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O morador do jardim Alan Santiago Criado como filho. Mitigou. O orvalho caindo no seu chapeuzinho verde era um prato de sopa. Tinha que saborear a nova sesta, o chão úmido da loucura deles. Heras cresciam até para fora da casa, tal serpente de duas cabeças; a pintura descascava, enquanto o vento batia, mesmo fraco; o resto do sol incinerava a louça – era de louça. A mãe grampeava as duas metades da saia. Saracoteava para o vidro, seu reflexo, com o pregueado igualmente sacolejante da peça azul marinho. Catava flores e se enfurecia quando não as conseguia equilibrar no encontro da orelha com a cabeça. Nunca as equilibrava. O pai passava o dia inteiro na rua, trabalhando. O pequeno cria que muitas das horas gastas no escritório escuro, empoeirado e mal-cheiroso eram aproveitadas, na verdade, com a amante, uma morena ostensivamente desejável da qual ele ouvira apenas a voz no telefone, um único dia, mas pôde ter a descrição perfeita de seu perfil. Seu caráter, inversamente proporcional ao tamanho de seus dotes. E sem cérebro também. O pai traía a esposa, sua mãe, de quem ele não tinha a menor piedade. Talvez ela merecesse sofrer por acreditar que todas as azaléias do jardim eram pretas ou que o lustre, no teto, estava de cabeça para baixo. Era uma criança, do mesmo tamanho de hoje, mas ainda inocente; ouviu dela, quando o pai, após tê-lo encontrado devidamente empacotado num caixote de madeira comida de cupim, trouxe-o para casa: - É pequeno. - Uma criança. - Não gostei dele. Não merecia o pedestal de mármore. Depois de terem-lhe renegado aquele objeto até então desconhecido, abriu a porta do quarto de entulhos, no quintal, espirrou uma vez e conteve o seguinte na lapela do coletinho marrom. Viu, a uma aresta, uma coluna jônica, velha, mas que intencionava, um dia, voltar a brilhar como antes. Apaixonou-se perdidamente pelos minerais granulares, discretos, dispersos sem orientação pela peça cujo topo parecia inalcançável. Escalou a interminável estante afim de pegar um livro sobre mármore que estava na prateleira mais alta. Para tanto, teve de pisar, por força das circunstâncias, na cabeça do Jung, apoiou a mão na lombada de um Graciliano até chegar ao lado de um Drummond e pegar sua pedra, pesadíssima. Desceu devagar e lá embaixo abriu o livro, curioso. A mãe o encontrou de olhos apertados dentro de tantas páginas. Fez questão expressa de colocá-lo de castigo. Aos filhos não se deve educar demais o espírito: foi o que o pai disse com o dedo em riste ainda na sala pouco após se ter dado aquele diálogo primevo. A mãe pediu clemência. Chorou. Pôs a mão do homem na sua genitália como prova de todo o amor entre os dois. E o pequeno via, tranqüilo. Não achou normal. Nem estranho. Acabaram ficando com ele, desde que espanado dali em diante – é bem verdade. E do orvalho veio o chuvisco. Do chuvisco o temporal, e depois mais temporal. E os relâmpagos cegaram ainda por um bom tempo, os trovões denunciavam a proximidade do raio. Percebia o quanto a casa degradou-se desde quando ele surgira naquele ambiente. A grama estava alta, o telhado sem cor quebrado em diversos pontos, os grilos pareciam dominantes, borboletas grandes e enegrecidas pelo fumaceiro das fábricas rondavam a casa, olhos enormes, as antenas na cabeça farejavam o pior, as patas articuladas grudadas às paredes manchadas de sangue das regras da mãe. Era quando ela desgrampeava a saia e aparava com a palma da mão em concha. Atirava os restos de seu interior à parede e pedia para que o marido lambesse. Não lambia, fazia expressão de veemente desaprovação e rumava para o quarto: preparando-se para consumi-la antes do lusco-fusco. Ela detestava transições, e ele compreendia. Agora, o filho estava muito mais consciente de si. Queria continuar lá, mesmo torturado. Nas últimas semanas, a mãe comia lentamente na sua frente. Não abdicaria de nenhuma gota do sumo do feijão para o pequeno que agonizava sob os seus pés. Divertia-se usando-o de tapete. Os olhos na comida já fria, o estômago seco, que ela alimentava com as azaléias pretas; tudo era dela, morreriam de fome os outros. E que o primeiro fosse o marido. A mãe puxou, furiosa, o filho pela mão. Foram os dois até a cozinha. Estava temivelmente revoltada. Sentia uma decepção pungente, suficiente para estraçalhar a mão do pequeno com um rolo de macarrão. O sangue explodiu sobre ela, de sua própria mão. Lembrou o dia em que rezava na sacristia da igreja, a missa fervilhando de pagãos de terço e Bíblia. Tocou o sangue que lhe escorreu. Não era milagre, era pecado. Coitada, foi abusada, moça tão decente. Pegou-lhe na mão que ainda restava e conduziu-o até o jardim, seu lugar. Enfiou aqueles pés minúsculos na terra gelada. O prenúncio de água grossa no céu. Um vento rápido agitou as sanguessugas que começavam a escorregar pelos dedos unidos. O vento fraco arrancou uma nesga da tinta amarela que, nos tempos áureos, alegrava a fachada da imponente casa. O filho pensou: saudade da esperança no pedestal de mármore. Nunca. Mas ainda é cedo. De dentro veio o som de Lupicínio. E ele completou que ninguém poderia ser errado na vida ouvindo as músicas daquele sujeito. Se, ainda o quisessem de volta, não desejaria ser de louça outra vez. Optaria, antes, pelo lirismo difícil e pungente dos loucos. Saboreou a chuva como um prato de sopa. Faminto. A mãe e o pai deitavam-se para dormir, apagavam o abajur, tendo antes vestido seus pijamas brancos.
Alan Santiago Norões Queiroz (ALAN SANTIAGO) nasceu em Fortaleza, Ceará, no ano de 1988. Estudante de Comunicação Social da UFC, publica seus contos no site Play it Once, Sam. Teve texto publicado no jornal O Povo e um conto na revista de contos Bagatelas. É também autor de roteiros cinematográficos e peças de teatro – todos ainda inéditos.
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