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Habanera
Elaine Pauvolid
Carlos sonhava com uma dona muito bonita que habitava o sobrado em frente ao edifício dele. Apreciava-a pela manhã, quando ela cantava a habanera enquanto molhava os hibiscos. O contraste entre a sacada e o rubro das flores acentuavam ainda mais a silhueta clara, os cabelos muito negros, os braços alvos e fofos. O homem desejava roçar o rosto naquelas carnes, afundar a alma no colo da viúva.
Supunha viúva a dita. Talvez solteira, mas, homem nenhum se via dentro daquela casa. Vez por outra adentrava uma amiga, saía logo, o tempo de um café. Dividia o sobrado com uma outra muito magrinha e bem mais velha, de uniforme.
O nosso amigo do apartamento tinha uma mulher vivinha, que lhe meteria a mão, soubesse destes desvarios. Sexagenário, aposentado de um banco já falido, era mais um resto do que um homem inteiro, pensou de si muitas vezes. Se Amância desconfiasse de qualquer olhar de esguelha para algo feminino vinha-lhe com humilhações, palavras terríveis que ela parecia guardar para o momento específico do açoite. Carlos calava. Para que argumentar, para que resistir? Nunca houve motivos reais para ciúme algum. Mas, desde que viu a senhora do sobrado da frente pela primeira vez, seu sangue tem fervido como nas épocas de meninote. Há seis meses moravam no apartamento. Há três meses fitava Carmen. Se o nome era este, ele não sabia. Era assim que a ela se referia de si para si.
Ficaria eternamente a fitar Carmen? Deixaria a mulher da vida dele passar assim, cantando somente, sem nem tomar conta de que ele existia? Não, isso não poderia ser! Resolveu numa quinta-feira, comprar flores e bater na casa da futura amante. Foi com tudo, sem receio, sem temperança e sem propósito maior que o de vencer a si mesmo. Atendeu à porta a empregada, Antonia. A mulher não enxergava bem e parou na frente do homem ensandecido arregalando os ouvidos. - Gostaria de falar com a dona da casa. - E o nome do senhor?
A mulher pediu licença e fechou a porta novamente com todos os ferrolhos. Vizinho da frente não é apresentação. Poderia ser algum ladrão. Carmen apareceu com os peitos apertados sobre a sacada. Chamou-lhe e perguntou o que queria. Carlos levantou os olhos timidamente. Quando os dele encontraram os de Carmen, um calor intenso atravessou a alma abrindo-lhe os braços, erguendo-lhe o rosto e o fazendo cantar “Toreador”. Estalava os dedos e sorria numa alegria tão intensa que Carmen virou Carmen, Antônia sorriu da sala e Amância, sob o chuveiro quente, não ouviu senão a própria voz que cantava a habanera.
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