Rodrigo Azevedo da Silva

Carmen, o fenômeno

 

Elaine Pauvolid

 

Carmen surge com Prosper Mérimée em 1847, novela. Em 1875 estréia a ópera de Georges Bizet, 1983 o filme de Carlos Saura. Percebemos a personagem Carmen manter uma identidade, mantendo especificidades nas três produções. No livro há uma Carmen ladra, assassina, capaz de cuidar do amado com dedicação sincera e atitudes ternas. Sua liberdade, os envolvimentos amorosos são insuportáveis, seu amante a mata. Na ópera, Carmen é operária de uma fábrica de charutos, seduz Dom José. Aparece Micaela, mocinha da terra natal a contrastar com Carmen, a cigana. Micaela, contato com a mãe amada. Carmen, paixão, desvio e a mulher amada. Carmen encontra novo amante, um toureiro. Ela se nega a ficar com Dom José que a mata ao som de aplausos às verônicas em segundo plano. A heroína cai suave sobre os braços algozes, tal pássaro inocente. O filme retrata a montagem do balé Carmen ao mesmo tempo que uma trama concomitante a esta se desenvolve. Procura-se uma bailarina para interpretar Carmen. Não importa a técnica aperfeiçoada ou a experiência das candidatas. O que procura, o coreógrafo encontra numa bailarina inexperiente. Apaixonam-se e as histórias se entrelaçam, livro, ópera e roteiro.

Percebem-se três "Carmens" distintas. A da ópera é uma heroína, possui força e nobreza por seguir seus desejos. A Carmen do livro rouba, incita crimes e quando é assassinada não tem a morte triunfal que aparece na ópera. No filme, Carmen é uma mulher comum. O coreógrafo lhe vai dando os contornos da Carmen do livro e da ópera e aparecem as citações a estas duas outras obras. Mesmo com tantas diferenças a identidade permanece. Trata-se do "ser poético". Na novela de Mérimée, somos surpreendidos por momentos em que uma imagem se destaca, presentifica-se em nós. Surpreendidos por tal imagem, somos remetidos a outros universos, a outras imagens. Não se trata de uma imagem material e sim de um estado de alma, de um movimento, de uma ação. Estado que nos toma, movimento que se desprende do livro. O movimento é o de rapidez, o de revezamento entre amor e paixão, entre belo e feio, lealdade e traição, liberdade e aprisionamento, vida e morte. Tudo isso está presente em Mérimée, ressurge em Bizet de forma transformada e reaparece em Saura.

Como uma Fênix, mais do que simples fonte de inspiração para Bizet e librettistas, algo parece surgir na novela de Mérimée e se instalar na ópera de forma independente. Tal pássaro de rapidez absoluta, não nos permitindo a definição da trajetória e que nos entontece com presença eterna. Citemos G. Bachelard: "A Fênix dos poetas explode em palavras inflamadas, inflamantes. Está no centro de um campo ilimitado de metáforas. Uma tal imagem não pode deixar a imaginação tranqüila." ( Fragmentos da Poética do Fogo). Esta se apresenta quando o narrador descreve Carmen com recortes poéticos na narrativa. A poesia está no "nó de duas palavras valorizadas por sua união" (G.B). Os recortes não falam de substâncias, possibilitam-nos experimentar o dinamismo que produzem por metáforas repetidas, conjugadas, produtoras de impacto. "Para não vos fatigar com uma descrição prolixa, acrescentarei apenas que a cada defeito ela reunia uma qualidade que se destacava mais fortemente ainda pelo contraste"(Carmen suivi de les Âmes du Purgatoire, Prosper Mérimée). A cigana é representada pelo conjunto entre o bom e o mau, o bem e o mal, o feio e o belo. Tal Medusa, cuja beleza do rosto contrastava com o terror de seus cabelos de serpentes - e o reflexo no escudo de Perseu o protegeu talvez por, entre outros significados, estar o de ser reflexo turvo demais, impedindo o contraste definido. Eis o ingrediente para repetir Carmen de forma singular, a sedução dos contrastes. Fala-se de duas faces da moeda, de equivalências. O que seduz em Carmen e petrifica em Medusa são os opostos lado a lado. Na ordinária de Merimée os roubos, a ternura. Nas árias de Bizet, as modulações indo sempre do grave ao agudo bruscamente, permitindo apenas a cantoras experientes a dádiva do convite a esta interpretação. A Habanera traz na letra a conjugação "l’oiseau rebel". Os outros personagens giram como satélites pois a protagonista impõe a todos um desafio: o de viver segundo a lei do desejo, o confronto com os opostos.

Bachelard coloca que um pintor poderá pintar uma Fênix incendiada e dar a sua obra o título de O amor. Da mesma forma Carmen ao cantar a Habanera suscita muitas imagens, dentre elas a da liberdade. G.B. prossegue dizendo que a função fabuladora adquire toda a sua extensão pela palavra. A imagem visual é apenas um instantâneo. A função fabulatória pertence ao reino do poético. Ao analisar a imagem da Fênix, destaca os atributos que escapam à condição natural e se instalam em outro terreno, o reino do poético. A imagem Carmen que possibilita muitas metáforas é o que a liga a imagem da Fênix. "Imagem tornada Verbo". A imagem Fênix suscita uma série de metáforas que se contradizem e ao mesmo tempo se alimentam mutuamente: a vida, a morte, o masculino, o feminino... Carmen promove uma dança de contradições, um revezamento de opostos. Tal imagem não se descreve, só podemos nos referir a ela através das metáforas que é capaz de suscitar. Como Bachelard diz a respeito da Fênix: "A Fênix é então um Instante, um Instante Poético. Não se descreve o que surge. O gênio está em provocá-lo". Aproximando Fênix de Carmen, esta citação resume o que Mérimée, Bizet e Carlos Saura fizeram ao produzirem suas obras. O que parece surgir na novela de Mérimée e instalar-se na ópera, renascendo de outra forma no filme de Carlos Saura e que ressurge em nossa alma, a cada vez que entramos em contato com qualquer uma das três expressões, é Carmen, a mesma Fênix perpetuando-se em imagens sempre renovadas.