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Ilustração: Jackson Pollock
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O homen de areia
Samir Machado de Machado
Acordou com o sol batendo em seu rosto. Desorientado, não tinha
a mais vaga idéia de onde estava ou como fora parar ali. Sentia
a areia do deserto em suas mãos, grudada nos cabelos e
impregnando suas roupas. Quando se levantou, não soube dizer se
estava enfraquecido pela sede ou se ficara mais pesado do que de
costume, mas foi com muito esforço que conseguiu fixar-se sobre
as duas pernas e observar, à sua frente, as dunas repetirem-se
monótonas até o horizonte.
Erguer o braço até a altura do rosto foi outro enorme esforço
para ele. Mas só assim percebeu que, onde antes havia minúsculas
estrias de pele humana, agora havia pequenas ondulações. Tocou a
própria face e sentiu-a áspera como pedra, o próprio toque
provocava uma fricção. Quando o vento ficou mais forte, os grãos
começaram a se desprenderem da ponta dos dedos, desenhando
filetes de areia no ar. Nesse momento, sua visão se expandiu,
estando onde cada grão de areia de seu corpo estivesse. Em
segundos, o vento desfez sua mão e ele não sentiu nada.
Apenas sede.
Embora não houvesse dor, mantinha a sensibilidade de cada parte
de seu corpo, mas agora esta noção de si próprio se alargava.
Cada grão levado pelo vento era sua extensão, ele via o que cada
grão via, e sentia-se cada vez maior. Infelizmente, manter os
pensamentos em foco era uma dificuldade crescente. Viu no
horizonte alguém se aproximando. Tentou gritar por ajuda, mas a
voz não saiu.
O vento ficou mais forte, e já sem os braços para manter o
equilíbrio, foi derrubado para trás. Seu corpo caiu e se
desmanchou. Pouco a pouco, o que restava de suas feições e sua
forma foram sendo desfeitos e se misturando ao deserto. Sua
visão tornou-se tão ampla que via cada canto do deserto, sua
percepção cresceu até tornar-se o próprio deserto.
Mas ainda tinha sede.
Contudo, o local onde seu corpo caíra ainda concentrava a maior
parte de sua consciência e de seus grãos, que nunca se
misturavam totalmente à areia do deserto, pois possuíam uma
densidade maior, eram mais macios. Ali, ele esperava, sedento.
Podia sentir quando um viajante se aproximava, sentia pisarem
sobre seus grãos. O viajante viu atiradas ao chão as roupas que
um dia cobriram o corpo de alguém, e correu até elas. Sem ter
consciência de outra presença, caminhou para próximo do centro,
e ali afundou. O Homem de Areia o abraçou e o puxou para baixo,
e quanto mais a presa se movia, mais afundava, sendo aos poucos
soterrada, a areia entrando por seus olhos, ouvidos e boca, o
envolvendo e o devorando, arrancando dos ossos a carne e da
carne o sangue, pois o corpo humano é água, e ali alguém tinha
sede. Que, por um tempo, foi saciada. Mas logo voltaria.
Então era preciso esperar.
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