|

Ilustração: Jackson Pollock
|

|
Olga, pessoa real
Omar Azevedo
Olga fora criada para ser a boa moça, talhada desde pequena,
pela mãe e pela tia solteirona, para ser o orgulho da família.
E conseguira. A duras penas, mas...de que vale um gosto se
trouxer na bagagem tanto desgosto? – onde era mesmo que tinha
lido isso?...Ou foi alguém que lhe disse?... Talvez tenha
escutado em algum filme, na televisão.
( E essa hora que não passa, menina! )
Casara-se com o primeiro namorado. “Primeiro e único homem de
sua vida”, costumava dizer sua mãe às amigas (ou inimigas)
sempre que tinha chance, para realçar as virtudes de sua família
ou para achincalhar a família de outrem.
Não tivera filhos. Pelo menos, ainda não. E já não tinha mais
tantas esperanças de tê-los. E sabia, no fundo, que a culpa nem
era sua.
( Que tarde chata, hém?...Nem mosca entra nessa loja hoje...)
Romualdo sempre se recusando a fazer os exames, dizendo que não
tem problema nenhum com ele, já tinha até filho com outra. Ou
outras. E fazendo questão de jogar isso na cara dela, como que
para fazê-la desistir de vez de insistir nessa história de
médico. Médico pra quê? Filho pra quê?...
- Boa tarde, moça, eu...
O rapaz alto e magro, de cara boa e calças muito largas, com
boné de aba para trás, tirou-a de suas divagações familiares.
- Bo-boa tarde, pois não? Posso ajudá-lo?
- Eu queria ver aquele tênis ali, número 44.
- Um instante, sim, que eu vou pegar...
( Até que enfim alguém vai comprar alguma coisa. Não tinha
vendido nada o dia todo. Um marasmo, como a vida...)
O moço provou o calçado, meio sem jeito como quem não quer dar
trabalho, perguntou quanto era, se tinha desconto e começou a
puxar conversa. E olhava – a com uma tal intensidade, que a
fazia se sentir viva. Perguntou se ela trabalhava há muito
tempo, se sempre fora balconista, se gostava do que fazia, se
estava feliz de fazer aquilo. Disse que fazia faculdade de
Cinema. Tinha tentado Direito, que o pai queria, mas não
conseguiu se ajustar. Enveredou pelos caminhos das artes visuais
e agora estava trabalhando num projeto sobre tipos humanos
comuns, pessoas reais, extraídas das páginas da vida cotidiana,
real, de gente como a gente. E dizia-lhe essas coisas com tal
entusiasmo, falando com os olhos, a voz e os gestos tão
empolgados, que nem parecia o rapaz sem jeito de momentos antes,
gaguejando para pedir desconto...
Corta!
O resto da tarde, ficou pensando no moço bonito e gentil, que
lhe falara todas aquelas coisas de cinema, produzir um curta com
pessoas-tipo ( Não entendeu direito que diabo é isso, mas ele
falava tão bem, tão empolgado. E tão educado. “ – É senhora ou
senhorita?... Nossa!, senhora? Nem parece. Tão jovem, tão
viçosa...A senhora então casou muito jovem...”
Casara. Com o primeiro namorado. O único homem da sua vida. Até
agora, até ali...”...até um dia, até quem sabe, até talvez...” –
não tinha certeza da música, mas tinha certeza do que sentira
enquanto conversava com o Diogo – esse o nome do jovem cineasta.
Sentira-se bem, sentira-se viva, sentira-se importante para
alguém, que achava que ela merecia mais, cheio de intenções
boas, de fazê-la entender aquelas coisas complicadas que ele
falava. E ele falava de várias coisas ao mesmo tempo. E
misturava os assuntos. Mas tão educado. E tão bonito. E
cineasta...
Corta!
- Um curta?! Claro que eu sei o que é um curta, sua tonta. É um
filme pequeno. Diferente de um longa, que é um filme grande.
Quem é que não sabe?!...
Há tempos o Romualdo não conversava assim com ela. Há muito só
se comunicavam por monossílabos, ou às vezes nem isso, apenas os
mesmos gestos mecânicos de todos os dias, sem legenda, como
dizia o Diogo. Tão gentil. Sempre passando por frente à loja,
apressado, acenando... Dia desses parou para dizer como ia o
projeto lá dele, das pessoas reais. E perguntou se poderia
filmá-la trabalhando, mesmo que de longe. Não queria
incomodar...
Conversou com a bruxa da patroa, que logo se escalou e já
despejou uma avalanche de sandices e bobagens em cima do Diogo,
contando vantagens e falando, falando, falando. Coitada, uma
louca mal amada, casada com um banana e metida a comer sardinha
a arrotar caviar, como se diz por aí. E a contar as idéias lá da
cabeça dela, sem pé nem cabeça... até parece que ela própria
acredita nas besteiras que fala. E como fala...
Comentou com o marido, em casa, sobre a fita que o moço queria
fazer com ela, trabalho da faculdade. E ele, é claro, nem lhe
prestou muita atenção, entretido com a página esportiva do
jornal e o programa de televisão que mostra acidentes e outras
desgraceiras reais.
Pessoas reais – era esse o nome do documentário do Diogo. Ele
veio convidá-la para ir ver a estréia, lá na faculdade. Iam
passar todos os trabalhos...Disse que não poderia ir sozinha, só
se o marido fosse junto e ele tinha jogo de futebol para ver na
televisão. Que time? Ah, qualquer um. Aquele paga para não tirar
o traseiro gordo de cima do sofá.
- É uma pena, vai ser muito legal... E ela queria tanto ver como
ficou. Queria se ver no cinema. Nunca fora filmada.
Resolveu ir. Tentou convencer o marido a ir junto. Disse que iam
passar o filme em que ela é a loja apareciam. E ele, que naquele
dia estava mais mal humorado que de costume, porque o seu time
estava na lanterna do campeonato, resolveu implicar e não
deixar. E começou a falar alto, a gritar com ela (Tão
desagradável, os vizinhos ouvindo...). E ela insistiu e disse
que queria muito ver e ele disse “ – Vai, sua puta, vai atrás do
teu outro macho...”, e ela recebeu aquilo como um tapa. Não!
como um coice.
Já não ouvia mais as coisas que ele falava, gesticulando
agitado.
Transtornada, a cabeça girando, enquanto as mãos, mecanicamente,
cortavam a carne em pedacinhos, para o jantar. Sempre achara
aquela faca grande demais pra se usar na cozinha, mas agora, de
repente, como que num estalo de idéia, entendeu por que
precisava ser tão grande...
Quando a polícia chegou, encontrou-a sentada a um canto da
cozinha, faca na mão, olhar perdido no vazio, repetindo que só
queria ver como ficou a fita...

OMAR AZEVEDO é natural de Santos,
SP, residente e domiciliado em Navegantes, SC, professor
(estadual) de Língua e Literatura, com pós graduação afim.
|