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Os Gatos da Rua Morta Agnaldo Rodrigues da Silva Todas as noites eu acordava com o miado dos gatos. Nunca tive a coragem de me levantar e ir até a janela para verificar o que estava acontecendo, tudo mais parecia coisa de assombração do que simples animais felinos a desfilar debaixo do sobrado onde eu morava. O miado dos gatos tinha algo de misterioso, uma sofreguidão escondida que soava como um pedido de socorro, como pessoas desesperadas que gemem as dores da alma. Não eram todos os dias que os gatos soltavam seus miados, sempre que faziam era nas sextas feiras. Contudo, o mais curioso é que eu acordava com os miados. Algumas sextas-feiras eu não dormia, ficava à espreita, à espera dos murmúrios, porém, nada acontecia. Eles adivinhavam que tinha alguém à espera deles que podia descobrir o segredo que escondiam pelas noites escuras de nossa rua. Não nego que a situação metia-me medo, principalmente porque nunca gostei de gatos, sempre os achei falsos e imprevisíveis. Passava os dias já pensando nas noites, como seria enfrentar mais uma vez o assombro dos miados dos gatos da rua morta. Morta rua. Ninguém por lá passava, nem sequer animais. Mas, os gatos São animais! De fato. Cheguei a pensar que fossem as almas dos gatos que por ali passavam nas noites frias, no entanto essa foi uma das mais ridículas idéias que tive ao longo da vida. Gatos, gatos, gatos da rua morta... Apareçam! Gritei da janela. Era fim de tarde e o crepúsculo estava lindo, há muito tempo eu não via o pôr do sol, por isso lembrei de minha infância, dos meus irmãos e dos meus pais. Não nego que também me lembrei do Teleco. Ele era o meu cachorrinho, meu melhor amigo, esteve comigo por quase dois anos e depois teve um fim muito misterioso. Eu e Teleco estávamos no quintal brincando, corríamos, pois ambos éramos levados. Apareceu um gato e Teleco correu atrás dele, entraram no bananal. Fui atrás e chamei por ele diversas vezes, mas nunca mais voltou. Sumiu o Teleco. Acho que o gato devorou-o e depois fugiu. Maldito gato. Agora ele voltou para me buscar. Não, não, eu não vou deixar esse gato pegar-me. Quem sabe eu poderei encontrar o Teleco caso deixasse esse gato preto pegar-me, esta foi uma idéia de gênio. Não era apenas um gato que me atormentava noite afora, eram diversos miados de gatos diferentes. Malditos gatos, gatos da rua morta. Joguei um casaco no lombo e fui até a loja de fantasias, comprei uma de padre, cheguei no apartamento e a vesti, depois peguei um copo de água benta e rezei três vezes o Credo. Mas, eu não sei rezar. A água benta era da torneira. Quanto ao credo, inventei as palavras, não interessa só sei que rezei. Tirei a fantasia, embebi com álcool e aticei fogo. Fiquei despido esperando os gatos. Eles não apareciam. Apareçam gatos! Malditos gatos. Gatos da rua morta. Tomei uma dose de água. Água benta não, foi de água destilada. Cochilei e peguei no sono. Lentamente fui despertando com os miados, miados leves, sonoros, assombrosos. Levantei e corajosamente corri até a janela. Lá estavam eles, os gatos. Eram milhares de gatos pretos peludos que andavam contornando o sobrado e eu os via pela janela dos fundos que dava acesso somente àquela rua morta. Tentei ver Teleco no meio dos gatos, não o vi. Bateram na porta. Abri. Era o negro gato. Pulou encima do meu corpo, depois entrou outro gato, e outro e outro, eram muitos a invadir o meu espaço. Lamberam todo o meu corpo como fazem com a carniça, depois saíram como se nada tivesse acontecido. Daí para frente os miados cessaram e nem mesmo os gatos pretos vinham mais quebrar a monotonia de minha solidão. Apareçam gatos! Malditos gatos. Os gatos da rua morta. Gatos mortos. Rua morta. Morreram todos. AGNALDO RODRIGUES DA SILVA é professor na Universidade do Estado de Mato Grosso. Crítico, ensaísta e contista, Agnaldo tem como principais publicações: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de Literatura Comparada - org. (2003) e A Penumbra - Contos de introspecção (2004). Participou de diversas antologias de contos brasileiros e portugueses, entre os quais: Brainstorm (2005), Terra Latina – Antologia internacional (2005) e Cantos do Mundo – Antologia internacional (2006). Preside o Conselho Editorial da Unemat Editora, coordena a editoração da Revista Ecos (Língua e Literatura), do Instituto de Linguagem e integra o Conselho Temático Consultivo do Caderno Científico Fênix, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação - UNEMAT. Agnaldo é natural de Cáceres, Mato Grosso, e tem se dedicado aos estudos literários e teatrais nos últimos anos.
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