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Uma certa cicatriz
Liliane Oraggio Cocchiaro
Era aniversário de Flora. Passava dos quarenta anos e ainda
sabia pouco a respeito do pai. Apesar de morarem no mesmo
endereço durante dezenove anos, eram estranhos. A intersecção só
acontecia quando ela provava das saladas bem temperas e das
cocadas feitas no tacho que ele preparava. Na cozinha, fazendo
delícias fugazes, Jairo conseguia reavivar parte mole que ainda
restava em sua alma quase seca. Era a melhor memória que tinha
dele, já que a morte permite editar, guardar apenas os bons
sabores.
Aquele homem de traços italianos, olhos verdes emoldurados por
sobrancelhas e boca bem desenhadas, tinha no braço direito uma
cicatriz circular. A pele enrugada ficava mais branca quando
tomava sol. Costumava fazer isso ali mesmo no quintal da casa
pequena. Sempre tinha morado em ruas desassossegadas e ficava
perturbado com os barulhos rotineiros, o som dos carros, a voz
das vizinhas, o bater das portas. Jairo parecia querer para a
cidade o mesmo silêncio sob o qual tinha congelado seu passado.
Só usava camisas de mangas compridas, mas quando acontecia a
coincidência de arregaçar os punhos e abraçar Flora, os olhos da
menina ficavam presos na mancha. Redonda, redonda. O dedo
indicador, ainda delicado, apontava a marca em relevo:
- O que é isso?
- Foi o bicho que mordeu, dizia recolhendo o braço.
- Bicho grande?
- É. A única sílaba era tão rápida quanto o gesto de baixar a
manga sobre a cicatriz. O abraço se desfazia e mudava-se de
assunto.
Isso foi há muito tempo. Era aniversário de Flora. Depois da
infância, os abraços escassearam. Sobraram as monossílabas
órfãs. Meio perdida, ela cresceu, saiu da casa, foi cedo levar a
própria vida tateando seu mar de ambigüidades. Por sorte, sabia
nadar, mas isso não a livrava do cansaço das braçadas em alto
mar. Ela demorou a perceber que era, das cinco irmãs, a filha,
mais parecida com o pai e ambos se enredaram num fio paralelo,
duplicado, que não se rendia às dobras do tempo.
Ele, Jairo, cedo descobriu o sexo com os primos mais velhos.
Muito antes do movimento hippie, fumava maconha. A droga
amolecia os sentidos e aflorava sua habilidade para seduzir em
azul e cor-de-rosa. Enquanto os outros rapazes gemiam por nesgas
de cintas-ligas, sutiãs de bojo, meias de seda, ele se acanhava
em namoros difíceis. Se apaixonou pela irmã adotiva. Dora, a
matriarca, tinha três filhos homens. Não podia enchê-los de
fitas e nem amarrá-los a si para ter sempre companhia. Adotou
Marina, já mocinha, que logo atiçou Jairo com sua sensualidade
inocente. A mãe não tolerou os olhares lascivos, o fogo
crescendo debaixo do seu nariz. E, mesmo tendo que abrir mão da
garota, despachou o perigo de volta para a família de origem.
Assim o moço foi apartado do seu primeiro amor. O segundo afeto
era uma vizinha magra e sardenta. Eles namoravam no portão,
todos os dias. Cumprido o protocolo, Jairo estava livre para
passar as madrugadas como gostava: dirigindo o táxi,
transportando os que iam para o pronto-socorro e os que
transitavam nos bordéis da São Paulo, dos anos 40. Se acalmava
com o frescor da noite, com as conversas rotas da turma de
notívagos que se reunia no Largo perto do ponto de táxi. À
noite, gato pardo.
Quando o dia amanhecia, ele tomava o café forte, punha o pijama
Presidente e mergulhava em doze horas de sono inquieto. Lá
estavam sempre, em viscosa espera, as serpentes. Mordiam suas
mãos e perfuravam seus braços, tingindo tudo de sangue e
desespero. Quando as víboras venciam, ele acordava exausto dessa
luta insana, diária. Jogava longe os cobertores, secava o suor
com as costas da mão e, ainda com o rosto marcado pelo pesadelo
familiar, tomava um banho, se vestia alinhado, ajeitava o topete
espesso com a brilhantina. Já sem lembrar das cenas de
travesseiro, saía para mais uma noite.
Precisava dos passageiros para ganhar o sustento e poder comprar
as camisas de cambraia e os sapatos de pelica. Precisava afagar
a moça magrela na frente de todos. Precisava da droga, para
anestesiar o amor e o ódio que sentia pela mãe. Dora, a
matriarca podia ser doce e ácida, no mesmo instante. Se oferecia
em carinho generoso e, num átimo, destilava fel. Prometia, quase
dava, mas não dava. Foi amamentado com esse jogo, subjugado pela
duplicidade desde a infância.
Aos 20 anos, a paixão por um primo agitou o desejo e o coração
do homem. Enquanto andavam lado a lado numa noite de chuva,
Jairo embriagou-se com o cheiro másculo do outro, que percebeu
seu tremor e correspondeu sem cerimônia, roçando o seu corpo
contra o dele. Mesmo mantendo o namoro no portão com a moça
magrela-sardenta-virgem-de-tudo, o instinto falava mais alto. Os
dois rapazes pegavam um desvio na madrugada e se entregavam a
transas furtivas. Escadas sombrias, becos, vielas bastavam para
a intimidade bruta que não exigia definições, que sumia a luz do
dia, embora latejasse nele o tempo todo, sem delicadezas.
Com o desejo correndo por esse trilho, as víboras pararam de
mordê-lo tão forte, mas toda essa ebulição abalou suas raízes e
derramou o amor de um jeito corrosivo e sem controle. Pelo outro
homem. Por si mesmo, centro do mundo. Pela mãe perversa. O corpo
tão viril, nessa tempestade em alto mar, precisava de âncora. A
mais próxima: a dor. Como poucos e marginais faziam na época, se
expôs ao tatuador. Um brutamontes, caolho que trabalhava numa
oficina sem janelas, no centro da cidade. Por uns trocados, ele
fez no corpo a síntese daquela tormenta. Escolheu tatuar as
quatro letras viscerais: Dora. O nome foi circunscrito a uma
moldura em que duas serpentes se entrelaçavam formando um
coração. Ele odiava agulhas. A anestesia era conhaque puro.
Chegou a desmaiar algumas vezes para suportar as centenas de
picadas metálicas que imprimiram na carne fina do antebraço
aqueles amores impossíveis e viscosos. Saiu da maca ainda tonto,
envolvido pelo cheiro de sangue e de suor do ato consumado. Ao
menos aquela imagem, era só sua e para sempre.
Quando chegou em casa, a mãe estava metida na camisola puída,
passando o café forte, bem devagar. Era assim que ela costumava
esperar por ele e pela monotonia repetente. Mas naquela quase
manhã foi surpreendida por Jairo. O filho tirou a camisa e
exibiu sua prova de amor e de revolta. O impacto daquela visão
arregalou os olhos da mulher e a lançou a dez passos para trás.
Recuou para não bater nele, irada de ver exposta a evidência
marginal e efeminada. Recuou para não beijá-lo apaixonadamente,
pois nenhum outro homem tinha lhe feito tamanha reverência.
Nenhum tinha declarado que a queria sempre, no corpo, em cada
movimento, com destaque e moldura. Depois desses segundos de
torpor, em que o tempo e o espaço não existiram, ela começou a
chorar e os gritos encheram a casa toda, bem misturados com o
cheiro do café. Berrou até cansar. Ele se trancou no quarto,
feliz por ter feito o que queria. Decepcionado pela brutalidade
dela. A pele machucada latejava. As serpentes vieram, como
sempre, subindo do braço para o pescoço, deslizando pela boca,
pelo peito, pelo sexo.
Essa dor só seria superada, uns quatro anos mais tarde. Os
encontros com o primo já tinham a consistência da
clandestinidade madura, bem encapsulada pela prática furtiva e
pelo silêncio.E foi depois de brigar com a mãe por dinheiro,
humilhado e raivoso, ele tentou remover o nome dela jogando
ácido sulfúrico sobre a figura potente. A química roeu a carne
delicada. Dessa vez, a dor era quente, lancinante, quase
erótica. Quase suicídio. Antes de ser cicatriz, o rombo na pele
infeccionou, virou febre, convulsão. Mas aquela mãe irremovível,
a mesma que provocou o sofrimento, cuidou com zelo até dar a
vida ao filho. De novo.
Era aniversário de Flora. Filha desse filho. Um livro sobre
tatuagens estava sobre a mesa e a mãe falou a queima roupa:
- Lembra daquele sinal que seu pai tinha no braço?
- Claro.
- Era uma tatuagem com o nome da mãe. Mas ele nunca falava
disso. Só descobri depois que ele ficou velho. Um dia contou,
mas não explicou muito.
Aquela mulher doce nunca tinha pedido muitas explicações, mas
essa pista vaga era a peça que faltava para o quebra-cabeça que
há tempos Flora tentava montar. Por que só se apaixonava por
homens ambíguos ou doentes? Era evidente que a teia das gerações
obedecia a uma geometria precisa. Ele mesmo, seu pai era
ambíguo, sobrevivente, doente de raiva e de amor. Trancado.
Casou tarde, não com a magrela das sardas, que morreu de câncer
ainda muito jovem. Gostou de outra que morava em outra cidade.
Com pouca intimidade, casou. Quando saiu das asas matriarcais,
enterrou seu segredo. Sua pulsão sucumbiu, convertida em medo.
No começo, ainda encontrava o primo, mas não considerava que
isso fosse traição, até ser surpreendido pelo nascimento das
filhas e pela tuberculose. Tristeza explícita, atenuada por
cocadas e saladas frescas.
Era aniversário de Flora. Jairo, não era apenas seu pai, mas uma
pessoa desconhecida que tinha revelado sua parte mais
clandestina, muitos anos depois de morto. Assim de repente,
talvez com o consentimento de sua alma que ainda tinha sede de
compreensão, as cartas foram parar na mesa. Embrulhadas para
presente. Era aniversário de Flora: a filha desse filho. A
mulher recolheu os fragmentos do antepassado, como quem limpa um
ferimento fundo, como quem estanca o veneno inoculado. Como quem
toca uma jóia finíssima. Reconheceu-se herdeira daquela
transgressão torta, daquela marca de nascença. Cicatriz de
machucados muito antigos. Talvez agora seu amor pudesse mudar de
sentido e direção. Ainda havia tempo. Era aniversário de Flora.
LILIANE ORAGGIO COCCHIARO,
nasceu em São Paulo, é jornalista, editora de
Comportamento da Revista Marie Claire e gostaria
muito de saber sua opinião sobre “Uma Certa
Cicatriz”.
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