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Ilustração: Jackson Pollock
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Da arte taciturna de um serial killer
exasperado
Veronika B. Kozlowski
Silêncio.
Ela não percebe, a noite também não. Ninguém percebe, tampouco
Deus, aquele crápula. Escondo-me. Meus desejos recônditos cada
vez mais subterrâneos.
Desculpe querida, um dia o mundo explode. Big-Bang. Um dia
escarro meus fantasmas pela boca. A vida rasga e fode. E a
carne, ah minha Florzinha, arde como mil infernos. Um cara
fantasiado de coelho carregando balões sempre bate na porta da
minha cabeça às seis em ponto. Os balões escapam de sua mão e
desintegram-se misturados ao éter. Ele tira a cabeça de coelho e
chora. Ele tem dentes de coelho. Chora pra cachorro o
desgraçado. Você passa na rua, minha Florzinha, teu aroma de
alecrim. Oh sim, eu também queria ser especial, queria fazer
falta, você faz falta. Você é especial pra caralho. Teus olhos
estranhos me maltratam a beça.
No começo eu a espreitava de longe. Depois comecei a levar um
pedaço de arame escondido, só pra ter a sensação. Cada vez mais
perto, teu aroma de alecrim. Mas agora, agora eu ando muito
doente.
Há um vampiro a solta na solidão da noite. Ele perambula cheio
de raiva com o choro sufocado na garganta. Só sai na sombra e na
garoa. Tem uma menina de vestido branco rendado que fica no
balanço pra lá e pra cá bem no fundo dos meus olhos. Não sei o
nome dela, ela nunca fala comigo. É uma boa menininha, ela tem
uma bicicleta com cesta de margaridas, tem um iô-iô quebrado e
um gnomo que fica sempre sorrindo. Ela nunca fala comigo. Eu
ando muito doente.
Toda vez que você se afasta, minha Florzinha, parece estar mais
presente. Vinte e quatro horas, todo santo dia. Ainda morro.
Meu coração sujo parece uma caixinha de música, daquelas antigas
com a bailarina rodopiando no meio e uma melodia triste saindo
de dentro dela.
Então ele te toma nos braços botando um sorriso idiota em sua
cara idiota. Você é a cadelinha dele. Tão medíocre e obediente.
Como num programa de tv. Abraçados como naqueles ridículos bolos
de casamento.
Oh sim, eu trago um soco-inglês no bolso. Sempre estou pronto
pra mais um round contra a felicidade. Desprezo qualquer idéia
de felicidade. Eu ando muito doente.
Enterneço-me com teus olhos pálidos, quase fora de órbita. Você
parece uma santa. Minha Santa Joana dos Matadouros. Tão alva e
imaculada. Você sangra tão bem, minha Florzinha. Uma canção de
ninar para minha criança morta. Vou esperar eternamente seu
aceno e seu sorriso de soslaio. Tão bela.
Enterrei pra sempre dentro de seu peito o último resquício da
minha doçura.
Silencio.

VERONIKA B. KOZLOWSKI é escritora e jornalista. Publicou
Ode a Sade: contos perversos (1994), A vampira B (1999),
Homem com roupa de gorila (2001) e Fuck tatuado no
braço (2003), todos em edição da autora. Escreve o blogue
Vampira B e teve textos publicados na revista Les, nos sites
Germina Literatura, Sobre Elas, entre outros.
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