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Ilustração: Jackson Pollock
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A roleta e a calçada
Tamara Sender
Policiais tentavam ordenar o trânsito, e um cordão de isolamento
mal conseguia afastar os curiosos que se acotovelavam, os carros
que reduziam a velocidade e se aproximavam da calçada, as
velhinhas horrorizadas diante do corpo. Onde esse mundo vai
parar?, choramingou uma delas, com as mãos abertas para cima,
num movimento que cobrava resposta divina. Aposto que usava
drogas, comentou outra. Isso é crise de abstinência, concordou
um senhor de roupão e chinelo, que fora acordado pelo tumulto da
rua e descera apressado do prédio, com seu chiuaua no colo.
No dia seguinte, os jornais estampavam reportagens do episódio
na seção policial, embora a ética jornalística proibisse a
imprensa de noticiar suicídios anônimos. Era preciso violar a
regra neste caso, porque no cubículo onde vivia o pobre-coitado
que se matou havia um milhão de dólares em notas de cem.
Pobre-coitado dono de um milhão!
Marcelo, o suicida, morava na Praia de Botafogo, no edifício
Rajah, que passou a se chamar Solymar, num esforço para melhorar
a fama do local. Mas o nome — digno de heroína de novela
mexicana — não chegou a emplacar. Contam que no Rajah uma
senhora já teve suas compras roubadas no elevador, que um
sujeito já foi atropelado por uma moto em pleno corredor do
quinto andar e que prostitutas cultivam uma clientela no próprio
prédio.
O apartamento de Marcelo ficava na lateral do edifício. Da
janela do quarto, via-se apenas um muro. Não havia nesga do céu
nem da rua. Pelo menos ele não podia reclamar de barulho do
trânsito. Até lá não chegavam as buzinas nem a agitação das
calçadas. No máximo ouvia o burburinho do próprio prédio, e toda
manhã acordava com o cheiro do churrasquinho de gato que uma das
moradoras vendia no pátio interno.
Espremia-se num apartamento que não tinha nem cozinha. No
dormitório, um colchão sem lençol, um armário de duas portas,
uma cabeceira de três gavetas com abajur em cima, mas sem
lâmpada, e, apoiado no frigobar, um televisor da CCE de quatorze
polegadas. Mas não se queixava do aperto, pelo menos é o que
dizem os mais íntimos. Morava na Zona Sul, tinha tudo por perto,
e toda sexta saía com os amigos para algum boteco das
redondezas. O chope era quase um ritual religioso, a que todos
eles se entregavam com devoção, após uma semana de ócio
entediante para alguns e trabalho entediante para outros.
Naquele sábado, Marcelo havia ido sozinho ao Bingo Copacabana,
origem do milhão encontrado em seu apartamento. Numa obstinação
até então desconhecida por ele próprio, passara quase a tarde
toda na roleta, onde arrematou a maior parte do dinheiro. Também
ganhou uns trocados em máquinas caça-níquel. Não arriscou nada
em jogos de carta, porque nunca entendeu as regras direito.
Antes desse dia, o máximo que o acaso havia sido capaz de lhe
dar era um CD do Djavan sorteado no curso intensivo de inglês
que ele estava freqüentando.
Sozinho, com a maleta de dinheiro nas mãos, decidiu pegar um
táxi e ir direto para casa. Pagou com nota de cem dólares e não
pediu troco. Em casa, abriu o vinho Almadén guardado no armário
para ocasiões especiais, e bebeu alguns goles num copo ainda
marcado com restos de rótulo de requeijão. Deixou a mala aberta
em cima da cama e se trancou no banheiro. Apesar de morar
sozinho, tinha mania de fechar a porta do banheiro, como se
sentisse vergonha de fazer suas necessidades na frente dos
móveis da casa.
Fez um xixi demorado, tranqüilizador. Chegou a fechar os olhos
para apreciar com mais argúcia a harmonia do barulho que vinha
do vaso. Respirou fundo, suspirou e disse: Ai, ai...
Marcelo estava satisfeito.
Tampou o vaso sem dar a descarga e subiu nele. Abriu a janela do
banheiro, esta sim de frente para a rua, se esgueirou e, sem
hesitar, se atirou lá de cima. Era o sexto andar. Caiu morto na
calçada. Por pouco não atingiu um ambulante peruano e sua
barraca de brincos e colares.
No depoimento à policia, Antônio, um de seus amigos mais
próximos, disse ter encontrado Marcelo na véspera do suicídio,
num pé-sujo da Siqueira Campos, em Copacabana. Uma vez por mês
eles confraternizavam ali, num encontro que chamavam de "chope
do esquecimento": conversar, beber e esquecer.
Mas Antônio não havia esquecido. Na tevê do boteco só pegava a
Globo, que, naquela noite de sexta-feira, exibia o filme As
horas. Quando Virginia Woolf começou a entrar no rio com
grilhões e pedras amarrados ao pé, Marcelo apontou o dedo para a
tela — após acompanhar as muitas cenas passadas na mansão onde a
escritora vivia — e gritou:
— Vocês tão vendo? Suicídio é coisa de rico!

TAMARA SENDER nasceu no Rio de
Janeiro em 1981. É formada em Jornalismo pela UFRJ, com
pós-graduação em Literatura Brasileira pela Uerj. Trabalhou por
mais de três anos numa agência internacional de notícias, mas
decidiu largar o emprego em fevereiro deste ano para se arriscar
na escrita literária, sua verdadeira necessidade. Além de
contos, escreve poemas.
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