Ilustração: Jackson Pollock

Morte de Clarice Lispector

Mírian Freitas

Dedicado ao poeta Ferreira Gullar


Uma tarde.

Apenas uma tarde do dia 9 de Dezembro de 1977.
A multidão apressada arrastava os pensamentos cotidianos enquanto transitavam pela Avenida Rio Branco. O calor, como sempre, esquentava os corpos, os olhos. Derretia o cérebro de qualquer um. Era urgente: precisava chover. O Rio de Janeiro, uma cidade de azuis, transpirava debaixo do sol, amarelando-se pelos raios fortes de luz. Uma imagem perfeita nutrida de uma beleza natural. Desarmada.

Clarice Lispector havia morrido. A escritora havia se estendido no chão em busca do fato inesperado. Da luz. Clarice morrera. Nem eu mesma soubera de sua morte. Na verdade, nem desconfiava. Naquele dia talvez eu estivesse brincando com meus homenzinhos de plástico nos canteiros de couves no quintal da minha casa no interior de Minas Gerais. Eu era apenas uma menina naquele dia. E, para mim, a morte de Clarice havia ficado para trás, sem dor, sem sequer uma lágrima no pensamento.

Muitas pessoas, assim como eu não souberam da morte dela. Talvez continuam sem saber, porque nem mesmo sabem quem foi Clarice Lispector.
Naquele dia as praias cariocas ferviam de gente. O mar abrigava em suas águas os pés descalços e os corpos semi-nus das pessoas. Um vento miúdo descobriu-se inquieto e soprava as árvores ali perto de Botafogo. Mil passos revoavam em desespero para alcançarem o dia que já começava a se preparar para mais uma noite de descanso e de estrelas. Enquanto tudo acontecia dentro dos ares cotidianos da cidade, Clarice estava morta. Triste como uma criança muda, cega e paralítica. Que em nada pode tocar, nada pode ver; nem mesmo uma palavra sabe falar. Meu Deus! Clarice estava morta antes mesmo do mundo acabar. Era preciso mais tempo para que a pudesse debruçar seus olhos ainda mais sobre os segredos do mundo. Sobre o vestido vermelho da mulher que atravessa a rua puxando irritada a mão de uma criança quase infeliz.

O dia estava morto e quase ninguém sabia disso.

Os relógios pararam de bater, a vida perdeu muitas esperanças e muitas lágrimas ficaram encravadas nas gargantas de alguns. Dos parentes e dos amigos. Clarice desabotoara a alma para se mostrar. Para não cair no túmulo sem ser vista. Sem mesmo ser o que não foi. O que não deu tempo se se tornar. Tudo acontecia enquanto a escritora morta relutava entre si e si para manter-se viva dentro das páginas que já havia escrito. Dentro do próprio mundo que inventara, rasgado pelas manhãs cariocas de vapor e nódoa. Manhãs sem muitos ventos, só sol e mar. Assim sem muita espera entregou-se ao absurdo, à insanidade de dizer e escrever o que se acumulava dentro de sua permanência humana e existencial aqui na Terra. Vivera, pois, lá perto do mar, do azul cor de céu; do calor sem lágrimas, sem hot chocolate, porém era tudo que sempre precisara. De um calor encharcado de sombras imaginárias e epifanias.


O Rio de Janeiro sempre fora o seu lugar. Mesmo depois de Recife, da Europa e dos Estados Unidos nunca desistiu de ser uma carioca. Mesmo sendo muito diferente do que era, não poderia ser outra coisa a não ser uma mulher revisitada pela aura azul do mar. Pela sutileza transcendental das montanhas sobrepostas nas águas da Baía de Guanabara pelas mãos do seu Deus (daquele que uma certa vez jogara um enorme rato morto no meio do seu caminho, lembra-se?!). Por isso fora escolhida para morrer ali mesmo, naquele contra-tempo inesperado do mês de Dezembro, antes mesmo das chuvas de natal, dos presentes que viriam. Da vida que poderia se prolongar mais entre o seu desbotamento e sua ânsia de permanecer de pé como uma árvore dessas que perpetuam para darem sementes depois dos frutos.

Agora, apesar de tudo.

Tocando nos seus livros ao limpar a poeira da estante, descobri que Clarice, mesmo sem saber, é uma árvore que perpetuou e acredito que assim como eu, muitas pessoas se tornaram frutos das sementes que a escritora lançou através dos ventos vesgos que atravessam o atlântico e o pacífico e vão de encontro ao mundo. E onde quer que ela esteja, estará nos olhando com seus olhos enviesados, ragados; olhos de lampejos azuis. Olhos de mar, de fôlego. Epifânicos por natureza.

Morta-e-viva. Assim alguns se despediam do seu corpo à beira do fato noturno daquele dia. Os amigos a olhavam morta e a admiravam relutantes em acreditar que aquilo pudesse ser verdade.Talvez aquele momento pretendesse ser um sonho acima da palavra mais azul de um universo ainda desconhecido por ela. Muitos sentimentos eram experimentados pelas pessoas que ali estavam olhando ternamente para a morte dela. Indignação. Mas por que a morte de Clarice Lispector? Deus explicaria isso? Seria para sempre? Triste e desconfiadas as pessoas ali nutririam por ela os mesmos sentimentos de antes. Depois daquele dia tudo ficaria inesquecível como um quadro na parede. Mais um vulto-vivo a mostrar a sua face imortal à humanidade.

Uns amigos ficaram. Outros partiram dali antes mesmo dela ser devolvida à terra de onde ela nunca veio. O amigo e poeta Ferreira Gullar foi uns dos que saíram antes. Esperar pra quê? Tudo menos ver Clarice Lispector ser enterrada. Seria como presenciar a sua morte por duas vezes. Duas vezes o sofrimento. A indignação. A pergunta a saltar na ponta da língua para não encontrar resposta. Não. Decidiu ir. Pegou um táxi e saiu. Nem olhou para trás para não ver o de sempre. De olhos secos e com a alma entornando-se de dor, partiu.

Lá fora, tudo permanecia o mesmo. Nenhuma chuva de verão. Só o sol a esbanjar a luz, os mistérios do menino-deus. A vida continuava mas Clarice estava morta. As crianças voltavam da escola, os carros corriam em direção a um destino qualquer. A praia abrigava os banhistas. O presente não acabaria ali. O futuro chegaria sem nenhum pesar e os homens mais comuns da Terra iriam se encher até o pescoço por uma felicidade artificial.


Dentro de um táxi Ferreira Gullar com uns olhos de chuva ameaçava pensar em sua amiga Clarice. Então a voz do poeta virou imagem a tecer o momento da chaga, o vestígio da saudade quase íntima de alguém que ficou para trás embrulhada em segredos e pedaços de azuis.Aquele era o momento. O passo do homem sem entender bem as desrazões da morte.

Do nunca mais.


Enquanto te enterravam no cemitério judeu de São Francisco Xavier ( e o clarão de seu olhar resistindo ainda) um táxi corria à borda da Lagoa na direção de Botafogo. E as pedras e as nuvens e as árvores no vento mostravam alegremente que não dependem de nós.