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Ilustração: Jackson Pollock
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Uma música para dois
Francisco Sobreira
Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os
primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos,
permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à
posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por
aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o
homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na
música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o
silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra até que a
música parasse. E eu que não prestara atenção naquela mulher,
que já começara a comer quando eu me sentara à mesa, fui, de
repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por
ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada
pelos primeiros acordes da música. E o meu olhar se deteve
naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos
óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos
sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela
maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes
preciso fazer uma revelação. Freqüentava diariamente aquele
centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos,
desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência
por força da minha profissão. Há uma explicação. Eu gostava
daquela música e todos os dias ela era tocada, pouco tempo
depois que me sentava à mesa reservada para mim. Por um mês,
talvez nem isso, solicitei-a ao pianista, mas decorrido esse
tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente diário do
restaurante, o pianista passou a executá-la com a dispensa do
meu pedido.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da
minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem
com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota,
ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos.
Os dois ouvimos aquela música no mesmo dia em que iniciamos o
namoro. Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir
Suplício de Uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar
aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos; mas naquela
tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre
William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira
namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às
lágrimas quando o filme terminou. Mas, talvez como uma lembrança
do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais
disposição para vê-lo, continuo a gostar de sua música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa,
trechos de Love is a many splendored thing , quando ficávamos
juntos num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos
encontrávamos: às vezes, assobiando-a. E depois cantando em
português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love Is A Many
Splendored Thing, ela permanecera calada, só falando para
responder a alguma pergunta do marido. Umas três ou quatro
perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa.
Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando
baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez,
ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o
olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois
o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de
mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao
vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se do garçom sobre o
banheiro e me lembrei da primeira vez que precisei usá-lo. Em
vez do usual “Homens” ou “Cavalheiros”, o banheiro masculino
daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval,
de um senhor de uma época antiga, vestido com um paletó e usando
um grosso bigode. Já no das mulheres há um retrato de uma
senhora também de outros tempos e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a
qualquer momento ela virasse o rosto para mim e , dessa vez, me
fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi
quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem
ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou
passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção
de todos que estavam ali por perto. Até que um garçom se dispôs
a apanhá-la, só o conseguindo depois de algum tempo. Os
movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que
fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas
pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, de
estalo lembrar o de alguma pessoa. Não me era estranho aquele
riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher
que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um
passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecera
aquele riso. Foi quando acreditei que ela se virasse para mim,
concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes
o fizeram. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo
enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música
começou a tocar. Mas a esperança (não dizem?) é a última que
morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora,
mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido
como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo
lado oposto ao que me encontrava. Ao se afastar, atrás do
marido, pude notar que era um pouco corcunda.

FRANCISCO SOBREIRA nasceu em Canindé (CE), e publicou: A
Morte Trágica de Alain Delon (1972), A Noite Mágica (1979), Não
Enterrarei os Meus Mortos (1980), Um Dia... os Mesmos Dias
(1983), O Tempo Está Dentro de Nós (1989), Palavras Manchadas de
Sangue )1991), Clarita (1993), Grandes Amizades (1995), Crônica
do Amor e do Ódio (1997), A Venda Retirada (1999), Infância do
Coração (2002).
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