Ilustração: Jackson Pollock

O mergulho

Para P.

Susana Vernieri

- Vem que dá pé! Vem. Na beirada.

Eu não sabia nadar e o medo de me afogar me afastava de qualquer espelho d´água. Quanto mais do mar. Os verões, para mim, eram mais quentes do que marcavam os termômetros analisados pelos especialistas em previsões do tempo.

Ana me convidava a pelo menos molhar os pés. Eu resistia me sentindo como uma rocha incandescente sob sol a pino. A areia da praia me queimava. A linha do horizonte, o infinito, me assustavam. As profundezas da água também não me pertenciam. Estava ali por Ana que gostava de ondas. Apreciava o movimento e o som incessantes. O frescor do oceano. Mas eu não era dali.

Ana era uma realidade sacra que se havia interposto em meu caminho. Porém, assim como ao mar eu a temia. Seu sorriso com a vida colocava em cheque os meus rigores. Ana enfrentava o desconhecido e saía dele limpa. Eu não. Duro, petrificado, de relógio em punho, conferia minuto a minuto a série de ondas que quebravam na praia. Não que eu fosse enfrentá-las, mas era só para ver se eu conseguia marcar as batidas do ritmo do mar. Eu era temeroso, mas tinha a vã idéia de controlar o mundo que me rodeava.

- Alberto, pelo menos chega mais perto para ver o surfista.

Quem era aquele artista do mar que me humilhava com suas mirabolantes piruetas? Assombroso era a palavra correta. Ele cavalgava a água como andava na vida. Não me era espelho. Seu relógio para contar o espaço das ondas era interno. Ele era o verdadeiro Príncipe Namor. Eu era pedra vulcânica num dia de 40 graus fincado em terra firme. Eu não sabia nadar. Não havia bóia para me fazer flutuar. Meu peso vinha de séculos de asfalto e cimento.

A praia e seus guarda-sóis coloridos.

A praia e seus banhistas de final de semana.

A praia e as crianças barulhentas.
Eu, a praia e Ana. O sol, a areia.

A pedra.

Ávida pelo desconhecido, Ana resolve explorar minhas entranhas. Vai em busca de meu medo.

- De onde vem este pânico?

- Vem do fundo das minhas águas. Um dia, uma onda me levou. Quando de lá consegui voltar, jurei nunca mais arriscar minha alma em espécie alguma de afogamento.

- Eu já morri afogada em lágrimas uma vez. Conheço o doce e o sal. Agora vem comigo, vem. O sol está torrando.

- Espera. É por tu teres morrido que não temes mais o infinito da imensidão azul?

- Se vieres comigo te revelo um segredo.

Titubeante aceito a oferta da mão de Ana e me ponho a caminhar a seu lado em direção à espuma praieira. Meus pés tocam a água fria. Estanco. Nossos olhos se encontram e a mulher me aguarda enquanto respiro o último ar antes de entrar mar adentro.

Ana me guia num mergulho mágico em que não sinto o peso das mil toneladas que carregava fora d´água. De repente viro peixe, sou mais que Príncipe Namor, sou Rei Submarino de minha própria história em quadrinhos. E chega a hora da revelação. Há um tesouro escondido no fundo do mar. Uma pedra raríssima que Ana sabe onde se encontra. Uma pérola preciosa, uma jóia moldada pela vida. Colhemos o presente e voltamos à superfície.

A praia nos espera com seu sol menos doloroso. Estamos limpos e carregando uma pedra preciosa na mão.



SUSANA VERNIERI nasceu no dia 23 de outubro de 1965 em Porto Alegre. É formada em Direito pela PUCRS e em Jornalismo pela UFRGS. Trabalhou dez anos na redação de Zero Hora. É mestre e doutora em Literatura Brasileira pela UFRGS com trabalhos sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto. É autora do ensaio O Capibaribe de João Cabral de Melo Neto em O Rio e O Cão Sem Plumas: Duas Águas?, da novela O Caminho de Telêmaco e do livro de poesias Memorabilia. Atualmente faz pós-doutorado em Letras na PUCRS.