Cortazar, García Marquez, alguns velhos Borges encapados em
couro, um deles roubado de um sebo ao ar livre em Buenos Aires e
o outro, um volume perdido das obras completas editadas pela
Globo, na tradução de Carlos Nejar. Onde andava o resto?
Ocultos, talvez, entre um e outro exemplar ainda mais grosso de
outras séries de obras completas, suas meninas-dos-olhos da
Editora Nova Aguilar, verdinhas com seus vários poetas
brasileiros, com Fernando Pessoa, Tolstói e outros grandes. Ou
afogados nas marés de pocket books da Penguin e da Oxford,
verdadeiras orgias de livrinhos sem prateleiras, alguns deles
cobrindo o chão não há dois meses e poucos dias, mas anos
inteiros? Por dez reais cada um ele comprara Platão, Oscar
Wilde, Turgêniev, as duas Brontë, Conrad, Shakespeare, Byron.
Havia outros Shakespeares por ali, versões comentadas em inglês
e edições bilíngües em português: um Rei Lear ao lado de um seco
Graciliano Ramos, logo na nova prateleira, a mais nova de todas,
de uma madeira de verniz cintilante que talvez não merecesse um
livrinho tão desbotado e vagabundo quanto aquele “São Bernardo”
dos anos 60. Mas, posto no chão, talvez fosse devorado mais
depressa pela umidade e pela concorrência perversa dos colegas,
os livros mais novos, comprados em levas nas suas ricas edições
de capa dura como a última reimpressão de Auto-de-Fé do Canetti,
pela Cosac & Naify, bonita como uma bíblia de evangélico;
voltando ao Shakespeare, um Otelo e um Antônio e Cleópatra em
português e inglês, um Hamlet em alemão e inglês, um tomo de
obras completas, de autoridade impressionante, comprado por
menos de 20 dólares num Clube do Livro por correspondência;
todos eles na sala de estar, cujas portas, opostas à entrada da
frente, conduziam a mais depósitos de livros: à cozinha, com
seus quinze Balzacs enfileirados sobre a pia de mármore, que há
muito tempo já tinha expulsado os últimos saleiros; e ao
corredor, agora estreito e lúgubre como uma passagem secreta,
cercado dos dois lados pelas Enciclopédias de sua infância,
herdadas do pai, velhas Larousse quase vivas de tantas
lembranças. O corredor terminava em dois quartos: o primeiro, o
“escritório” de recém-casados, a origem de tudo e a testemunha
da falta de senso de Cláudia. Como ela poderia pensar que aquele
cubículo prenderia a sua opus magnum, a Divina Comédia que o
fazia perdoar todos os chatos e humilhações? O escritório, a
origem de tudo, era protegido das intervenções climáticas e
humanas: na época de Cláudia, a faxineira estava proibida de
entrar; no final da época de Cláudia, ela própria já preferia
não conhecer o que Reinaldo enfiava e tirava dali de dentro,
assim como não queria saber com quem ele falava quando nas
manhãs de domingo ou nas madrugadas de sábado ouvia sussurros e
declamações, como se uma prensa invisível cuspisse coisas vivas
de papel para colonizar o mundo, começando pela Rua Santa Clara.
O escritório ainda guardava textos e apostilas da faculdade;
depois, cada um desses maços de fotocópias dera origem às
próprias fontes: compêndios de antropologia social, volumes e
volumes de direito comparado, filosofia do direito, direito
processual, direito disso e daquilo abandonados atrás das
estantes mais novas desde que Vicentino passara a dar prioridade
à literatura. Queimá-los ou dá-los, nem pensar; então ficavam
ali, desamparados como se servissem de comida para os Becketts e
Ionescos que os embarreiravam.
Por último, o quarto de casal. Foi a última fortaleza a resistir
ao assédio dos livros. Resistira junto com a boa fase de
casados. Agora, sem Cláudia, quem entrava era o marceneiro:
pregava as prateleiras de madeira ao longo das paredes,
instruído a ignorar o detalhe da janela. “A vista dá mesmo pros
fundos do prédio, pra que eu vou querer vista?...”. A solução
era fincar fundo as buchas e os parafusos e providenciar
pranchas de madeira boa, que atravessassem as vidraças sem
empenar. Os únicos habitantes originais do quarto de casal eram
os livros de cabeceira, pequenos clássicos, mimos de suas vidas
passadas: a Novela de Sonho do Schnitzler, o Mundo de Acordo com
Garp, O Senhor das Moscas e o Apanhador no Campo de Centeio. Ele
nunca lera O Pequeno Príncipe por causa da vergonha das meninas
do colégio, que liam a mesma coisa, mas o exemplar estava ali,
escondido em algum lugar, a primeira das suas infinitas compras
“virgens”.
Agora as estantes em frente às janelas serviam para abrigar a
época da universidade, como se Reinaldo construísse uma
biblioteca-museu, separada por pedaços de memória: ali ele
depositava os dois períodos de faculdade, interrompidos pelo
casamento, pela necessidade de cuidar de Cláudia, pela indicação
na Prefeitura que conseguira graças à sogra. Dois semestres,
agora vistos com a distância de mais de vinte anos, que serviram
como pretexto para conhecer e comprar livros que ele não
conhecia: O Capital estava ali, resgatado do quarto ao lado, e
outras obras-primas ideológicas: Lukács, Adorno, Foucault,
Bourdieu, Gramsci, Paulo Freire, Chomsky, Bobbio. Nomes bonitos,
costados velhos de vinte anos, alguns tão virgens quanto o
Éxupery, outros rabiscados em vésperas de provas, formando um
plano quase que moralmente superior ao fundo das janelas e
prédios de Copacabana.
O quarto estava ficando bonito. Naqueles dias de anúncio de
divórcio e de transferência para a Secretaria de Cultura,
Reinaldo acompanhou o desarme da cama e a instalação de mais
duas estantes de pinho no quarto de dormir, uma em frente à
outra formando um corredor no meio, como numa biblioteca séria.
Os topos encostavam no teto e eram alcançados com a ajuda de uma
velha escada de ferro. Em menos de um dia, centenas de livros
jogados pelo chão em todos os cômodos da casa ganharam lugar
fixo: Gôngoras, Maughans, Stendhals, Sabinos. Contos do João
Gilberto Noll. Naipaul. Ibsen e mais Conrads. Em breve, pensava
ele ofegante, teria de começar o censo. Compraria um computador
aposentado de algum mercador de muamba na repartição e lançaria
os seus filhos nos arquivos, um por um, ordenados por iniciais,
por temas ou por autor. Das três formas ao mesmo tempo,
idealmente: O Idiota, uma obra-prima antes sem retoques, que ele
agora decidira dar de presente a todos os outros Capadócios de
sua vida, existia ali em tantas versões que ele poderia pensar
na classificação por tradutores. Aquilo era um universo.
Como na maioria dos prédios de Copacabana a mais de um
quarteirão de distância da praia, o andar de Reinaldo tinha
vários apartamentos. Eram três ocupados e um vazio. Cláudia
mantinha relações amistosas com os vizinhos, papos prolongados
no corredor com as outras donas-de-casa, cada uma em frente à
sua porta aberta. Eram senhoras de meia-idade precoce,
envelhecidas pelos filhos aos trinta e cinco, mas também uma
velha judia caricatural, de tão típica que era do bairro onde
morava. As conversas na área comum eram toleradas por Reinaldo
como uma daquelas coisas de mulher que não se pode combater.
Ele, que sempre fora arredio, mergulhava nos livros como um
catador de lixão e deixava Cláudia com seu passatempo. Agora,
não se sentia mais na obrigação de sequer cumprimentar os
vizinhos do andar. Aliás, nem do prédio, nem da rua, nem do bar.
Foi a judia quem primeiro percebeu alguma coisa de errado no
corredor: na noite alta, começara a ouvir tosses baixas em
curtos intervalos, um arrastar de tecidos e coisas macias, certo
entra-e-sai em surdina de um dos apartamentos, sussurros. A
viúva, neurótica dos três assaltos que já havia sofrido na Santa
Clara, todos à luz do dia, tinha os ouvidos preparados para o
pior e ressentia-se do fato de seu marido não ter cumprido com a
promessa do leito de morte de que sempre a protegeria lá de cima
de todos os males, grandes e pequenos. Talvez o homem não
tivesse ido para o céu e no inferno estava incomunicável, mas,
prática como era ela, pensava muito mais em dormir pouco e
reservar suas energias para pular da cama como uma gata,
diminuir o volume da televisão e avançar para o olho mágico
quando, pelo menos uma vez por dia, escutava qualquer
movimentação na área comum que não fosse uma normalíssima
entrada ou saída do elevador.
O que mais lhe chamou a atenção naquela noite foram os
sussurros. Colou a cabeça na porta; os ouvidos eram treinados
mas não milagrosos. Duas ou mais pessoas: namorico no corredor?
Impossível: as filhas do casal do 1003 eram crianças e o louco
do 1002, abandonado pela simpática Cláudia, só recebia visitas
de peões de obra.
Acionou o interfone, mandou o porteiro subir e abriu a porta
quando percebeu a conversa pacífica do lado de fora. Nada tinha
a temer: o vigia não gritava, falava com muita calma. Não se
tratava de bandidagem, portanto, embora fosse algo muito mais
extraordinário. Copacabana era mesmo uma coisa: era só o que
faltava um de seus vizinhos vivendo como um mendigo no corredor
do andar...
No dia seguinte, a velha judia ruminava certas memórias, a
maioria de gosto muito ruim, sem conseguir lembrar outra coisa
que a houvesse surpreendido mais nos últimos tempos: chegou a
sentir pena do homem, magrinho daquele jeito, recolhendo o
colchão e os lençóis e arrastando-os com o copo d’água de volta
ao apartamento, um antro repleto de livros do chão ao teto como
um velho sebo do centro da cidade, que ela viu de relance antes
de ele fechar a porta com delicadeza de crianca. Voltou para
casa sem dar explicações, sereno como os mendigos expulsos todos
os dias da praça pela guarda municipal, sussurrando coisas
incompreensíveis e nomes oraculares. Pelo que ela soubera,
Cláudia não havia voltado para casa. Portanto, não tinha ninguém
lá dentro que o pudesse expulsar. E segundo o porteiro, apareceu
na manhã do outro dia para comprar pão na padaria sem falar em
ratos, traças ou outras pestes usando a montanha de livros como
casa. O porteiro o vira subir com o pão, o jornal e um pacotinho
da livraria Fernandes, plácido como na véspera.
9
A caminho de mais uma noite de sono, Reinaldo tropeçou em alguma
coisa perto da porta de saída. Não tinha ilusoes, assim como
jamais deixaria fugir o juízo. A biblioteca estava semi-montada
e semi-jogada, era ainda um “antro”, como descrevera a judia
para os vizinhos do prédio. Como poderia ele perder a razão
diante de uma missão de tamanha responsabilidade? Ele devia algo
a Copacabana, ao Capadócio, a Cláudia. Tinha dívidas diferentes
com cada um deles, mas arredar da missão, isso sim, seria
enlouquecer. Olhou para os pés: injustiça com o livro chutado –
não por ter sido chutado, mas por não ter sido ouvido. Ou lido.
A razão massacrante o impedia de ler ou ouvir seus protegidos,
quando eles, chutados no umbral da porta, reclamavam assim:
Yo conozco distritos en que los jóvenes se prosternan ante
los libros y besan con barbarie las páginas pero no saben
descifrar una sola letra.
Só que os livros também não tinham qualquer direito sobre os
bibliotecários: estes eram donos da razão e eles, incompletos,
infiéis aos seus universos, podiam apenas reclamar seus direitos
sobre a casa e as prateleiras.
Restava o Bar do Aleixo. O único que exigiria tempo para
acostumar seria a moqueca de sardinha. Talvez com dezesseis
chopps, talvez com onze doses de cachaça ou cinco de bagaceira.
Vinicius e Faulkner faziam pior todos os dias. E às quatro horas
da manhã, quando os garçons expulsassem a rapaziada e os últimos
aposentados barrigudos, a marquise sobre os restos de festa.
Olho atento nos canalhas e nas patrulhinhas das noites de Copa,
que porém não molestariam um funcionário público na ativa. Tudo
sem enxaqueca: como pensar em dores de cabeça debaixo da
marquise? Deitado no seu quadrado de guardião, ele vigiaria a
janela do décimo andar até dormir; lá em cima, a velha judia
velaria colada no corredor. De ouvido contra a porta, ela também
adormeceria no chão, à espera dos sussurros que só viriam com o
sol da manhã. Junto com o pão, o jornal e o livro novo, que
poderia ser um Nabokov ou um Euclides da Cunha.
Santiago, dezembro de 2006
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