Ilustração: Jackson Pollock

Tímpamen

Susan Blum Pessôa de Moura

Ela, uma garota de treze anos. Ele, um homem de trinta. Se encontraram por acaso na rodoviária de São Paulo. Ele, retornando de uma palestra que fez no Rio. Ela, vindo do interior de Minas para ficar na casa da ex-patroa de sua tia. Olhares trocados rapidamente, nem palavra sequer.

O acaso levou-a a ser vizinha dele. Passavam dias apenas se olhando. Ele, observando a virgindade dos gestos, a inocência da curva dos quadris, as orelhas pequenas bem feitas. Ela, admirando o olhar experiente, a fala inteligente de quando conversava com a patroa.

Um dia, aproveitando a saída da mulher, ele se aproximou do muro baixo e a chamou. Disse que havia necessidade de lhe dizer algo e pediu que ela lhe desse o ouvido. Ela, um pouco desconfiada, cedeu...

Ele, primeiro sussurrou seu nome e pequenos perdigotos umedeceram a concha, preparando-a.

Depois, sua voz, como vento aveludado, se insinuou nos labirintos de seus ouvidos, penetrando-a com as palavras eróticas nunca antes ouvidas...

Ela, extasiada com o prazer ouvido, entrou correndo na casa.
No dia seguinte ela acordou assustada: o filete de sangue ainda umedecia o travesseiro...

SUSAN BLUM PESSÔA DE MOURA é formada em Psicologia (PUC-Pr) e em Letras (UFPR). Aprofundou-se nos estudos literários com um mestrado sobre o espaço e o autor Julio Cortázar. Atualmente faz doutorado na Universidade de São Paulo (USP) em teoria literária e literatura comparada.
Traduziu alguns poemas de Apollinaire (podem ser vistos no site www.humanas.ufpr.br/departamentos/delem/nuttraducao) e um conto de Borges (jornal do CAL). Também produziu alguns poemas publicados no jornal do CAL da UFPR.
Participou de duas entrevistas recentes: no Caderno G da Gazeta do Povo em 5 de setembro de 2004 e da revista Ciência e Cultura out/dez 2004 que pode ser lida no site http://cienciaecultura.bvs.br; ambas sobre Cortázar. Possui outras publicações além de apresentações em congressos. É pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 2000. Ministra palestras e oficinas de literatura em vários locais como a Casa de Artes Helena Kolody e a Fundação Sidónio Muralha.
Tem um artigo e um conto na revista virtual cronópios: www.cronopios.com.br