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Não toca? Mauro Paz Já são onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa com o celular ligado e nada. Pensou que pudesse ser um problema no telefone. Pegou o telefone residencial e fez um teste. O celular chamou se problema algum. É estanho que, durante um dia todo, ninguém ligue. Vejam bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito da manhã, até agora, onze e cinqüenta da noite, são quinze horas e cinqüenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema. Em um momento como esse, começa a se perguntar: Tenho sido um bom amigo, um bom filho, um bom namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinqüenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho e fica pensando: o que esse povo todo fez de tão interessante, o durante o dia, que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava? Onze e cinqüenta e cinco o telefone toca.
- Alô. - Alô. Tu faz sexo anal? - Como? - É, por traz. Tipo cachorro. - Com quem o senhor gostaria de falar? - Com Marcelo Vinte Centímetros. - Meu senhor aqui não tem nenhum Marcelo. - Mas não precisa ser o Marcelo. Quantos centímetros tu tem? Não faz sexo anal? - Meu senhor, você ligou para o número errado, aqui só moro eu e não trabalho com essas coisas. - Bem, me desculpe, então. Mas você não sabe de alguém que possa me ajudar? - Não, meu senhor, não sei. Boa noite. Passar bem.
Onze e cinqüenta e oito e o único telefonema foi de um velho querendo sexo anal. Tem dias na vida em que somente coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo, acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido. Na última esperança de que alguém ligue fica olhando para o celular. Meia-noite, já quinta–feira, não se agüenta e liga.
- Alô. Carla? - Sim. Boa noite. - Eu queria saber se tu faz sexo anal?
MAURO PAZ é estudante de letras da UFRGS estagia na Coordenação do Livro e Literatura, da SMC, organizando os Concursos Poemas no Ônibus e Histórias de Trabalho.
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