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Ilustração: Jackson Pollock
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Funeral dos relógios
Rodrigo Rospy van Spinelli
David chegou mais cedo do trabalho. Subiu os degraus do velho
casarão com uma calma fora do comum. Saboreou o esmero dos
músculos enquanto erguia a perna para cada passo.
Entrou em casa, lançou os sapatos ao alto. Serviu um copo de
uísque e atirou-se no sofá.
David exibia expressão estranha enquanto consumia o líquido
alcóolico. O olhar para cima, para o nada, o colocava em outro
universo, um mundo indecifrável e inatingível. David estava
flutuando.
O banho foi mais demorado que costumava ser. Lavou cada parte do
corpo com minúcia, um capricho inédito. Secou-se aos poucos. Por
trás do vapor que cobria o banheiro, um sorriso leve aparecia no
espelho.
Escolheu o que usar medindo cada tom, analisando as peças como
se definisse a roupa do seu funeral, o traje definitivo. Vestiu
um terno preto.
David gastou os minutos seguintes nos detalhes. Aplicou uma dose
exata de perfume. Domou o cabelo selvagem, aparou os pêlos do
nariz. Colocou no pulso o belo relógio de ouro.
Foi quando David estremeceu. Olhou como se encarasse um
desconhecido. Mostrou intensa antipatia pelo objeto.
Com expressão de nojo, David arrancou o relógio do pulso e
atirou-o no cesto de lixo. Respirou fundo, apoderado de intenso
alívio.
Voltou à sala, ao sofá e ao uísque. Admirava o sabor
envelhecido. Degustava cada mililitro como se fosse uma garrafa.
De súbito, fixou o olhar na parede. Um imenso cuco dava as horas
pontualmente. David buscou um taco de beisebol e surrou o
objeto. Destruiu, impiedoso, o animal de mentira e os ponteiros
de madeira.
Mais uma dose de uísque puro fez-lhe companhia. Então, a sede
tomou conta do homem. Entrou na cozinha devagar e abriu a
geladeira. Serviu-se de água fria. Parou diante do relógio
redondo da parede. Sem pressa, jogou-o contra o piso gelado.
David deu as costas e saiu do ambiente. Quando desligou a luz,
percebeu o brilho verde no mostrador do forno de microondas.
Voltou para o interior da cozinha e empurrou o alvo
eletrodoméstico. O estrondo da queda gerou um breve sorriso em
David.
Retornou ao sofá da sala, misturou o uísque. Bebeu uma dose em
poucos segundos. Logo foi outra. Sem moderação.
Dali, ele avistou um alto relógio na sala de jantar. Desafiava-o
com aqueles ponteiros ultrajantes. O homem obteve uma serra
elétrica e destroçou a peça. Sobrou nada.
Ao desligar a coisa, ouviu o doce sussurro da campainha.
Olhou-se no espelho devagar, ajeitou a camisa e dirigiu-se à
entrada.
Com movimento sutil, abriu a porta de madeira. Deu um passo
adiante e aproximou-se. Sem pressa, beijou com enorme entusiasmo
aquela bela garota de dezoito anos.
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